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Ópera é acusada de incitar ódio aos judeus

Nova montagem da polêmica 'The Death of Klinghoffer', do compositor norte-americano John Adams, é recebida sob críticas

JOÃO LUIZ SAMPAIO, ESPECIAL PARA O ESTADO

19 de outubro de 2014 | 03h06

Mais de duas décadas depois de sua estreia, em 1991, a ópera The Death of Klinghoffer, do compositor norte-americano John Adams, volta a provocar polêmica. Uma nova produção, que estreia amanhã no Metropolitan de Nova York, tem gerado discussões acaloradas e petições que querem o cancelamento da ópera, acusada de carregar uma mensagem antissemita. Na noite de sexta, por exemplo, o ex-prefeito da cidade Rudolpho Giuliani anunciou presença em uma manifestação marcada para a porta do teatro na segunda, ao lado dos ex-governadores David Paterson e George Pataki e dos deputados Eliot Engel e Peter King.

The Death of Klinghoffer é baseada em um episódio real: o sequestro do cruzeiro Achille Lauro. No dia 7 de outubro de 1985, quatro homens representando a Frente de Liberação da Palestina abordaram o navio de bandeira italiana enquanto ele ia de Alexandria para o Egito. O objetivo era desviar a embarcação para a Síria e, em troca da vida dos reféns, exigir a libertação de 50 palestinos presos por Israel. Proibidos de atracar na Síria pelo governo, os sequestradores mataram um dos passageiros, o judeu americano Leon Klinghoffer, que usava cadeira de rodas, jogando seu corpo ao mar. Após alguns dias, seguiram com o navio para o Egito, onde foram presos.

Adams escreveu a ópera pouco mais de cinco anos após o ocorrido, a partir de um libreto da escritora Alice Goodman. Já na época, o compositor, reagindo a críticas, cortou algumas cenas da trama. Mas, para seus detratores, a versão final continua "problemática". Segundo as filhas de Klinghoffer, Lisa e Ilsa, em texto no qual denunciam a obra como antissemita, a ópera explora a memória de seu pai. "Entendemos a licença artística, mas, quando ela mostra apenas um lado da história, torna-se viciada. Mais ainda: a justaposição entre as reivindicações do povo palestino com o assassinato a sangue frio de um judeu americano inocente é ingênua e chocante do ponto de vista histórico", escreveram elas.

A crítica mais frequente à ópera e ao libreto é a de que eles humanizam a figura do terrorista, o que poderia influenciar pessoas a aderir à causa antissemita. Uma passagem em especial provoca polêmica. Ela ocorre no segundo ato, quando um dos terroristas, Rambo, diz: "Onde há homens pobres, há judeus engordando".

Goodman, no entanto, em entrevistas sobre a obra, ressaltou que as pessoas ignoram que, antes dessa passagem, Klinghoffer se dirige aos sequestradores, afirmando que palestinos "queimam mulheres nos ônibus para Tel Aviv, só porque gostam de ver pessoas morrendo". "Quem assistir à ópera sem preconceitos vai perceber que ela honra o destino do povo judeu", disse Goodman, que é judia, ao New York Times.

Apesar das críticas, o Metropolitan resolveu seguir adiante com a produção. Ainda que com cautela. No programa do espetáculo, que tem no elenco um artista brasileiro, o barítono Paulo Szot (leia a entrevista), será publicado um texto contra a ópera, escrito pelas herdeiras de Klinghoffer. Nele, elas dizem que a obra "apresenta equivalências morais falsas, sem contexto claro". "Ela racionaliza, romanceia e legitima o terrorista responsável pela morte de nosso pai", escrevem.

O Metropolitan, no entanto, decidiu cancelar a transmissão ao vivo da récita do dia 20, que seria exibida em cinemas de todo o mundo, inclusive no Brasil. Em setembro, Adams, que teve uma obra estreada pela Osesp na Sala São Paulo (ele volta no ano que vem ao Brasil como compositor visitante do grupo), não quis falar ao Estado sobre a decisão. Mas, em um comunicado oficial, a classificou de "lamentável". "Minha ópera dignifica a memória de Leon e Marylin Klinghoffer e condena o assassinato brutal; ela aceita os sonhos e desafios não apenas dos israelenses, mas também do povo palestino, e de forma alguma promove a violência, o terrorismo ou o antissemitismo. A decisão de cancelar a transmissão vai além da questão da liberdade artística e acaba por promover o mesmo tipo de intolerância que os detratores da ópera dizem querer prevenir com suas manifestações."

Diretor do Metropolitan, Peter Gelb diz que, desde o anúncio da produção, tem recebido reclamações, abaixo-assinados, críticas e até ameaças. "Fui até chamado de nazista", disse, em entrevista ao Kansas Star. Da mesma forma, alguns articulistas definiram como covardia sua decisão de cancelar a transmissão da ópera. Sobre o tema, ele disse apenas que "foi uma opção dolorosa, em especial porque as transmissões são uma invenção minha e tenho muito orgulho delas".

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