WERTHER SANTANA|ESTADÃO
WERTHER SANTANA|ESTADÃO

Orquestras e teatros de ópera sofrem com cortes de verbas em todo o País

Crise leva a reduções e à necessidade de rever e consolidar modelos de gestão

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

04 Julho 2016 | 06h00

Reduções de verbas, quebras de contratos, adiamentos, cancelamentos. É com essa realidade, efeito da crise econômica e de problemas antigos de gestão, que a música clássica e a ópera brasileiras entram no segundo semestre de 2016. Uma realidade cujos efeitos variam de projeto a projeto, mas se espalham por todo o País. E tem levado instituições a readequar suas atividades ou a repensar seus planos de ação.

Em São Paulo, os cortes sistemáticos iniciados em 2015 pelo governo do Estado acabam de ganhar novos capítulos. No sábado, o Festival de Campos do Jordão, que já havia sofrido redução no ano passado, iniciou sua 47.ª edição com orçamento 30% menor em relação a 2015. E, na sexta, o Theatro São Pedro anunciou o cancelamento de uma das óperas programadas – O Espelho, de Jorge Antunes – e a substituição de Il Trovatore, de Verdi, por Gianni Schicchi, ópera em um ato de Puccini (o Instituto Pensarte, organização social responsável pelo teatro, recusou-se a divulgar o total de diminuição em seu orçamento).

Esses cortes se somam a outros: em 2015, a Escola de Música do Estado de São Paulo precisou fazer demissões e cortes de vagas depois de uma redução de 10% no repasse estatal. A Osesp também não escapou: na temporada passada, houve diminuição de R$ 20 milhões no repasse do contrato de gestão; em 2016, foram R$ 10 milhões, levando a cortes nas áreas administrativa, técnica e de manutenção. “Se os valores do repasse forem mantidos em 2016, teremos um orçamento equilibrado, apesar da diminuição da captação neste ano”, afirma Marcelo Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp.

No Rio, o Teatro Municipal se insere no contexto da crise pela qual passa o Estado. “A crise atinge especialmente o Rio. Por isso, a primeira providência que tomamos foi buscar recursos externos e gerar mais receitas para financiar a programação artística do Teatro Municipal anunciada para este ano”, diz João Guilherme Ripper, presidente da fundação que mantém o teatro. Com isso, reduziu-se ao máximo a necessidade de cortes na programação, mesmo com diminuição orçamentária. Mas o teatro foi obrigado, na semana passada, a adiar em cerca de uma semana a estreia da ópera Orfeu e Eurídice devido a uma paralisação dos funcionários, motivada pelo não pagamento dos servidores estaduais.

Na Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, a situação é mais complicada. A orquestra anunciou em junho o cancelamento de 11 concertos e o remanejamento de quatro apresentações, paralisando as atividades até o final de setembro. O grupo não deu detalhes a respeito da decisão, mas fontes ligadas à orquestra afirmam que, além da crise, há o acúmulo de problemas de gestão que interferiram na capacidade de planejamento. Procurada pela reportagem, a Fundação OSB não respondeu ao pedido de entrevista sobre o tema.

Desaceleração. Em Belo Horizonte, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais também sentiu o impacto da desaceleração da economia e sofreu com problemas pontuais, como o cancelamento, em 2015, do edital da lei estadual de mecenato. Mas a programação na Sala Minas Gerais foi preservada. “O fato de termos buscado novos modelos de gestão, com fontes variadas de financiamento – público, privado e bilheteria – nos permite lidar com a crise de outra forma”, diz o presidente do Instituto Filarmônica, Diomar Silveira. A orquestra perdeu patrocinadores grandes, mas conseguiu, “no varejo”, outros parceiros, atingindo a meta de captação de R$ 5,7 milhões. “O investimento agora é no diálogo com o governo para que não haja revés no contrato de gestão com o estado, pelo qual nos é repassada a verba para salários”, explica.

Em Belém, o Festival de Ópera do Teatro da Paz confirmou para agosto e setembro sua nova edição – mas com apenas uma ópera, Turandot, de Puccini, em vez das três que costumam ser apresentadas. “Foi a maneira de continuar a produzir. Em menos quantidade, sim, mas com qualidade”, diz Mauro Wrona, diretor artístico.

De maneira geral, os grupos que nos últimos anos conseguiram repensar sua estrutura administrativa – na maior parte por meio do modelo de organizações sociais, como acontece em Minas ou com a Osesp – têm conseguido lidar melhor com os cortes. “Desde o início da Fundação Osesp nos pautamos por uma gestão conservadora, produzindo superávits com a finalidade de formar um fundo de capital e recursos de reserva. Esse pensamento estratégico é necessário”, diz Marcelo Lopes, para quem pensar no longo prazo permitiu a criação de “meios de sobreviver a esses primeiros anos de crise”.

