Angela Weiss / AFP
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Organização do Grammy é acusada de corrupção, assédio e abuso sexual quatro dias antes de premiação

Afastada há cinco dias da presidência da entidade, Deborah Dugan alega que está sofrendo retaliação da Academia após ter denunciado esquema de compra de votos e conflito de interesses na instituição

João Ker, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2020 | 14h48

Eleita em 2019 como a primeira mulher presidente da Recording Academy, instituição responsável pelo Grammy, Deborah Dugan foi demitida do cargo cinco meses após ter assumido, sob alegações de má conduta. Agora, faltando apenas quatro dias para a 62ª edição do prêmio, prevista para o domingo, 26, ela está processando a organização sob alegações de assédio sexual e irregularidades nas votações e finanças do grupo. 

De acordo com Deborah, o seu afastamento da premiação foi ordenado apenas três semanas depois de ela ter enviado um email para o diretor-geral de recursos humanos da Academia. No processo de 46 páginas protocolado junto à Comissão de Igualdade de Oportunidades de Emprego, agência do governo federal que fiscaliza situações trabalhistas no EUA, ela destaca inúmeras acusações contra uma “liderança historicamente dominada por homens”.

No documento, Deborah detalha “conflitos de interesse flagrantes, negociação indevida por parte dos membros do Conselho e irregularidades na votação em relação às indicações ao Grammy Awards, tudo isso possibilitado pela mentalidade do ‘clube dos meninos’ e pela abordagem de governança na Academia".

Acusações de assédio e abuso sexual

No processo de Deborah Dugan, ela acusa dois membros da Academia de assédio e abuso sexual. A primeira alegação é contra o conselheiro geral da instituição, Joel Katz. De acordo com o processo, eles teriam participado de um jantar de negócios em maio do ano passado. Na coasião, o advogado disse repetidas vezes que Deborah era “linda”, chamando-a de “querida”, sugerindo que ele é “muito, muito rico” e que, juntos, ambos poderiam dividir “viagens para suas muitas casas”, antes de tentar beijá-la. 

Em um comunicado enviado à revista Rolling Stone, os advogados de Katz negaram todas as acusações.

Outra parte do processo diz respeito a uma acusação de estupro contra o antigo CEO da entidade, Neil Portnow, por parte de uma artista estrangeira e membro da Academia cujo nome não é revelado no documento. Deborah alega que foi conduzida para uma reunião a portas fechadas, após ter aceitado o cargo de presidente mas antes de ter assumido a cadeira, e então foi informada dos processos. 

“Um psiquiatra confirmou que a relação sexual entre a artista e o sr. Portnow provavelmente não foi consensual”, diz o diagnóstico de um psiquiatra citado no processo. Deborah afirma que a situação já era previamente conhecida entre os membros do Conselho, mas não lhe foi apresentada antes de ela assumir o cargo de CEO. 

Ainda de acordo com a presidente, outros membros do Conselho também não estavam cientes do ocorrido, “apesar do fato de que eles supostamente votariam no dia seguinte se o sr. Portnow mereceria um bônus por seu trabalho anterior na Academia”.

Corrupção nos votos e indicações ao Grammy

Uma das partes do processo de Deborah é dedicada à denúncia de que existem inúmeros conflitos de interesse e compra de voto por influência entre as votações para indicação e entrega do principal prêmio da música mundial. De acordo com ela, existem “comitês secretos” que decidem quem é indicado ou não em cada categoria, mesmo que a Academia tenha 12 mil membros votantes.

Essas escolhas são feitas por representantes diretos dos artistas e, em casos específicos, pelos próprios nomes que irão concorrer posteriormente. Abaixo, confira alguns dos destaques citados especificamente por Deborah Dugan no processo:

  • Artistas que concorrem à categoria de Melhor Vocal de Jazz são os mesmos responsáveis pelas indicações;
  • Os “comitês secretos” são apresentados com uma lista de 20 nomes finalistas para cada categoria, mas muitas vezes ignoram os pré-selecionados pelos 12 mil membros votantes em favor de outros;
  • Um caso específico diz respeito ao prêmio de Música do Ano em 2019, um dos principais do Grammy. De acordo com Deborah, um artista que não estava entre os principais finalistas recebeu a indicação, em detrimento de nomes como Ariana Grande e Ed Sheeran, favoritos à categoria;

  • No caso acima, o artista havia ocupado a posição 18 num ranking final de 20 e contava com um representante próprio no “comitê secreto”, além de ter participado pessoalmente da reunião;
  • As indicações podem ser manipuladas com base nas músicas que o produtor da premiação, Ken Ehrlich, quer que sejam apresentadas no evento televisionado pela CBS;
  • Na edição atual do prêmio, que será transmitida no próximo domingo, 26, pelo menos 30 artistas foram indicados sem terem chegado à lista final dos membros
  • Em sua rápida gestão, Dugan tentou aumentar o nível de diversidade entre os membros da Academia e chegou a conversar com representantes de Kendrick Lamar e Rihanna;
  • Representantes de Barbra Streisand reclamaram com Dugan sobre a falta de eficiência da equipe que ela manteve após assumir o cargo, especificamente da assistente executiva de Neil Portnow;
  • Membros da Academia tentaram difamar Dugan e dizer que ela teria extorquido U$22 milhões da instituição, repassando essa suposta informação para agentes de artistas como John Legend;

     

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