Orquestra traz Stradivarius de US$ 4 milhões

Um avião procedente da Itália aterrissa no Aeroporto Internacional de Guarulhos e começa a correria. Homens fortemente armados da empresa de segurança Brinks entram na área de pouso e decolagem, esperam que o compartimento de bagagens da aeronave se abra e ficam a postos para retirar a encomenda sem que ocorra nenhum incidente.O objeto a ser retirado tem 59 centímetros de comprimento por 21 de largura e está acondicionado em um estojo reforçado. Se cair não explode, mas pode quebrar. Seria o fim do velho Cremonense, um legítimo membro da família real dos violinos feitos por Antonio Stradivarius em 1715. Seu valor aproximado: US$ 4 milhões.A cena do aeroporto está prevista para a tarde de quarta-feira, quando desembarcam no Brasil, pela primeira vez, os cem instrumentistas e cantores da Camerata de Cremona e o astro das cordas "Il Cremonense". Eles vieram para homenagear o centenário da Câmara Ítalo-Brasileira de Comércio e Indústria de São Paulo com um concerto gratuito na Sala São Paulo, sexta-feira, às 20h30.O maestro será Marco Fracassi, um cremonense que passou os últimos vinte anos dirigindo e atuando como cravista e organista em orquestras importantes da Europa. O primeiro violinista será Antonio De Lorenzi, um senhor de respeito no mundo erudito a quem o governo italiano atribui honrosas missões de empunhar os mais preciosos violinos em apresentações oficiais.Mas ninguém tem brilhado mais do que o pequeno e frágil Stradivarius Cremonense do século 18. De propriedade da prefeitura de Cremona, conservado nas dependências do museu da cidade, ele é um astro que cobra altos preços para sair de casa. A Câmara Ítalo Brasileira não revela valores, mas confirma que os referentes aos seguros contra incidentes e acidentes são astronômicos.O esquema especial de segurança no aeroporto será só o começo. Na Sala São Paulo haverá um camarim especial e exclusivo para receber o Cremonense. Na porta da sala ficarão dois agentes de segurança preparados para qualquer imprevisto. Ninguém chega perto do instrumento, a não ser De Lorenzi.Não se trata de estratégia de marketing e também não foi o sucesso que lhe subiu à cabeça. Um violino de quase 300 anos é tratado com pompas de realeza pelo fato de ser, de fato, uma relíquia que produz som inigualável. "Ele é inacreditável. Já toquei com alguns Stradivarius e senti como são impressionantes. Seu som é forte, profundo", conta Cláudio Cruz, ex-spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) e atual integrante da Sinfônica de Ribeirão Preto.O segredo de um Stradivarius chama-se tempo. Não há em seu corpo nenhum atrativo a mais que o faça diferente de réplicas chinesas, por exemplo. Mas o tempo joga sempre a favor quando se fala de instrumentos de madeira. Em geral, quanto mais velhos ficam, melhor a qualidade do som que produzem."Ele também é perfeito nos detalhes com espessura e verniz", explica Saulo Dantas Barreto, luthier que estudou 12 anos na Escola Internacional de Luteria, em Cremona.Os cálculos de especialistas que funcionam como arqueólogos dos violinos apontam que existem apenas 400 Stradivarius originais soando pelo mundo. O número de clones, no entanto, é incalculável. Há cerca de cinco anos, etiquetas originais foram roubadas de uma fábrica autorizada de Cremona. Se realmente chegaram a ser usadas em cópias, pode haver mais violinos piratas do que se pensa.O Cremonense que vem ao Brasil é um perfeito andarilho. Nos anos 70 do século 19, foi adquirido pelo músico francês Darius Gras. Com sua morte, em 1877, foi vendido a Jules Garcin, que ficou com ele por apenas três anos antes de vendê-lo ao comerciante David Laurie. Laurie, por sua vez, o repassou a um músico amador de nome M. Labitte di Rheims.Em 1889, chegou às mãos do respeitável violinista alemão Joseph Joachin. Anos antes de sua morte, Joachin o doou a seu sobrinho, que também não ficou com ele por muito tempo. Antes de retornar a Cremona, passou ainda pelo acervo de R.E. Brandt, por meio da casa W.E.Hill and Sons.O Stradivarius, apesar de sua fama de rei, não foi o primeiro dos violinos a ressoar em uma orquestra. O perfeccionista Antonio Stradivarius (1644 - 1737) ainda engatinhava quando um instrumento como este passou a ser usado por grupos de câmara. Stradivarius teve aulas com o mestre Nicoló Amati, um dos maiores construtores que a Itália viu nascer. E há registros de que o avô de Amati já havia produzido peças similares. Mas Stradi foi além dos próprios professores.Serviço: Camerata di Cremona. Sexta, às 20h30. Sala São Paulo (Praça Júlio Prestes, s/n. Grátis.

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