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Orquestra dos Músicos de Rua é caldeirão fiel à diversidade de SP

Sob o comando de Livio Tragtenberg, grupo comemora dez anos de aposta na variedade sonora com show no Sesc Pompeia

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2014 | 19h20

Não é o compositor que vive na cidade, raciocina o filósofo francês Bernard Sève, mas a cidade é que vive no compositor. Ele imagina o compositor como um convidado muito especial na cidade. Uma espécie de “compositor residente na cidade”. Aos 53 anos, o paulistano Livio Tragtenberg encarna este ideal. Consegue a façanha de agir como “compositor residente” em sua própria cidade.

Olhos e sobretudo ouvidos antenadíssimos às músicas que tecem o caleidoscópio sonoro de uma metrópole como São Paulo – do Koto japonês à zabumba e ao triângulo do forró, da guarânia com a harpa paraguaia, do guitarón (contrabaixo mexicano) à flauta boliviana. São os músicos e músicas que compõem, como ele gosta de dizer, os nervos sonoros subcutâneos da metrópole. Música invisível para a cultura oficial. Música essencial na vida da cidade.

Foi com esta ideia que ele criou em 2004 a Orquestra dos Músicos de Rua de São Paulo. “Os músicos de rua no centro de São Paulo são a essência do nervosismo urbano que ocorre na cidade”, diz Livio ao Estado. “Agreguei os músicos imigrantes, que formaram a cultura de São Paulo: japoneses, russos, italianos, bolivianos, paraguaios, etc. 

A ideia de uma orquestra representando esse mosaico nasceu com a junção dos músicos ‘genéricos’, que são os músicos de rua, com os músicos de ‘pedigree’, que são os músicos imigrantes com sua cultura de instrumentos típicos e músicas tradicionais.”

Neste sábado, 15, Livio e sua orquestra comemoram a primeira década de existência, com o show Não Vendemos Fiado na choperia do Sesc Pompeia. “O grupo é praticamente o mesmo da temporada de estreia em 2004. Apresentaremos novas músicas, tocaremos o repertório do primeiro CD Neuropolis do Selo Sesc (2007) e vamos improvisar muito”. 

“Osesp dos pobres”. Os músicos Emerson Boy, Reiko Nagase, Yuko Ogura, Verinho, Franco, Zé Bolívia, Peneira & Sonhador, José Ortiz, Preto Celso e Ruben Vera, que atuam sob regência e direção musical de Tragtenberg, decidiram se auto qualificar como “Osesp dos pobres”. 

Lívio gostou da sacada e cutuca a política cultural oficial: “É sobretudo uma ironia, como a sabedoria popular é mestra! Às vezes nos apresentamos de casaca, como uma orquestra clássica, o que potencializa a nossa ironia, uma vez que o visual dos músicos não combina com o formalismo e a empáfia do traje. Por que o Estado apenas patrocina os tais corpos estáveis, a face oficial da cultura, quando a dinâmica cultural de hoje é muito mais rica, e expressa em corpos instáveis?”.

De fato, tudo é saudavelmente instável na Orquestra dos Músicos de Rua de São Paulo. Livio se autodefine apenas como “um organizador das músicas, que são criadas coletivamente a partir do que eles já tocam, sempre usando muita improvisação. Aí definimos um roteiro. Não existe partitura, só um roteiro de indicações e ações. Não me interessa que eles não estejam 100% à vontade enquanto tocam. Costumo brincar dizendo que não toco músicas, toco músicos”.

Concretamente, a escolha surge das ideias nascidas nos ensaios. “Às vezes, um embolador vem com um tema, ou a musicista japonesa traz uma melodia tradicional para Koto e sugere como início de uma nova música.” Tudo regado a uma polinização de tradições, estilos e sons musicais muito diferentes entre si. Forrós ao som de harpa paraguaia e guitarón mexicano; baiões com flautas bolivianas, emboladores improvisando na batida do Koto japonês. Um caldeirão fiel à diversidade da metrópole. 

ORQUESTRA DOS MÚSICOS DE RUA DE SÃO PAULO 

Choperia do Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Hoje, às 18 h. R$ 6 a R$ 20.

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