José Patrício/Estadão
José Patrício/Estadão

Orquestra estuda reduzir número de concertos na Sala São Paulo

Músicos hoje fazem uma média de uma apresentação a cada dois dias

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2014 | 03h00

A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo abre nesta quinta, dia 13, sua temporada com Marin Alsop no pódio, Garrick Ohlsson ao piano – e algumas novidades. Uma delas, a criação do Acervo Digital, que vai reunir vídeos e depoimentos de artistas ligados à orquestra, montando, nas palavras de Arthur Nestrovski, "um banco de história oral do grupo", que estará acessível a qualquer um. Outra iniciativa é o projeto Passe Livre Universitário – os estudantes se cadastram e, a cada concerto, são comunicados de disponibilidade ou não de ingressos gratuitos.

Esta é uma maneira de evitar lugares vazios em concertos totalmente vendidos – o que acontece por conta de assinantes ou compradores individuais que, por algum motivo, acabam não comparecendo aos espetáculos. E se alinha ao discurso dos responsáveis pela orquestra quando perguntados sobre formas de fazer a Osesp crescer. Otimizar a ocupação da Sala São Paulo é uma delas, assim como a ampliação da ação sociopedagógica e dos concertos itinerantes, que ampliariam o número de pessoas atingidas pela Osesp, assim como a transmissão digital dos concertos.

Mas há, nesses mesmos discursos, nuances que são prova dos desafios adiante. Em entrevista por e-mail, o presidente da Fundação Osesp, Fábio Barbosa, fala, por exemplo, tanto no investimento em tecnologia como na "ampliação da atuação socioeducativa, a gestão transparente de recursos e projetos públicos, a capacidade crescente de autofinanciamento e geração de parceria privadas". Nestrovski também acentua a necessidade de investimento em projetos educacionais – mas acrescenta que, sem parceiros, não há como ampliar o número de transmissões pela internet. Marin Alsop, também por e-mail, diz que o desafio de qualquer grupo, hoje, "é oferecer acesso e inclusão para todo o público". Já Marcelo Lopes acredita que há, atualmente, um bom balanço entre as verbas estatal e privada no orçamento do grupo. E é categórico: "A Sala São Paulo, hoje, tem ocupação plena, não há mais horários na grade. Os programas educacionais estão cheios também. Do ponto de vista material, não há mais espaço."

Conselho, direção artística, direção executiva, direção musical. No painel que compõe os quadros da Fundação Osesp, ficam faltando os músicos. O Estado procurou Lucas Esposito, contrabaixista que preside a Aposesp (Associação de Profissionais da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), mas, segundo a assessoria de imprensa da fundação, ele não quis dar entrevistas. Assim, a reportagem buscou conversar com alguns artistas, que preferiram não se identificar – eles não estão autorizados a falar com a imprensa sem prévia autorização da direção da orquestra.

Os discursos se assemelham: a perda de músicos é sinal de um contexto de trabalho extenuante; há um medo de que a orquestra perca "seu brilho" por conta do excesso de concertos e a consequente falta de tempo para ensaios – agravada pela necessidade, de alguns artistas, de buscar trabalhos extras para complementar salários tido como defasados; a dificuldade na relação com a direção da orquestra – no ano passado, por exemplo, foi recusado o pedido por ensaios extras durante a turnê europeia feito pelos músicos, que não se sentiam confiantes para subir ao palco.

São opiniões. Mas os números ajudam a pintar um retrato mais completo. A Osesp fez, no ano passado, entre a Sala São Paulo, o interior e a turnê pela Europa, 149 concertos – o que, entre fevereiro e dezembro, dá uma média de um concerto a cada 2,2 dias. E vale lembrar que nessa conta não entram os ensaios abertos ao público, as sessões de gravação ou as séries de câmara, das quais nem todos os músicos participam.

"São 115 músicos, não é possível eles fazerem mais do que já estão fazendo. Estamos estudando formas de organizar as temporadas futuras a poder reduzir as atividades, diminuindo um a carga de concertos na sala", diz Nestrovski. É esta a expectativa da orquestra – e o desafio de um grupo que se tornou o maior do País: fazer menos, melhor e para um número maior de pessoas.

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