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Ópera ‘Artemis’ revela mais de Alberto Nepomuceno

Peça de de 1898 apresentada domingo, 5, mostrou que autor cearense não foi apenas um dos pais do nacionalismo

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2014 | 19h50

Pouco mais de quarenta minutos de música foram suficientes para compensar um silêncio de décadas. Da obra do compositor Alberto Nepomuceno, conhecemos de fato pouco: sua Sinfonia e algumas canções, responsáveis por acoplar a ele a pecha de precursor do nacionalismo musical brasileiro. Mas o breve episódio lírico Artemis, que teve última récita no domingo, 5, no Teatro São Pedro, acabou por revelar novas dimensões de seu autor.

O canto em português foi uma das bandeiras de Nepomuceno, posta em prática em Artemis, estreada em 1898 e revista em 1910 (foi essa a versão sobre a qual trabalhou o maestro Roberto Duarte para preparar a edição utilizada pelo São Pedro). Mas a ópera também ganhou versões em francês e alemão, possivelmente por conta do interesse do compositor de levar a obra para palcos europeus, entre eles a Ópera de Viena, na época comandada por Mahler. 

Esse detalhe é interessante não apenas por sugerir o reconhecimento do trabalho de Nepomuceno na Europa, mas também porque revela o fato de que o compositor estava antenado com aquilo que se passava na cena musical europeia de então – e, dela, apropria-se especialmente do impacto ainda provocado pelas óperas do alemão Richard Wagner.

A partitura de Artemis emula, entre outros elementos, a ideia wagneriana do drama contínuo, fazendo um uso pessoal de temas recorrentes na construção do discurso dramático e explorando habilmente os timbres da orquestra. O libreto, por sua vez, assinado por Coelho Neto, traz elemento de duas correntes com as quais Nepomuceno manteve contato: o parnasianismo e o simbolismo.

Na montagem do diretor Roberto Alvim, no entanto, o foco parece estar no que a ópera oferece como vislumbre do mundo moderno. O texto narra a história de um escultor que, envolvido na criação de uma obra inspirada na deusa Artemis, abandona a vida cotidiana, a mulher, a filha, dedicando-se exclusivamente à criação. E o diretor, ao definir o espaço cênico como uma “estrutura do inconsciente”, mergulha na mente desse homem, em seu movimento febril em direção à construção de uma obra de arte idealizada.

Nesse mergulho, coloca-se, assim, uma discussão sobre a própria concepção de arte e do que define um processo de criação. Criar é envolver-se com a “fúria da fantasia e do sonho”; é reproduzir uma versão de si mesmo, apostar na beleza idealizada em oposição ao “frio, à fome e ao desconforto” do mundo real. Criar é desejar e, para o diretor, o impulso criador é transfiguração do impulso sexual que, para ele, se manifesta na evocação da imagem da filha (em um recurso bastante hábil na caracterização do coro), no incesto como símbolo da dualidade entre desejo e proibição. Criar, coloca-se assim, entre o tudo e o nada. É forjar vida – tanto quanto a obra terminada e celebrada carrega uma sensação de morte. De vazio.

Alvim trabalha com todas essas ideias de modo muito eficiente, criando um universo complexo a partir de uma narrativa de resto linear. Não alcançaria resultado semelhante, no entanto, sem a participação de um elenco notável, cênica e musicalmente: o barítono Inácio de Nonno e a soprano Eiko Senda, com participação especial de Valentina Ghiorzi como a menina Délia. Ou da Sinfônica do Teatro São Pedro, comandada com correção pelo maestro Emiliano Patarra.

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