Onda black "redescobre" Cassiano

Pergunte às pessoas sobre Cassiano e a maioria dirá: "quem?". Aquele que compôs Primavera ("...trago esta rosa, para lhe dar..."), famosíssima na voz de Tim Maia. "Ah, claro". Mas se a mesma pergunta for feita a um músico não faltarão elogios e palavras como "influência". Esta parecia ser a sina de Genival Cassiano dos Santos: ser um compositor respeitado pelos colegas, mas sem o reconhecimento do público. Seria, não fosse a "redescoberta" da black music brasileira e, conseqüentemente, de sua paternidade. Cassiano, nascido em Campina Grande (PB) e hoje com 58 anos, foi o homem que deu a Tim Maia (1942-1998) aquilo que ele conhecera nos Estados Unidos: soul, acrescido de arranjos típicos de bossa nova. Influenciou toda a música negra que viria a seguir. Em quase 40 anos de carreira, já compôs para Gilberto Gil, Alcione, e outros, mas lançou apenas quatro álbuns. O último, Cedo ou Tarde, há dez anos, teve participação de gente como Djavan, Marisa Monte, Cláudio Zoli e Sandra de Sá. Hoje, Cassiano vive um dos melhores momentos de sua carreira. Teve dois de seus álbuns relançados - Imagem e Som, de 71, e Cuban Soul, de 76 - é idolatrado por nomes como Mano Brown, dos Racionais, ou Ed Motta, e voltou aos estúdios produzindo os vocais e compondo duas faixas do novo disco da Banda Black Rio, Movimento. Um dos ícones do funk brasileiro, a banda foi ressuscitada por William Magalhães, filho de um dos fundadores, o maestro Oberdan Magalhães. Em entrevista concedida na casa do músico Bernardo Vilhena, dono da gravadora Regatas, na Gávea, no Rio, Cassiano desfez a fama de arredio à imprensa. Falou sobre sua carreira, planos para um novo disco, do amigo Tim Maia, e das novas tecnologias de estúdio. William Magalhães também participou. Por que tanto tempo sem gravar? Cassiano - Acho que tudo tem o seu tempo. A certeza que eu tenho é que o meu é agora. Antes eu não concordava muito com isso que os caras diziam, que eu era fora do meu tempo, que estava adiantado. Mas agora vejo que tinham razão. Estou me sentindo feliz, os músicos entendem as minhas coisas simples, o que antes diziam que era complicado. O Tim (Maia) era o mais próximo de mim, de dialogar sobre música. O resto dizia que eu era um bicho estranho. Mesmo longe da mídia e sem lançar discos, vários artistas querem suas músicas ou participações, como os Racionais. O que você acha deles? Cassiano - Acho legal. Toda essa cultura negra tem muito a ver. Mas os meninos lá são muito fechados dentro dos lances deles. Houve o convite, eles chegaram a dizer que só iam em um programa de TV se eu fosse também. William Magalhães - O primeiro contato deles com o Cassiano foi em um show da Black Rio no ano passado, no Sesc Vila Mariana. O Cassiano fez uma participação especial. Houve um boato sobre você ter ficado chateado com um comentário deles, que diziam querer o Tim Maia, mas que o Cassiano serviria... Cassiano - Não, eu estava à disposição. Eles me ligaram, mas depois acabou esfriando. Aí a gente começou as gravações do disco da Black Rio. O James Brown nunca gostou de rappers sampleando suas músicas, o que você acha? Cassiano - Concordo em algumas situações. Quando a coisa é bem colocada fica legal. Mas poucas pessoas sabem fazer isso. Não tenho nada contra pegarem trechos de minhas músicas. O que eu gostaria que acontecesse é que desse certo. Tenho vários clipes de rap, gosto muito. O que você acha desse novo interesse na black music nacional? Cassiano - Não acho que seja uma volta, é só uma evolução. A soul music é uma coisa usada no jazz para fazer algo popular. E nós não tínhamos no nosso país, há pelo menos 20 anos, as pessoas que pudessem entender isso. Quando sai um disco novo ? Cassiano - Vai sair no ano que vem, pela Regatas, com o William e eu na produção, o Sidney Linhares na guitarra (da Banda Black Rio). Mas um prazo é difícil. Quero fazer coisas com piano acústico, mas algo pop, com todos os aparatos tecnológicos. William