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OK Go chega ao Brasil para 'pop-up shows'

Famosa por clipes inventivos, banda norte-americana se apresenta nas ruas de São Paulo e Rio nos próximos dias

Lipe Fleury, estadão.com.br

19 de novembro de 2011 | 09h44

O OK Go é um dos maiores exemplos do poder que a internet tem de transformar a cultura pop, e propulsionar artistas ao estrelato da noite para o dia. Formada em 1998 por estudantes de uma prestigiada universidade norte-americana, a banda desfrutou de sucesso moderado nos sete primeiros anos de sua existência.

Lutando para se destacar em meio à fértil cena musical de Chicago, a sonoridade do grupo flutua entre o power pop do Weezer e a rockzinho dançante de bandas como The Killers, custando a encontrar uma identidade estável entre um lançamento e outro.

Em entrevista ao Estadão.com.br, o frontman, guitarrista e vocalista Damian Kulash contou que suas maiores influências estão no pós-hardcore dos anos 1990, mas os reflexos de suas bandas favoritas em suas composições são esparsos.

Com o intuito de inovar nas apresentações ao vivo, o OK Go ensaiou, despretensiosamente, algumas coreografias para serem executados sobre o palco. Um desses ensaios, uma divertida dança sincrozida com a canção A Million Ways, foi filmado e caiu na internet, no ano anterior à hegemonia do YouTube. Baixado mais de 200 mil vezes, o vídeo acabou se tornando um dos primeiros exemplos de um "viral", e a banda logo notou que poderia tornar mais proveitosa a brincadeira.

O sucesso definitivo veio no ano passado, com o clipe de This Too Shall Pass. Uma elaborada reação em cadeia foi filmada em um único take em um engenhoca no estilo "máquina de Rube Goldberg", enquanto os músicos apresentam a canção.

Com mais de 100 milhões de visualizações em seu canal no YouTube, o OK Go chega ao Brasil pela segunda vez para uma série de "pop-up shows" patrocinados por uma marca de bebidas, em um esquema trio-elétrico-indie para as tribos do Baixo Augusta e da Galeria do Rock. Confira abaixo a entrevista concedida pelo líder da banda ao Estadão.com.br, minutos antes de uma apresentação fechada para a imprensa.

Damien, você cresceu em Washington D.C. no período em que a cena musical local revelou algumas das melhores bandas dos anos 1990, como Fugazi, Nation of Ulysses e Jawbox. Acha que foi influenciado por esses grupos?

 

Sim, com certeza. Inclusive, quando eu tinha 15 anos criei um selo musical e foi Ian [MacKaye, fundador do Fugazi] quem me concedeu o empréstimo para realizar meu primeiro grande projeto.

 

Uma tremenda honra, sem dúvida.

 

Foi incrível. Eu literalmente liguei para a Dischord [influente selo independente fundado por MacKaye em 1980], e expliquei a minha ideia. Não me recordo exatamente como combinamos a reunião, mas eu apareci na casa dele e saí de lá com um cheque de três mil dólares. Paguei-o de volta duas semanas depois, assim que possível, porque ninguém quer ser o cara que dá um calote em Ian MacKaye (risos).

 

Você sempre foi ligado em música? Costumava ir em shows quando era adolescente?

 

Sim, tive a sorte de assistir a muitas bandas boas de D.C. naquela época. Acho que fui bastante influenciado por Shudder to Think e Jawbox também.

 

Notei que você tocou alguns riffs do Led Zeppelin enquanto passavam o som, antes do show.  Também gosta de rock clássico, ou só estava executando os riffs porque é tão divertido tocar qualquer coisa que Jimmy Page escreveu?

 

Não existe diferença entre essas duas coisas, cara! Não, mas falando sério, sou um enorme fã do Led Zeppelin. E é claro que quando você gosta de rock e está de frente para um amplicador gigante, é muito difícil resistir à tentação (risos).

 

Você se interessou pelo rock antigo antes ou depois de curtir as bandas da sua cidade natal?

 

Acho que comecei a ouvir Fugazi imediatamente depois de começar a curtir Zeppelin, quando tinha uns 13 ou 14 anos.

 

Foi por que seu pai gostava de Zeppelin? No meu caso, pelo menos, foi assim que se surgiu o gosto pelo rock.

 

Sério? Acho que seu pai deve ser mais jovem do que o meu (risos). Meu pai até gostava dos Beatles e dos Everly Brothers, mas cresci ouvindo Handel e Beethoven em casa, o que também é magnífico. Demorei a perceber que recebi uma boa educação musical.

 

Recebemos na última semana algumas bandas que representam esses dois momentos do rock. Os grandes festivais tem sido cada vez mais frequentes no Brasil, e neste último tocaram tanto músicos que estouraram no final dos anos 60, como Lynyrd Skynyrd e Peter Gabriel, como bandas que marcaram os anos 90 como Faith No More, Ash, !!!.

