Orishas traz o rap cubano ao Free Jazz

Cansado daquele tipo de rap cheiode "fuck" pra cá, "fuck" pra lá, cantado por sujeitos quefazem cara de mau, falam em matar a mãe e dizem carregar nascostas todas as dores do mundo? Então você tem obrigatoriamentede ir ao show do grupo cubano Orishas, no Free Jazz Festival, em outubro, no palco New Directions."Não há sentido em Compay Segundo (veterano cantor eviolonista do grupo Buena Vista Social Club) cantar rap, mastambém não há sentido em nós, da nova geração, cantarmos rapignorando Compay Segundo e a tradição da música cubana", disseà reportagem, em entrevista por telefone de Madri, o rapperYotuel, uma das quatro cabeças do Orishas.Esse apego à tradição é que faz o rap dos Orishas,gestado por cubanos que vivem na Europa, uma manifestação únicadentro da tradição do rhythm and poetry (ritmo e poesia,expressão que dá nome ao rap) internacional. Não é por acaso quetoda a linha melódica do novo disco do grupo, A Lo Cubano(Universal Music) é atravessada pela percussão de Angá Diaz,ex-integrante do lendário grupo Irakerê."Para mim, em particular, ele é uma das maioresexpressões da percussão mundial", diz Yotuel, também fãdeclarado de Omara Portuondo e Ibrahim Ferrer - outros veteranosdo Buena Vista Social Club. Mas é na mistura que está a força dogrupo. Eles também adoram a música dos americanos do The Roots,D´Angelo e até o machista Eminem."Gosto do flow, da cadência, da levada do Eminem, que émuito bom no que faz", diz Yotuel. "Claro que há o problemadas letras, mas não gosto de fazer esse tipo de julgamentomoral", afirma.Formado por um quarteto - além de Yotuel, Flaco-Pro,Roldan e Ruzzo - o Orishas nasce de uma associação direta com ocandomblé (no Brasil, seriam os Orixás). "O candomblé já estáenfronhado na vida cotidiana de Cuba, é um rito obrigatório, umafilosofia, uma mania, como o rum ou o pizo", explica o rapper."Escolhemos o nome Orishas por que, quando tocamos emalgum lugar - seja na Romênia, na Rússia ou França - a platéiapassa a associar imediatamente o que fazemos com Cuba, algo comoum vínculo, um laço com nossa cultura".Articulados e inteligentes, os Orishas são um poucoevasivos quando se trata de falar explicitamente de política."Fazemos críticas sociais de forma construtiva, sempre buscandouma melhor saída", diz. "Nossa música destina-se a fazer comque as pessoas conheçam melhor a realidade cubana - a opiniãoque temos é a opinião que terá o mundo perante Cuba."Mas e sua opinião a respeito do Comandante? "Não somoscontra o sistema por definição, mas criticamos o que vemos deerrado nele", diz. "Se o mundo está como está hoje, é graças àRevolução Cubana, um sistema que tem seus problemas, mas dáatenção à saúde, à educação, ao bem-estar da população",afirma.O grupo Orishas nasceu em Paris, quando os ex-parceirosYotuel e Ruzzo (que tocaram anteriormente no grupo Amenaza, emHavana) reencontraram-se com uma bolsa de estudos. Rumba, son,percussão, um DJ nos scratches e muito ritmo projetaram o grupona Europa. Seus integrantes vivem meios espalhados. Roldán, porexemplo, vive em Paris. Yotuel está em Madri."Nos vemos mais no palco, na rua, no concerto do que noestúdio", diz Yotuel. Em sua opinião, isso é mais uma qualidadeque um problema. "Viver separados nos ajuda muito, porque nãonos aborrecemos e não brigamos, não há uma deterioração dasrelações pessoais", conta. "Mas, sempre que iniciamos umaturnê, nos reunimos 15 dias antes para ensaiar."Segundo Yotuel, o Orishas vem ao Brasil sem o aparatoespetaculoso de seu mais recente trabalho, A Lo Cubano, queconta com uma verdadeira orquestra, além dos reforços de gentecomo Roy Hargrove, Steve Coleman e Philipé Cabrera(ex-integrante da banda do pianista Gonzalo Rubalcaba). "Vamosmanter aquele núcleo básico do Orishas, com um percussionista,um DJ, dois músicos, um rapper e dois cantores", afirmou.O sucesso do Orishas rompe fronteiras além da européia.Esta semana, foram incluídos numa lista da Time como um dosdez melhores grupos da atualidade no mundo - ao lado doRadiohead, U2, Sigur Ros, Portishead, Aterciopelados, BrilliantGreen, Tarika, Ziggy Marley e do brasileiro Pato Fu."Há muitos grupos bons de hip hop em Cuba e o Orishas éum dos destaques", elogia Rúben, do grupo mexicano Café Tacuba,vencedor de um Grammy. "A forma de falar e as temáticas tornamo gênero universal, ao mesmo tempo que dá uma especificidadepara cada um dos grupos em países diferentes."Free Jazz Festival. Venda de ingressos a partir desegunda-feira. Pela Internet (www.freejazz.com.br), por telefone(0800 21 22 23) ou na Fnac Pinheiros (Av. Pedroso de Morais, 858- 3097-0022) e na Saraiva Megastore do Morumbi Shopping (Av.Roque Petroni Jr. 1089, térreo - 5181-7027). Preços: Entre R$ 30(arquibancada) e R$ 70 (Club). Ingressos para estudantes na Fnacdo Morumbi Shopping (SP), com identidade e documento da escola.Proibido para menores de 18 anos, mesmo acompanhados dos pais ouresponsável.

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