FABIO MOTTA/ESTADÃO
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Olivia e Francis Hime celebram 50 anos de parceria musical e de vida

Cantores e compositores lançam projetos comemorativos independentes

Adriana Del Ré, O Estado de S. Paulo

16 Agosto 2015 | 06h00

Juntos há 50 anos, Olivia e Francis Hime desenvolveram caminhos musicais independentes. Músico, arranjador, compositor e cantor, Francis formou-se em Engenharia, mas seguiu na música ainda muito jovem. Já Olivia, cantora e compositora, demorou um pouco mais para investir profissionalmente na carreira. Dedicou-se às três filhas, enquanto “cantava aqui e ali”. Mesmo donos das próprias trajetórias, há anos, os dois têm prazer em participar, direta ou indiretamente, um no trabalho do outro, como fazem nos novos projetos, por coincidência, comemorativos: Olivia Hime e Amigos, que marca seus 35 anos de carreira, e Francis Hime – 50 anos de Música

‘Olivia Hime e Amigos’ revê duetos da carreira

São 35 anos de carreira. Olivia Hime diz não se apegar muito a datas. Afirma que essa contagem de sua trajetória na música é feita antes mesmo de lançar o primeiro disco, que leva seu nome, em 1981. “Lancei dois compactos duplos antes”, reforça. Incentivada por sua equipe da gravadora Biscoito Fino, da qual é sócia- fundadora e diretora artística, a cantora e compositora carioca, de 72 anos, decidiu ceder à ideia de fazer um projeto comemorativo. Assim, nasceu o disco Olivia Hime e Amigos, lançado pela Biscoito, e no qual ela mira para trás, reunindo gravações de duetos que fez ao longo de sua discografia.

“Não sou uma pessoa muito ligada à compilação, a não ser que essa compilação seja feita pelo artista, e que faça algum sentido, histórico, musical”, define. Foi esse pensamento que a norteou. “Isso me agrada: juntar quem já cantou comigo, há arranjadores preciosos. Então, é coerente com meu trabalho. Vejo esse disco como se fosse um álbum novo.” 

Olivia colheu registros desde seu disco Segredo do Meu Coração, de 1982 – o segundo da carreira –, do qual pinçou Pra Você Que Chora (Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri), em que canta com Edu Lobo, até o álbum Palavras de Guerra, de 2007, cujo repertório é dedicado à obra do cineasta e compositor Ruy Guerra. Desse disco-tributo ao amigo, extraiu seus duetos com Olivia Byington, em Bárbara (Chico Buarque/Ruy Guerra); com Nilze Carvalho, em Corpo Marinheiro (Francis Hime/Ruy Guerra); com o marido Francis Hime, em Último Retrato (Francis/Ruy Guerra), e com o próprio Ruy em Fortaleza (Chico Buarque/Ruy Guerra).

Há ainda encontros com outros amigos: Lenine, Dori Caymmi, Djavan, Chico Buarque, Milton Nascimento e Sérgio Santos. Com essa compilação, além de ‘recuperar’ os parceiros que foram fundamentais em sua vida e obra, Olivia revela sua incursão por um amplo campo de ritmos, com uma abordagem elegante e um entusiasmo pelo cancioneiro brasileiro. A passagem do tempo aponta também seu amadurecimento como intérprete.

Enquanto a Olivia compositora atua comedidamente, respeitando o próprio tempo, a Olivia intérprete já pensa, também calmamente, no próximo disco, que deve ficar para 2016, contemplando três compositores: Dori Caymmi, Francis Hime e Edu Lobo. 

Em CD e DVD ao vivo, Francis Hime traça panorama de sua obra

São cinco décadas de carreira. A data redonda foi celebrada no ano passado, quando Francis Hime lançou o belo disco de inéditas, Navega Ilumina. Ainda em 2014, o novo repertório se uniu a canções de carreira para um projeto em comemoração aos seus 50 anos de música. Foi em uma única apresentação, no Espaço Tom Jobim, no Rio, gravada ao vivo. O registro acaba de chegar às lojas no CD e DVD Francis Hime – 50 Anos de Música, pela Biscoito Fino.

Neste ano, as celebrações continuam. Um dos grandes nomes da música brasileira, Francis diz que é esse formato de show que vai levar adiante. “Há sucessos com o Chico (Buarque), como Atrás da Porta, Trocando em Miúdos, Passaredo, que não poderiam faltar na comemoração”, comenta o músico, compositor e arranjador carioca, de 75 anos.