Por outro lado, orquestras que, apesar do crescimento artístico, não conseguiram resolver a questão estrutural os veem potencializados em um momento de crise. É o caso das sinfônicas de Sergipe e da Bahia. Em Aracaju, os 60 músicos da orquestra atuam por meio de cargos comissionados do governo do Estado, o que mantém à espreita o fantasma da não renovação desses contratos temporários, o que levaria ao fim do grupo. E a instituição do modelo de OSs, que poderia solucionar a questão, está paralisada. “Desde 2008, por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal, os músicos não recebem aumentos”, diz o maestro Guilherme Mannis, que perdeu também o patrocínio do banco estatal, ficando sem verba – cerca de R$ 400 mil – para contratação de maestros e solistas convidados. 

O mesmo aconteceu em Salvador, onde, segundo músicos, está emperrado o processo de transformação da Sinfônica da Bahia em uma parceria público privada, apesar do recente aumento de 192% no público. O maestro Carlos Prazeres, por sua vez, chama atenção para o fato de que o grupo tem hoje 45 músicos e precisaria ter 80 para poder voltar a realizar o repertório sinfônico. A orquestra também está sem verbas para contratar artistas convidados.

Abrir mão da verba de programação foi a solução encontrada pela Sinfônica do Espírito Santo para lidar com a crise. A orquestra tem músicos temporários, sem os quais não seria possível fazer concertos. Optou-se, então, em conjunto com o governo, por continuar pagando os artistas com a verba que seria de programação. “Com isso, mantivemos nossa temporada regular, investindo nos solistas da própria orquestra”, diz o maestro Helder Trefzger. 

Se é uma solução para algumas instituições, o corte de verba de programação afeta diretamente artistas freelancers, como solistas e maestros. Sócio da ArteMatriz, uma das principais agências de representação do País, Éser Menezes fala em uma redução de mais de 50% nos contratos. “O mercado brasileiro é pequeno e o artista depende dele. Se a situação normalmente já é frágil, em um momento de crise torna-se crítica”, diz.

Momento pode servir para discussões sobre o setor

A crise econômica tem sido a vilã da música clássica brasileira desde o ano passado. Mas não é a única. Para Clodoaldo Medina, diretor do Instituto Pensarte, “esta crise não parece ser do setor e, sim, macroeconômica”. Mas, para outros gestores, a crise pode ser uma oportunidade para rever a organização da área.

Para Marcelo Lopes, do ponto de vista do desempenho geral da economia, “essa é a mais grave crise dos últimos tempos, sem dúvida”. Mas ele acredita que as instituições vivem uma “realidade melhor”, que tem a ver em especial com as novas formas de gestão. E, nesse sentido, há discussões importantes a serem feitas, uma delas a respeito da relação entre organizações sociais e governos. “Há que se manter a autonomia de gestão de forma que se permita equacionamento entre as metas de atividade e os seus riscos. O modelo foi criado para permitir a construção institucional e não mera transferência de recursos ”, afirma.

Diomar Silveira vai na mesma direção. “É preciso compreensão da sociedade a respeito do modelo, que permite a criação de uma orquestra de alta performance, com músicos contratados por CLT, respeitando a legislação e se relacionando profissionalmente com o poder público.”

Para Paulo Zuben, diretor da Santa Marcelina Cultura, são inegáveis os avanços do setor nos últimos anos. Mas, por isso mesmo, é hora de uma autoanálise. “Uma situação extrema como essa te obriga a mexer em práticas cristalizadas. Não é só fazer com menos dinheiro, é repensar a relação entre as instituições, as relações de trabalho dentro delas, ainda muito verticalizadas, o modo como os projetos se relacionam com a comunidade, fortalecendo o setor como um todo e fazendo dele não uma vítima do contexto econômico mas protagonista do seu próprio futuro, inclusive mostrando às pessoas, com os nossos resultados, como a cultura e o que fazemos são importantes. A crise existe, mas pode nos ajudar a sair da zona de conforto.” A relação com a comunidade, por sinal, tem sido fundamental para grupos como as sinfônicas de Sergipe ou da Bahia, que têm buscado programas alternativos para seguir se apresentando e se relacionando com as plateias, que ajudam a defender os grupos.

Sobrevivência, nesses casos, é a palavra de ordem, na esperança de que o momento atual não deixe sequelas incontornáveis. “Existe uma indústria cultural funcionando no País, mas falta financiamento, o oxigênio para que ela volte a operar no nível de normalidade. O problema de se ficar um longo tempo em apneia é o risco de afogamento”, diz João Guilherme Ripper. “A cultura é um conjunto de valores simbólicos fundamentais para a sociedade. Não podemos abrir mão dela sem renunciar igualmente à identidade e à consciência de nosso lugar no mundo”, completa.

Para Marcelo Lopes, o maior receio é “que algumas instituições se desestruturem ao ponto de sofrer problemas de continuidade”. “A perda da confiabilidade no mercado levaria décadas para ser recuperada. As atividades de formação também necessitam de longo prazo e continuidade para que sejam efetivas. Há um conteúdo geracional nesses programas e corremos o risco de perder os resultados de trabalhos feitos. A recuperação das perdas aqui é bem mais lenta que a recuperação da economia e das atividades com maior apelo de mercado.” 

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