Orquestra Filarmônica do Rio pede socorro

Por mais de duas décadas, a OrquestraFilarmônica do Rio fez a alegria de muitos cariocas, mas agora,às vésperas de completar 25 anos (em fevereiro do ano que vem),corre o risco de acabar. Com dificuldades financeiras e falta depatrocínio, o conjunto, fundado e digirido pelo maestroFlorentino Dias, reduziu drasticamente as apresentações. Em 1999, foram 64 concertos e, em 2002, não somam mais do que quatro.Segundo Dias, a prefeitura, que mantém o grupo, só repassoumetade da verba anual de R$ 200 mil e não há previsão parareceber do restante.O maestro atribui o problema à decisão do prefeito deconstruir um Teatro Municipal na Barra da Tijuca, zona oeste doRio, para ser a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB),que recebe apoio federal. "O teatro será só para a OSB e deixade fora a Filarmônica do Rio. Por isso, protestamos", diz ele.Atualmente, a orquestra carioca ensaia em uma sala emprestadapelo Clube Militar, no centro e, apesar de estar inscrita na LeiRouanet, que favorece empresas que queiram financiar projetosculturais, está sem patrocínio.No dia 30, os 65 músicos da Filarmônica farão umconcerto-protesto no Teatro Municipal, em uma tentativa dechamar a atenção de autoridades, empresários e da população paraa situação da orquestra. Será a primeira apresentação paracomemorar o Jubileu de Prata. Para o ano que vem, está previstauma missa na data de fundação (22 de fevereiro), além de 15concertos em salas fechadas e 30 ao ar livre, em comunidadescarentes. "Mas só se tiver patrocínio e apoio do governo",avisa Dias.O secretário Municipal das Culturas, Ricardo Macieiras,não retornou as ligações da reportagem para falar sobre o assunto, mas o prefeito Cesar Maia (PFL), por e-mail, informa que analisaa situação das duas orquestras, a Sinfônica Brasileira e aFilarmônica do Rio. "É preciso focar uma delas e apenas apoiaras outras", explica Maia, que reconhece estar fazendo poucopelo conjunto. "Um apoio decente teria de ser muito, muitomaior que este."O maestro, que dá aulas na Universidade Federal do Riode Janeiro (UFRJ), calcula que a Filarmônica precisa de pelomenos R$ 5 milhões por ano para pagar salário aos músicos, quehoje se apresentam em troca de cachê. "Essa é a nossa luta. Seeu pudesse pagar pelo menos R$ 3 mil a cada um deles, aorquestra teria uma vida normal." Segundo ele, essa cifra émenos de 10% do que recebem grandes orquestras Filarmônicas,como a de Nova York e a de Berlim. "Como é que um regente vaimostrar seu trabalho se não tem recursos?", questiona.Os problemas do grupo começaram há cerca de um ano, coma dificuldade para achar patrocinadores. "Em 1999, com apoio daTelemar, obtido por meio do governo do Estado, fizemos 24concertos, além de outros 40 com a ajuda de empresas, como aCoca-Cola. Mas só durou um ano", explica Dias. "Em 2002, osúnicos recursos foram os R$ 100 mil destinados pelaprefeitura."Ele lembra que, há quatro anos, a Assembléia Legislativado Rio aprovou lei que concede auxílio financeiro e outrasprovidências à Filarmônica do Rio. "Seriam R$ 900 mil por ano,mas até agora não passaram nada", lamenta o maestro, embora aAlerj informa que a lei está em vigor. O secretário de Culturado Estado confessa a impossibilidade de financiar a Filarmônica."Como já mantemos a orquestra do Teatro Municipal, fica difícilse incumbir de outra", justifica Antônio Grassi.O repertório da orquestra abrange dos brasileiros CarlosGomes e Heitor Villa-Lobos aos românticos Beethoven eTchaikovski. "Tocamos o repertório das orquestras famosas",orgulha-se o maestro Florentino Dias, que gostaria de contar com90 e não apenas com os 65 músicos atuais. "Só posso abrir umconcurso se tiver dinheiro. Por que deixam uma orquestra chegara esse ponto?"A violinista Ludmila Plitek é um exemplo da situação dosmúsicos. Depois de dez anos na Filarmônica, ela teve de trocar aorquestra por aulas particulares para pagar suas contas. "Osensaios eram marcados em cima da hora e eu não podia desmarcarcom meus alunos", reclama a violinista. Atualmente, os ensaiosda orquestra, que custam R$ 8 mil cada um, segundo FlorentinoDias, só ocorrem quando há previsão de concerto. Ludmila lamentaestar longe do público e dos companheiros, toca de vez em quandoe pensa em voltar. "Gosto muito da Filarmônica e me preocupoporque o Rio precisa de orquestra. A melhor maneira de acabarcom a violência é fazer música e tenho certeza de que enquantotiver música, as metralhadoras vão parar."O maestro Florentino Dias vai além: "A cultura combatea violência, mas as pessoas não dão valor. O músico está muitodesvalorizado no Rio. Queremos um padrão de orquestrainternacional, como Nova York e Berlim. São Paulo já conseguiu,mas falta investimento aqui."

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