Magalhães - Pop mas com um lance de instrumentação. Mais brusco, mais ao vivo, orquestral também. Ele vai retomar o que você vinha fazendo no "Cuban Soul" (76) ou no "Cedo ou Tarde" (91)? Cassiano - Não, esse disco de 91 não foi um disco do Cassiano, foi um disco de produtor (Líber Gadelha). E isso fica assim meio... olha, bota essa música e essa, essa. Mas você é artista, é que nem jogador de futebol: botam uma bola meia murcha, mas você sai jogando. Tinha coisas que não foram a meu contento. O pessoal tinha uma imagem que eu era um cara que não sabia trabalhar. O disco novo não, vai ser bem diferente. Sempre lembram do Tim Maia, mas não falam de Cassiano. Você se sente desprestigiado? Cassiano - Olha, a música é uma coisa que toma tanto o nosso tempo que nem... e eu fico pensando, o que é o prestígio. É dinheiro? Fama, respeito? Acho que respeito eu sempre tive. Você convidou o Tim Maia para gravar nesse disco de 91, não? (Os dois estavam brigados por causa de uma disputa judicial sobre direitos autorais.) Cassiano - Sim, mas ele não quis, estava chateado ainda. Ele era muito grilado. Ele dizia que era o príncipe do grilo e eu era o rei, mas era ele o pior. O Líber convidou, mas ele disse "não, não vou não". Vocês não se falaram mais? Cassiano - A gente se falou uma vez por telefone. Depois eu estive em um show dele no subúrbio e ele me chamou para cantar Primavera com ele. Quando eu já morava no Jardim Botânico, ele me ligou às 3 da manhã, aqueles horários dele, me convidando para um show em Manaus. Essa foi a última vez. Aí, quando ele faleceu, todo mundo lá... pela TV eu vi gente que não tinha nada ver fazendo lobby e pensei: não vou participar disso. Quando ele estava no hospital, eu tomei uma garrafa de Chiva´s, sentado na cama, chorando e pedindo a Deus pra não levá-lo. Dizem que vocês dois eram farristas... Cassiano - (risos) Não, mas ele era muito mais do que eu. Tim era o seguinte: ele fazia questão de ser mais do que qualquer um aqui. Olha, quando nós gravamos Primavera o disco ficou engavetado. Quem o descobriu, um compacto simples, foi o Nelson Motta. Ouviu em 69 e disse "nossa, mas é muito bom". Aí, o Tim ficou sabendo que tava pronto e não tinha sido lançado, foi lá na Polydor, deu um esporro no pessoal, bateu na mesa, aí lançaram e foi aquilo. Não apostavam na música? Cassiano - Pois é, quando eu cantava essa música nos corredores das gravadoras, inclusive na própria CBS, os caras diziam: "olha, meu, isso aí não dá certo, não. Grava música do Roberto Carlos". Pôxa, é aquela coisa do compositor, tudo bem eu posso até gravar do Roberto, mas essa aqui eu fiz. Dois anos depois, foi aquele sucesso... É verdade que Jackson do Pandeiro freqüentava a casa do seu pai, em Campina Grande (PB)? Cassiano - Jackson era amigo da nossa família e trabalhava para o meu pai, que fazia reformas. Me pegou muito no colo, dizem que uma vez eu dei uma urinada nele. Há uma história sobre um álbum seu gravado pela CBS que nunca foi lançado... Cassiano - Existe, isso foi logo que eu saí da Polydor, 78 pra 79, e ele não foi terminado. Mas gravamos, mixamos um material bom ali. Nada foi aproveitado disso. Preciso até saber o que foi feito deste tape. Isso aconteceu por causa daquele negócio da gravadora falindo. E a fama de ser um artista difícil de se trabalhar, você concorda? Cassiano - Acho que não, tanto que estou aqui trabalhando com os meninos da Black Rio. Eu acho que isso vem, por exemplo, do primeiro disco (Imagem e Som, 71), por que eu briguei com a RCA. Eu dizia que para trabalhar eu queria que eles me alugassem um baixista, um baterista e um pianista. E o meu diretor disse que quando eu fosse gravar, ele me daria uma orquestra, mas que não iria me arrumar os instrumentos. Quer dizer, o que hoje é comum, os grupos treinam, na hora de gravar estão com tudo pronto, é mais barato, mas, na época, acharam um absurdo. E aí eu é que fiquei com fama de complicado, né?

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