Margot Schulman/Divulgação
Margot Schulman/Divulgação

Orquestra Sinfônica Nacional de Washington se apresenta no Municipal

No programa, obras de Tchaikovski e Beethoven e o concerto para violoncelo de Eduard Lalo

João Luiz Sampaio - O Estado de S.Paulo,

25 de junho de 2012 | 15h49

Quando anunciou o nome do maestro Christoph Eschenbach como diretor artístico, há cerca de três anos, a diretora da Sinfônica Nacional de Washington reconheceu que estava optando pelo risco em vez da segurança. “O dramático maestro pode ser controverso, mas nunca será tedioso”, escreveu então um crítico da revista The Washingtonian - acrescentando que, para uma orquestra que buscava recuperar o posto entre os principais grupos sinfônicos dos Estados Unidos, não parecia haver prescrição melhor.

Eschenbach e os músicos de Washington desembarcaram ontem no Brasil, oferecendo ao público daqui a chance de ver de perto os resultados dos primeiros anos de colaboração. Em turnê latino-americana, eles se apresentaram ontem no Municipal do Rio e, hoje e amanhã, sobem ao palco do Municipal de São Paulo para concertos que fazem parte da temporada do Mozarteum Brasileiro. No programa, sinfonias de Tchaikovski e Beethoven e o concerto para violoncelo de Eduard Lalo.

Retóricas à parte, é preciso reconhecer que a contratação de Eschenbach esteve longe de ser um “risco”. Dono de uma das mais sólidas carreiras entre os regentes de sua geração, o alemão teve contato próximo com lendas como Herbert Von Karajan e Leonard Bernstein, é um dos maestros mais gravados da segunda metade do século 20 - para não falar de sua carreira como pianista e professor. E, se o temperamento explosivo sobre o palco, que o teria levado a deixar a Orquestra da Filadélfia por desentendimento com os músicos, pode ser visto como “elemento de insegurança”, é também possível fazer o raciocínio contrário - e ver em suas interpretações extremamente pessoais e idiossincráticas do grande repertório uma marca de exceção em tempos de padronização do gosto e da interpretação.

Eschenbach conversou com o Estado na tarde de sexta-feira, por telefone, pouco antes de subir ao palco do Teatro Solis, em Montevidéu. Diz acreditar que o programa da turnê é bastante significativo da busca pelo refinamento da sonoridade da Nacional de Washington. “Estamos falando do grande repertório tradicional, de um símbolo do período clássico, Beethoven, e outro do período romântico, Tchaikovski - além de um concerto para violoncelo pouco executado. Foi um objetivo, desde o começo de meu trabalho em Washington, mostrar que essa orquestra pode tocar bem qualquer repertório”, diz, sem deixar de chamar atenção pela presença de Blue Blazes, peça curta do compositor americano Sean Shepherd, que abre o programa de amanhã. “Esta foi uma encomenda especial da orquestra para a turnê”, conta, relembrando que a atenção com a produção contemporânea sempre foi um dos compromissos de sua carreira, o qual ele não está disposto a abandonar.

Eschenbach não se incomoda com o comentário de críticos que chamam atenção à percepção bastante pessoal de andamentos em suas interpretações - nem com aqueles para quem é essa a única marca de sua regência. Cada obra, diz, ele sente de maneira pessoal e diferente e se diz feliz justamente por conseguir, a cada releitura, descobrir algo novo. O momento do concerto, diz, não pode ser a reprodução daquilo que é preparado nos ensaios. De certa forma, sugere que a disciplina do estudo e da técnica sirvam apenas à liberdade no momento de fazer música perante a plateia. “Sem isso, não veria sentido no que faço.”

Professor “informal” de músicos como o pianista Lang Lang, que o procura sempre que prepara um novo programa, ele acredita que o papel de um maestro hoje é estabelecer uma ligação cada vez maior com o público. “Se há 30, 40 anos, essa não era uma preocupação dos regentes, hoje precisa ser - ou estamos de fato perante um futuro com pouco público.” E como se faz isso? “Educação”, a resposta é curta, mas enérgica. “Projetos sociais como os que vocês têm aí no Brasil são fundamentais porque oferecem uma opção a jovens que, na maior parte das vezes, se sentem presos, sem alternativas”, diz. “Sem educação não se consegue mostrar o valor real da arte.”

E que valor seria esse? “A arte transforma as pessoas em diversos níveis”, ele começa a responder, brincando que sabe que qualquer resposta a essa pergunta vai parecer tímida perante a importância da pergunta. “E, no caso da música, o impacto é ainda maior porque, afinal, ela se joga sobre as pessoas de maneira muito forte, em termos de expressão, para aqueles que a fazem, e também de impressão, para quem ouve e se vê transformado por essa experiência.”

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