Orquestras municipais de SP em dose dupla

Saindo vitoriosa ou não contra aAlemanha no domingo, a seleção brasileira de futebol conseguiubagunçar toda a programação de concertos deste fim de semana doTeatro Municipal. A princípio, a Sinfônica Municipal iria seapresentar no domingo de manhã, seguida por um concerto às 17horas da Experimental de Repertório. No início da semana, noentanto, o programa da manhã foi passado para as 20 horas. Naquarta-feira, foi cancelado, mantendo-se apenas na segunda ànoite.Horários acertados, o pentacampeonato garantido ou não,o público paulistano tem, nos próximos dias, a chance de ver deperto o trabalho das duas orquestras estáveis do Municipal, soba direção de seus regentes titulares. Domingo, Jamil Maluf e aExperimental recebem como convidado o pianista José CarlosCocarelli e interpretam peças de Borodin, Saint-Säens e Dvorak.Na segunda, é a vez da Sinfônica Municipal, sob regência de IraLevin, tocar Berlioz, Bártok e Beethoven. Também participam doconcerto o Coral Lírico Municipal e o Coral Infanto-Juvenil daEscola Municipal de Música (EMM).Radicado na França há 17 anos, Cocarelli define oConcerto n.º 2 para Piano e Orquestra de Saint-Säens comouma peça "deliciosa", que coloca o intérprete entre o rigor e"a liberdade de passear pela estrutura delineada pelocompositor". "O compositor queria um certo rigor estrutural,pensou nisso, mas o intérprete precisa buscar formas de aliar aisso um fundo de fantasia, cores, humor, diferentes estados deespírito e de caráter", diz ele. "É o melhor concerto dele, umde seus momentos mais felizes", completa o maestro Maluf.O programa tem, ainda na primeira parte, Nas Estepesda Ásia Central, do russo Borodin, peça que recria a trajetóriade uma caravana oriental de camelos, escoltada por umdestacamento russo, pelo deserto. É uma obra descritiva, que dáao ouvinte uma sensação de movimento calcada em dois temasprincipais, um russo e outro oriental. "Com a música, ele dá aclara sensação da caravana se aproximando e, depois, seafastando, um prenúncio de Charles Ives", afirma Maluf.Para a segunda parte, a orquestra escolheu a SinfoniaNovo Mundo, a nona escrita por Dvorak, "obra que ofuscou asoutras criações de um grande sinfonista", segundo Maluf.Querida do público, e também das orquestras ("Dvorak soubedistribuir fantasticamente os solos por todo o conjuntoorquestral"), a sinfonia foi escrita na época em que ocompositor vivia em Nova York e reproduz, de certa forma, suavisão de europeu a respeito dos Estados Unidos. "No entanto, háde se fazer uma ressalva. Sempre se fala da utilização de temasda música popular norte-americana, mas a sinfonia não é feita apartir daí. A influência está no uso, por exemplo, da escalapentatônica (tons inteiros) que lembram, por exemplo, a músicado oeste, mas todos os temas são originais, essencialmenteDvorak."E o que seria essa essência? "A alma eslava, o modocomo ele conduz o desenvolvimento de alguns temas, a influênciaclara de Tchaikovski."Coral - O programa do concerto de segunda-feir vaitrazer a Sinfônica Municipal, o Coral Lírico e o CoralInfanto-Juvenil (dirigidos por Mara Campos) na interpretação doTe Deum de Berlioz, destaque de um concerto que tem também aSuíte de Dança de Bartok e a Abertura Leonora n.º 2 deBeethoven. O maestro Levin não pôde receber a reportagem, mas,de acordo com entrevistas dadas anteriormente, o programa seencaixaria na sua intenção de, ao mesmo tempo, ampliar orepertório dos corpos estáveis e apresentar peças poucoexecutadas por aqui.O Te Deum, obra de 1849, é talvez a mais grandiosacriação do francês Hector Berlioz - seja em termos dacomplexidade da execução, repleta de contrastes, ou em números:para se ter uma idéia, sua estréia, em 1855, foi feita por quasemil artistas, incluindo um coro infantil de 600 vozes. Tendo emvista suas proporções, a obra foi qualificada pelo próprioBerlioz como "apocalíptica".Hoje, a peça é usualmente feita com menos gente no palco, o que não anula o que muitos caracterizam como "um forteespírito teatral" do compositor. Apesar da temática religiosa,acredita-se que o que mais interessava a Berlioz não era amensagem espiritual dos textos - hinos que evocam a glória e aproteção divina -, mas a emoção arrebatadora neles presente.Essas características, segundo a pesquisadora Ann Feeney, estão em perfeita consonância com a falta de religiosidade deBerlioz e possíveis intenções políticas da peça que, em suaversão original, possuía um prelúdio, uma espécie de marcha paraa apresentação das bandeiras, para marcar, provavelmente, avolta de Napoleão de batalhas na Itália.Orquestra Experimental de Repertório. Regência deJamil Maluf. Domingo, às 17 horas. De R$ 5,00 a R$ 10,00;Orquestra Sinfônica Municipal. Regência de Ira Levin. Segunda,às 21 horas. De R$ 10,00 a R$ 35,00. Teatro Municipal. PraçaRamos de Azevedo, s/n.º, tel. 222-8698.

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