Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

‘Ópera dos Três Vinténs’ volta aos palcos com direção de Luiz Fernando Carvalho

Obra dos anos 1920 da dupla Kurt Weill e Bertolt Brecht será um dos destaques do Teatro Municipal de São Paulo de 2019

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2018 | 06h00

O diretor Luiz Fernando Carvalho vai assinar uma nova produção de A Ópera dos Três Vinténs, obra dos anos 1920 da dupla Kurt Weill e Bertolt Brecht, na temporada 2019 do Teatro Municipal de São Paulo. A montagem terá 30 récitas a partir de maio e será fruto de um trabalho de pesquisa que vai unir alunos das escolas ligadas ao teatro, assim como artistas que já trabalharam com Carvalho em outras produções.

“Quando fiz minissérie, disseram que ela era operística. Quando faço teatro, me chamam de barroco”, brinca o diretor, responsável por celebradas criações para a televisão e o cinema, como Capitu, Lavoura Arcaica e Suburbia, em entrevista ao Estado. “Na verdade, a minha trajetória está pautada por cruzamentos entre artes. Essa relação entre música, teatro e literatura para mim é estruturadora”, conta também.

No projeto, Carvalho vai trabalhar com o dramaturgo Luis Alberto de Abreu e com o maestro e compositor Tim Rescala. A Secretaria Municipal de Cultura ainda não informou o valor do orçamento da produção.

A Ópera dos Três Vinténs, estreada em 1933, simbolizou uma ruptura na compreensão da ópera como gênero, da mesma forma como a história – baseada em The Beggar’s Opera, texto inglês do século 18 – carrega enorme crítica social. “É um texto com a força da atualidade. Como sociedade, precisamos desse espelho ou, como dizia Godard, é preciso sempre repetir para que não nos esqueçamos. As pessoas vão vestir a carapuça dos personagens, a partir de um humor sutil como uma navalha. Será fácil identificar quem representa o poder, quem representa o corrupto, o empregado, o empregador. O painel da desigualdade que os autores pintam é facilmente reconhecível para a sociedade de hoje”, comenta ainda.

Essa relação com o nosso tempo, segundo Carvalho, estará presente de diversas formas. “Minha conversa com o Luis Alberto de Abreu foi no sentido de aproximar a narrativa do público de hoje, jovem, paulistano. Queremos deixar o Rio Tâmisa e vir para o Rio Tietê. Para tanto, ele está mexendo na tradução, dando maior coloquialidade e atualizando termos. Pretendemos também dar uma maior importância ao narrador, essa figura que quebra a quarta parede e fala diretamente com a plateia. O objetivo é aliar estética e ética para produzir consciência, refletir sobre que país é esse em que vivemos.”

Do ponto de vista musical, Tim Rescala, diz o diretor, vai reimaginar elementos da música de Kurt Weill, trabalhando com texturas e com novos instrumentos. “São Paulo tem uma orquestra de refugiados que carrega uma sonoridade específica, por exemplo, uma sonoridade que com certeza interessaria hoje ao Weill”, afirma Carvalho.

Apesar de a ópera estar presente nas trilhas de diversas produções do diretor, essa será a primeira vez que ele dirigirá uma peça do gênero – há alguns anos, um convite para uma Carmen, de Bizet, em Belo Horizonte, não se concretizou. “Tudo o que faço é consequência de um longo processo de pesquisa, de discussão, experimentação e naquela época não havia condições para isso. Desta vez, no entanto, o Teatro Municipal compreendeu essa necessidade”, acrescenta o diretor.

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