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Olha o breque

Moreira da Silva fez mais do que 'gangsta samba'. É preciso ouvir o malandro direito

Julio Maria - O Estado de S.Paulo,

24 de fevereiro de 2012 | 21h30

O apogeu era o breque. Era quando o cavaco sumia, o pandeiro calava e um mar se abria para a palavra, a rima, a malandragem. Era o rap do morro em outros compassos, uma surpresa de fazer a paradona da Mangueira dançar miudinho. Moreira da Silva não foi o inventor da coisa, mas sem dúvida o homem que mais a valorizou. Kid Morengueira, um de seus apelidos, se apoderou em boas palavras da invenção de Luis Barbosa, outro sambista das antigas, para escrever sua história na música carioca. Deu certo, mas também deu errado. Moreira sabia bem mais do que cantar em cima de paradinhas, mas morreu em junho de 2000 muito mais como o ‘inventor do samba de breque’, algo que nem foi, do que na condição daquilo que merecia de fato: o título de, desculpe os jornalistas, maior cronista que a andar pelas ruas do Rio de Janeiro.

Duas caixas saem agora pelo selo Discobertas, cada uma com quatro discos, trazendo um Moreira da Silva impagável em prosa e risos. De um tempo em que se vestia o samba com arranjos de cordas e sopros para dar-lhe mais importância, estratégia que seria abandonada simplesmente por ser dispensável, Moreira pouco cantava o amor. Cada letra, uma história diferente. Cada história, muitos risos. Aquilo só poderia estar sendo feito por quem vivia cada vírgula do que cantava. E Morengueira viveu até mais do que cantou.

Sobre suas conquistas amorosas, fator decisivo para se medir o grau de malandragem do sujeito, Moreira fez as contas e entregou tudo na música 1296 Mulheres (sua parceria com o humorista Zé Trindade). Sua matemática ficava assim: se conseguia conquistar três mulheres todo mês, três mulheres todo mês por ano são 36. Se 36 era sua idade, bastava multiplicar 36 por 36 que dava 1.296. Ok, não é bem assim, mas em seu universo era. Seu catálogo ainda especificava a origem: 200 baianas, 300 pernambucanas, 95 paulistas. Mineiras, perdeu a lista. Umas 20 gaúchas e uma paraibana. Cariocas, umas 700 só no bairro de Copacabana.

O último malandro, ou 'o tal' malandro, nomes de seus discos, Moreira usava o personagem do morro para tudo. Adorava andar de terno e chapéu-panamá de faixa até seus últimos anos de vida. Faz pensar que não havia ali personagem nenhum. Moreira da Silva e Kid Morengueira eram um só. Quando o rock and roll deu seus primeiros sinais, ele genialmente misturou twist com samba de breque em Anúncio pra Mulher, de 1962. Antes disso, em 1959, deixou no samba Cidade Lagoa, do disco A Volta do Malandro, um registro do que era viver no Rio de Janeiro daqueles anos. "Que maravilha em nossa linda Guanabara / tudo enguiça, tudo para / todo trânsito engarrafa / quem tiver pressa / seja velho ou seja moço, / entre n’água até o pescoço e peça a Deus pra ser girafa."

Filho de tocador de tuba morto de cirrose, Moreira vagou de barraco em barraco pelos morros do Rio de Janeiro. Para sustentar mãe e irmã, trabalhou como chofer de táxi e, consequentemente, cafetão. Foram as circunstâncias que o levaram a agenciar uma mulher da rua para um passageiro que lhe pedia diversões sexuais, e que acabou dormindo. "Acabou que eu mesmo fiquei com a moça", contou em entrevista nos anos 90. Sobre seus perrengues, também fazia música. "Compre este disco, não me negue a tua grana, quando almoço uma banana / guardo a casca pro jantar", já dizia em Compre Este Disco.

Miguel Gustavo, publicitário e sambista, muito contribuiu para os melhores momentos de Moreira. Quando o western spaguetti estava em alta, fez sambas apoteóticos, como O Rei do Gatilho e Morengueira contra 007, sempre prefixados por narrações cinematográficas. Aliás, eis mais uma do malandro: Moreira pouco cantou a dor de cotovelo. Entre lágrimas e risos, preferia gargalhar.

Tempo em que o fio elétrico era macarrão

Moreira da Silva conseguiu até fazer gíria sobre gíria. Aqui, um pequeno dicionário das palavras que ele e Bezerra da Silva, outro malandro, usavam sem pudor:

Bocada = bairro

Usar antena = ser traído

Justa = polícia

Delerusca = delegado

Encanado = preso

Fio elétrico = macarrão

Dar um castigo = ripar

Matraca = metralhadora

Vagulino = vagabundo

Crocodilo = traidor

Eco = tiro

Ciscante = galeto assado

Esguiar na carreira = fugir correndo

Sair de pinote, corcoviar, saltar de banda, sair batido = correr

Pendura = sair sem pagar

Um sete um = falsário

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