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VALENTIN FLAURAUD/REUTERS
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Onde moram os improvisos

O festival Jazz na Fábrica dá início à sua substancial programação de artistas do gênero

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2013 | 19h36

Juntando heróis e desconhecidos, o Sesc Pompeia abriga, até o fim do mês, o maior evento de jazz do ano em São Paulo. Se fosse um festival de rock, o Jazz na Fábrica cairia nas linhas de um Planeta Terra, com estrelas influentes, mas não excessivamente badaladas, um bom foco em bandas contemporâneas e outro em reapresentar ao público nomes importantes que andam longe dos holofotes.

A programação é fruto de um orçamento bem distribuído, que terá nesta quinta, dia 1/8, seu primeiro nome de gala quando o mítico McCoy Tyner subir ao palco do teatro da Rua Clélia, por três noites. O pianista fez duas visitas ao Brasil nos últimos três anos e, à frente de trios e quartetos, mostra sua lendária concepção modal, cujos acordes suspensos e estáticos são como alho e cebola refogados na criação do jazz moderno. Aos 74 anos, McCoy não martela mais acordes com a hercúlea força de outrora, mas suas apresentações são aulas de refinamento pianístico, principalmente quando há silêncio suficiente para ouvi-lo acariciar uma balada.

O outro grande chamariz é a diva Cassandra Wilson, sinônimo de sofisticação e autoridade nos círculos vocais do jazz. Com uma trajetória que já passou pelas fronteiras mais siderais do free jazz, forjada em parcerias com o compositor vanguardista Henry Threadgill, nos anos 80, hoje em dia Cassandra navega com categoria pelas vertentes tradicionais que lhe trouxeram fama. Em seu show, deve reproduzir standards com tons de funk e soul.

O real tutano da programação desta 3.ª edição está, no entanto, à sombra dos grandes nomes que atraem atenção para o evento. Menos acessível, embora igualmente respeitado, é o veterano saxofonista Roscoe Mitchell, que se apresenta nos dias 22 e 23. Um dos incansáveis sacerdotes do free jazz, criador do lendário grupo experimental Art Ensemble of Chicago, Mitchell é uma ave rara em seu métier. Além de visionário, ostenta uma técnica fora de série, e sua discografia abrange tanto improvisações instrumentais quanto colaborações com compositores eruditos.

Dr. Lonnie, o segundo herói do órgão jazzístico de sobrenome Smith (o outro é Jimmy), cobre os capítulos mais tradicionais do gênero, com standards e hard bop vistos através de hip-hop, samba jazz e o clássico “tchiquirim”. Pela arte do organ trio, pelo turbante de Lonnie (que inventou ser doutor e enrola o cabelo sem nenhum motivo religioso ou cultural), é um set a ser assistido.

Também no Lado B do Jazz na Fábrica, está o excelente trompetista libanês radicado em Paris, Ibrahim Maalouf, que improvisa por beats ou bases lânguidas, quase de ambient music, com a alma de um cantor de mesquita ao entoar o chamado de reza. Sem soar óbvio, Ibrahim, que tem elogiada formação clássica, surpreende ao adaptar temperos de hip-hop e world music ao seu estilo. No disco Wind, de 2012, por exemplo, parece entender a necessidade de um approach minimalista ao inserir seu trompete em um contexto de batidas contemporâneas. A partir disso, agrega música árabe e heavy metal em suas composições sem os chavões de world music.

Entre os outros destaques do evento, que inclui palestras e música na rua, o Sesc traz o ótimo vibrafone quase free jazz do Sun Rooms, que divide o palco com os ótimos roqueiros experimentais brasucas do Rabotnik. O saxofonista chileno Christian Galvez traz em sua formação o impressionante baixista Marcelo Cordova, que toca o instrumento como se fosse violão, e Edsel Gomez, pianista porto-riquenho, ostenta seu carinho por harmonias brasileiras em arranjos de jazz contemporâneo. Entre os nossos clássicos, tocam Raul de Souza, João Donato e Eliane Elias, além do saxofonista Ivo Perlman.

JAZZ NA FÁBRICA

Sesc Pompeia.Rua Clélia, 93, 3871-7700.

Teatro: 5ª e 6ª, 21 h; dom., 19 h

Choperia: 6ª, 21h30; sáb., 21h30; dom., 19h30.

R$ 20/ R$ 50.

 

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