Além da festejada dobradinha Chico-Francis, o projeto valoriza outras muitas parcerias de Hime, como a histórica com Vinicius de Moraes, o grande incentivador da carreira musical do então jovem aspirante a engenheiro Francis Victor Walter Hime. Estão no repertório Sem Mais Adeus, a primeira de autoria de Francis e Vinicius, e Maria da Luz, parceria póstuma que Francis já havia mostrado no álbum Navega Ilumina.

“Eu e o Flávio Marinho trabalhamos em um roteiro a quatro mãos. Fizemos um primeiro balaio com cerca de 50, 60 canções, e fomos montando o show pensando também na estrutura dramática. Por exemplo, tenho um núcleo com canções ligadas às minhas filhas, como Sessão da Tarde, que fiz com a Joana, minha filha do meio; tem Luiza, que eu e Chico fizemos para nossas terceiras filhas; Lua de Cetim, que eu cantava muito com minha filha mais velha (Maria) na década de 70.”

No DVD, o extra 5 em Ponto – numa referência ao grupo Os Seis em Ponto, da década de 60, do qual Francis e Nelson Motta fizeram parte – proporciona momentos deliciosos. Ao piano, Francis recebe seus amigos Nelson, Flávio Marinho e Geraldo Carneiro e a mulher Olivia Hime. E, com eles, vai rememorando histórias antes de tocar um repertório mais afetivo pensado para a ocasião. Francis surpreende Nelsinho ao tocar – e lembrá-lo de – Morro Triste, a primeira letra oficial do amigo. “Surgiu também a ideia de revelar a verdadeira primeira música que eu fiz, a Pra Cartola. Dei esse título agora. Eu vi que nela tinha muito do que Cartola fazia, que eu ouvia muito na minha infância. Eram meus ídolos Cartola, Pixinguinha, Ataulfo Alves, Heitor dos Prazeres.”

Casal reedita em Angola o histórico projeto Kalunga

Em 1980, um grupo com cerca de 65 pessoas, incluindo artistas e técnicos, foi a Angola, onde participou de shows em Luanda, Benguela e Lobito. Idealizado pelo produtor Fernando Faro, o projeto Kalunga, como foi chamado, reuniu em sua comitiva grandes nomes da música brasileira: Dorival Caymmi, Martinho da Vila, Djavan, Clara Nunes, Dona Ivone Lara, Edu Lobo, Chico Buarque, o casal Francis e Olivia Hime, entre tantos outros. O projeto marcou a aproximação musical e também política entre o país e o Brasil. Foi um momento histórico, pouco noticiado no País, ainda sob o período de ditadura.

Agora, 35 anos depois, o projeto Kalunga será reeditado em Luanda, Angola, com Olivia e Francis Hime à frente da iniciativa. As apresentações ocorrerão nos dias 5, 7 e 9 de setembro. Grande parte dos artistas que estiveram naquela primeira edição não embarcará para Angola, caso de Dona Ivone Lara, Edu Lobo, Chico Buarque, Djavan, entre outros. Nessas três décadas, vale lembrar que outros partiram, como Clara Nunes e Dorival Caymmi. Desta vez, o time será formado por Olivia e Francis Hime, Martinho da Vila, Mart’nália, Miúcha, Elba Ramalho, Nei Lopes, Mariene de Castro, entre outros. “Ao todo, são 36 pessoas que vão para lá”, diz Olivia. O convite partiu da Embaixada do Brasil em Luanda. “Eu e o embaixador nos conhecíamos da Finlândia, porque fiz show lá. Ele me ligou e pediu uma sugestão musical para fazer algo em Angola”, conta ela. “Pedi para ele um tempo para pensar e fiz a sugestão do Kalunga. Ele pesquisou sobre o assunto e gostou muito da ideia.”

Os Himes estão amplamente dedicados ao projeto. Além de participar dele como artista, Olivia atua em sua produção. “Estou trabalhando nele desde abril”, afirma. Já Francis está envolvido com os arranjos. “Já estou com 70% deles prontos. Daqui a dez dias, começamos os ensaios”, completa o músico. Também por causa do projeto, Francis e Martinho da Vila inauguram a parceria na composição. Os dois juntamente com Olivia assinam o samba Daqui, Dali, de Acolá. “Fiz a música, a Olivia fez uma parte da letra, aí mandei para o Martinho e ele completou com mais um pedaço de música, e fez mais uma parte de letra. O samba é de uma linha bem dolente, meio afrossamba. A gente abre o show com essa canção e encerra com todos cantando.”


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