Daniel Teixeira|Estadão
Daniel Teixeira|Estadão

Oposição entre John Neschling, artistas e Prefeitura gera crise no Teatro Municipal

Maestro propôs concentração de verbas na temporada lírica, excluindo demais grupos; Secretaria é contra a ideia

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 03h00

Uma proposta de temporada apresentada por John Neschling para 2016 levou a uma oposição entre o maestro, artistas da Fundação Teatro Municipal, a Secretaria de Cultura e o IBGC (Instituto Brasileiro de Gestão Cultural), organização social responsável pela gestão do teatro. A programação montada por ele prevê a utilização de uma verba de R$ 18 milhões para as séries de ópera e de concertos – e determina que os demais grupos do Municipal deverão captar individualmente suas verbas. Artistas e a secretaria, no entanto, se colocaram contra a ideia, expondo um racha no projeto artístico do teatro, na esteira do pedido de exoneração do diretor geral da fundação, José Luiz Herencia, na quinta, 19, devido a “divergências pessoais e influências externas à instituição”.

O imbróglio começou em julho deste ano, quando o maestro John Neschling anunciou, em sua página do Facebook, a temporada de óperas para 2016, composta de seis produções. No final de setembro, porém, o teatro informou que, por falta de verbas de patrocínio, espetáculos de 2015 e metade da programação do próximo ano seriam cancelados. Com isso, estavam mantidas apenas três montagens líricas para 2016 – Don Carlo, La Bohème e Lady Macbeth –, todas no primeiro semestre.

Em um memorando do dia 23 de outubro, no entanto, Neschling encaminhou ao presidente do IBGC, William Nacked, uma nova proposta de temporada, que prevê a realização de cinco títulos de ópera e de duas séries de concertos sinfônicos, a um custo de cerca de R$ 18 milhões. “Outrossim, observamos que as temporadas dos demais corpos artísticos – Balé da Cidade de São Paulo, Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo, Orquestra Experimental de Repertório e Coral Paulistano Mário de Andrade –, paralelas a estas que aqui apresentamos, deverão ter orçamentos próprios e seus custos deverão ser captados separadamente aos das temporadas Lírica e de Concertos Sinfônicos da Orquestra Sinfônica Municipal”, diz o documento assinado pelo maestro, obtido pelo Estado com a equipe de produção artística.

Questionado sobre o por que dessa determinação – e se ela não levaria ao esvaziamento das temporadas dos demais grupos –, o maestro Neschling enviou sua resposta por e-mail. “Isso não é verdade. O que proponho é que o teatro mantenha o seu foco de programação, cumpra a sua vocação lírica e sinfônica, e que os demais corpos estáveis nos ajudem a levantar fundos para as suas temporadas. Num momento de crise, em que a Prefeitura não pode nos dotar de uma verba que nos garanta tudo sem a ajuda privada ou institucional, temos que manter o foco e ao mesmo tempo ser criativos, como os demais teatros do mundo”, disse.

A leitura da Secretaria Municipal de Cultura, no entanto, parece ser outra. “Eu fiquei sabendo dessa proposta, mas recebi uma outra do IBGC, ao qual o maestro está subordinado. Então, não tem nada ainda estabelecido definitivamente. Mas, o que posso dizer é que todos os grupos artísticos deverão ser contemplados com as verbas discutidas com a prefeitura”, disse ontem o secretário municipal de Cultura, Nabil Bonduki, sem detalhar a outra proposta recebida. Procurado, o IBGC, por sua vez, apenas confirmou ter recebido a proposta de temporada do maestro Neschling, afirmando que só se manifestará a respeito após analisá-la em conjunto com a Secretaria Municipal de Cultura. 

Anúncio. Seja como for, artistas e membros da produção artística confirmam que já foram orientados a trabalhar com a temporada e a realidade orçamentária previstas por Neschling. “Essa orientação nos foi passada e gerou enorme preocupação, pois terá um impacto profundo no nosso trabalho. Até onde sabemos, foi também o que motivou a saída do Herencia”, afirmou ao Estado Iracity Cardoso, diretora do Balé da Cidade. “Fomos orientados a preparar uma temporada de acordo com o que eles estão chamando de ‘custo zero’. Fomos todos surpreendidos com os últimos acontecimentos, que expuseram pressões internas graves”, disse um músico, que pediu para não ser identificado. Também sob condição de anonimato, um artista de outro corpo estável afirmou que, “nos últimos tempos, tem ficado claro que não existe mais um projeto de teatro e, sim, um projeto pessoal”.

Até a noite de ontem, a temporada proposta por Neschling também já estava anunciada no OperaBase, site internacional que reúne informações a respeito da programação de mais de 900 casas de ópera de todo o mundo e que monta sua base de dados, segundo sua página, a partir dos detalhes enviados oficialmente pelos teatros. Nessa programação, além das três óperas do primeiro semestre, seriam apresentadas ainda Elektra, de Strauss, e Fosca, de Carlos Gomes. O OperaBase informa, inclusive, os elencos convidados e as datas de apresentações: a ópera de Strauss subiria ao palco em outubro, nos dias 9, 12, 13, 15, 16, 18, 20 e 23; e a de Carlos Gomes, em dezembro, nos dias 7, 8, 10, 11, 13, 15, 17 e 18.

Gestão. As decisões com relação à programação de 2016 esbarram também no organograma da Fundação Teatro Municipal, cujo posto de diretor artístico está oficialmente vago, uma vez que John Neschling foi contratado como diretor artístico da OS responsável pela gestão do teatro. Se, como coloca o secretário Nabil Bonduki, ele responde ao IBGC – e o instituto sugeriu uma outra proposta de programação – não haveria um ruído no modelo de gestão? “Ainda estamos experimentando a implementação desse formato, que nos parece bom, mas pode sofrer ajustes”, diz Bonduki. “É preciso ter um plano de trabalho e ele tem que ser estabelecido em conjunto entre o IBGC e a fundação. E o que posso dizer, com toda a certeza, é de que ele deve sugerir o melhor aproveitamento possível para todos os corpos do teatro.”

Mas há ainda um outro fato a ser considerado: a nomeação, feita por Herencia e publicada no Diário Oficial no dia 5 de novembro, do Conselho de Orientação Artística. Formado, segundo o estatuto da fundação, pelo “Diretor Artístico, que será seu presidente, pelo Diretor de Formação, pelo Produtor Executivo e pelos dirigentes de cada um dos Conjuntos Artísticos e das Unidades Educacionais”, o conselho tem como uma de suas funções “propor ao Diretor Artístico diretrizes e metas para a definição de planos de ação, programação e pauta de atividades”. Procurado, Herencia não quis falar sobre a nomeação ou sobre sua saída do teatro.

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