Metropolitan Opera/ NYT
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Ópera 'Otelo' é gravada em estúdio em Roma

O personagem de Verdi, que exige um timbre escuro e capacidade, foi interpretado pelo alemão Jonas Kaufmann

João Luiz Sampaio, ESPECIAL PARA O ESTADO

31 de julho de 2020 | 05h00

Enquanto o mundo da ópera e da música clássica tenta descobrir como será o futuro pós-pandemia, chega uma relíquia de um passado cada vez mais distante: uma gravação em estúdio de uma ópera completa. No caso, o Otelo, de Verdi, registrado em Roma com o tenor do momento, o alemão Jonas Kaufmann, no papel principal.



Óperas gravadas em estúdio são caras. É preciso ter grandes estrelas, comprometidas por um tempo considerável de sua agenda; um grande maestro; uma excelente orquestra. E tudo isso para ter, como resultado, uma caixa com dois ou três CDs em áudio, que já não competem com o impacto visual do DVD. Em 2004, o jornal The Guardian acompanhou a rotina de gravação de Tristão e Isolda de Wagner com Plácido Domingo nos estúdios Abbey Road. E cravou: ela seria a última do gênero.

Não foi. Mas de lá para cá se contam nos dedos de uma mão os lançamentos. As exceções acontecem apenas quando as gravadoras identificam um nome de peso capaz de atrair o interesse do público perante um portentoso legado de dezenas de registros históricos. É o caso de Kaufmann, que não por acaso é o protagonista de diversos registros recentes: antes do Otelo, lançou outro Verdi: Aida.

 

Desafio

Otelo não é um papel qualquer. É um dos mais difíceis personagens do repertório e interpretá-lo é rivalizar com poucos mais marcantes intérpretes: Mario del Monaco, Ramon Vinay, Jon Vickers, Plácido Domingo. Mesmo lendas como Luciano Pavarotti caíram perante as dificuldades do papel, que exige um timbre escuro e a capacidade, acima de tudo, de atuar com a voz, evocando a neurose e obsessão do Mouro de Veneza à medida que é consumido pelo ciúme, provocado pela própria insegurança - e pela trama do vingativo e astuto Iago. Muitos cantores nem mesmo tentaram.

“A conclusão a que você chega no final da ópera é que você realmente precisaria ter três conjuntos de cordas vocais para poder cantar o papel da maneira correta”, diz Kaufmann em uma entrevista concedida ao maestro Antonio Pappano, que rege a gravação, postada no YouTube. 

“Você vê o primeiro dueto com Desdêmona e pensa: há tantas nuances, ideias que você pode passar. Mas ainda tem a ópera toda pela frente.” Pappano, por sua vez, não hesita em chamar Otelo de Everest do repertório italiano.

 

Ciúmes

A história é conhecida. Otelo casa-se com Desdêmona. Faz de Cássio seu capitão, provocando a ira de Iago, que então arquiteta um plano para convencer o general de que sua mulher e seu braço direito têm um caso. Louco de ciúme, Otelo mata Desdêmona. Tudo na ópera acontece muito rápido, mas de forma intensa. Para Otelo, o início heroico logo se transforma no lirismo um tanto dolorido do dueto com Desdêmona e, mais tarde, no texto quase falado da ária Dio mi Potevi Scagliar, terminando com o lamento após a morte da amada. São várias vozes, ou várias habilidades. O que Kaufmann faz, desde o início, é oferecer ao papel um sentido de tragédia. Da mesma forma, a doce Desdêmona de Federica Lombardi nunca é frágil - sua Ave Maria no último ato, pouco antes de ser assassinada, é um adeus certo da ausência de culpa.

 

Vilania

Resta Iago. O papel talvez tenha sido o que mais preocupou Verdi. Não por acaso, alguém lhe disse que deveria ter batizado a ópera de Iago, ao que o compositor respondeu que pretendia ser avaliado pela adaptação que fez de Shakespeare, sem escapar de comparações ao mudar o nome da ópera. A questão para Verdi é que Iago não poderia soar como uma caricatura de vilão. Sua vilania se dá, afinal, pelo convencimento. Iago, assim, precisava soar como um cavalheiro. Um homem honesto.

Difícil imaginar um Iago mais honesto do que o do barítono Carlos Álvares. Mesmo em seu Credo, ária na qual revela ao público crer em um Deus cruel que o criou à sua semelhança e que em meio à ira invoca, ele jamais é histriônico. É esse comedimento, essa recusa do excesso, que faz dele tão crível. E assustador. 

Resta, então, o trabalho do maestro Antonio Pappano, que ressalta o que a música de Verdi tem de mais angulosa, inovadora, teatral. Lembrando ao ouvinte que, se o compositor perseguiu a vida toda a medida do teatro, tendo Shakespeare como modelo, aqui chegou à altura de seu mestre.

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