Óperas brasileiras do século 19 continuam inéditas

Zaira, a primeira ópera séria escrita no Brasil, foi composta pelo português radicado no Brasil, Bernardo José de Sousa Queirós, há 180 anos mas só vai estrear no dia 31, no Festival de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, em Juiz de Fora. As partituras foram encontradas em 1997 e, desde então, têm passado por um processo de recuperação. O renascimento de Zaira chama a atenção para um dado alarmante: onde estão as centenas de óperas escritas no Brasil desde o século 19? A questão está no ar desde o ano passado, quando foi apresentado no Festival de Ópera do Theatro da Paz, em Belém, o resultado da recuperação de Bug Jargal, ópera de 1890 do paraense Gama Malcher, com libreto inspirado em Victor Hugo. Isso despertou a atenção para a existência de uma série de obras surgidas à luz das principais movimentações históricas, econômicas e culturais do País. As primeiras casas de ópera do Brasil surgiram em Salvador, no século 18, caso do Teatro da Câmara Municipal, de 1729, com programações eram compostas basicamente por óperas de italianos como Cimarosa ou Scarlatti ou então por espetáculos híbridos, mistura de teatro falado e trechos musicais. Em 1808, porém, a família real portuguesa chega ao Brasil fugindo das tropas napoleônicas e traz músicos, compositores, cantores. É nesse contexto que estréia a única ópera do padre José Maurício Nunes Garcia, o nosso mais celebrado compositor colonial: As Duas Gêmeas, cujas partituras se perderam em um incêndio que destruiu o Teatro São João, mesmo palco onde óperas do português Marcos Portugal tornavam-se marco da vida musical do Rio. É na segunda metade do século 19 que as óperas de autores brasileiros começam a ter verdadeiro vulto dentro da nossa vida musical. Além de Carlos Gomes, vale lembrar os nomes de João Gomes de Araújo (Carmosina), Gama Malcher (Bug Jargal e Iara), Assis Pacheco (Moema) e Leopoldo Miguez (Os Saldunes, Pelo Amor!). E, em direção à virada do século 20, fundamental é a citação a Alberto Nepomuceno, autor de Artémis e Abul. Isso para não falar de Francisco Mignone (Contratador de Diamantes) ou então de Henrique Oswald, cujas três óperas - La Croce D´Oro, Le Fate e Il Neo - sequer estrearam. No século 20, temos Villa-Lobos, Francisco Braga, João Gomes Júnior, Alberto Costa, Camargo Guarnieri ou Eleazar de Carvalho. Em tempos recentes, um caso emblemático é a Olga, de Jorge Antunes, composta há 15 anos - e ainda inédita. Melhor sorte tem tido o carioca João Guilherme Ripper, que obteve sucesso de crítica e público com obras como Domitila e Anjo Negro, inspirada na peça de Nelson Rodrigues. Para conhecer essas obras, porém, é preciso, primeiro, um trabalho de recuperação das partituras, apontam especialistas. De qualquer forma, do pouco que se conhece desse repertório, a conclusão é unânime: é preciso resgatá-lo como parte importante da nossa história musical.Ópera Zaira - 15.º Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga. Cine Theatro Central, Praça João Pessoa, s/nº, Calçadão da Rua Halfeld, Centro, (32) 3215-1400. Juiz de Fora, MG. 31/7, às 20 horas. Outras informações sobre o festival no site www.promusica.org.br.

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