 

Faith No More? Eles ainda estão tocando?

 

Sim, eles voltaram à ativa em 2009, e fizeram um dos melhores, ou talvez o melhor show de todo o festival. Mike Patton continua espetacular.

 

Mike Patton é um tanto insano. Eu gostava muito desse tipo de som no final da minha adolescência, época em que eu julgava que quanto mais barulhento e mais maluco melhor. É curioso pensar o que é duradouro, e o que tende a ficar musicalmente obsoleto, em um nível pessoal. Quando ouço Fugazi, ou Circus Lupus, continuo sacando totalmente qual é a deles. Outras coisas que revisito hoje em dia, nem tanto. Ainda consigo curtir Bad Brains, The Jesus Lizard, mas tem coisas que já fui fã mas acabei me distanciando.

 

Gostaria de falar um pouco sobre seus vídeos também, se é que você ainda tem paciência para falar sobre eles.

 

Estou acostumado a falar sobre os vídeos (risos). Não tem problema nenhum.

 

O vídeo para Here It Goes Again, em que aparecem dançando e fazendo coreografias entre as esteiras, nasceu de uma brincadeira despretensiosa ou foi algo que pensaram em fazer direcionado para a internet, com a intenção de despertar a atenção em um estilo "viral"?

 

Este que você mencionou foi intencional. Mas o primeiro de todos foi o vídeo de A Million Ways, aquele em que estamos dançando no jardim da minha casa. Aquilo não foi nada mais do que um ensaio, porque inventamos a dança para ser executada em cima do palco. Queríamos que nosso show fosse algo que surpreendesse as pessoas, basicamente, e assim surgiu aquela dança ridícula.

 

E um de vocês maliciosamente colocou o video na internet?

 

Ficamos sabendo que Michel Gondry, o diretor francês, tinha uma ideia para um clipe mas não tinha encontrado a banda certa ainda. Sabíamos que ideia envolvia uma dança coreografada, então mandamos a fita para ele. É claro que ele nunca chegou a assisti-la, a fita nunca deve ter ido além do assistente de seu cabelereiro, ou algo do tipo. Mas foi muito engraçado. Coisas como a cabeça do Tim [Nordwind, baixista do grupo] ser cortada do quadro no final tornaram o vídeo bem espirituoso, e divertido.

 

 

 

E a popularidade do vídeo, veio de onde?

 

Também enviamos a fita para alguns amigos, mas não achávamos que aquilo era grande coisa, até que alguns posts começaram a surgir na internet. Isso foi antes de o YouTube ter centralizado todos os vídeos da internet. Existia um site chamado iFilm, onde o vídeo foi baixado 200 mil vezes, que é o número de discos que havíamos vendido até então. Aí caímos na real e percebemos que aquilo se tratava de um clipe, e não apenas uma brincadeira. A partir daí, a ideia foi: se conseguimos fazer esse barulho sem querer, imagine o que pode acontecer se nos empenharmos.

Então o vídeo das esteiras foi concebido com a intenção de ser um estouro on-line?

Não exatamente. O que pensamos na hora foi: 'Acho que nossos 200 mil fãs espalhados por aí merecem mais um presente, um vídeo ainda mais divertido e elaborado'.

Jamais desconfiaram que em 2011 superariam a marca de 100 milhões de visualizações no canal da banda no YouTube?

De jeito nenhum. No máximo, fantasiamos que, ao invés de ter 200 mil downloads, o seguinte pudesse ter 300 mil! (risos). Acabou que, no primeiro dia, ele foi baixado mais de 800 mil vezes, e ninguém conseguia acreditar. Tínhamos certeza que se tratava de algum bug no site, ou algo do tipo. O engraçado é que o vídeo de Here It Goes Again foi planejado, mas não chegou a ser um hit encomendado, ao ponto de contratarmos uma equipe profissional. Mais uma vez, a equipe se resumia a nós quatro, e minha irmã.

Você estudou artes visuais na universidade, certo? Acha que essa bagagem veio a contribuir na criação dos outros vídeos, cada vez mais elaborados?

Sim. Na verdade, nenhum dos membros da banda tem uma formação acadêmica em música. Todos fizemos aulas, mas nenhum de nós jamais teve a pretensão de praticar oito horas por dia e virar um virtuoso, saca? Claro que consideramos incríveis o talento desses prodígios, mas nós somos mais fãs de música do que qualquer outra coisa. Quando eu ouvia Beatles e Rolling Stones pensava: 'isso é impossível de ser feito por seres humanos normais'. Quando comecei a frequentar os shows de minhas bandas favoritas em D.C., e vi aquilo sendo feito na minha frente, pensei, 'puta m****, preciso fazer isso'.  Mas a maneira como gostamos de fazer música não está muito confinada à teoria, e como consequência acabamos expressando nossa criatividade tanto visualmente quanto musicalmente. Fizemos muitos vídeos no dois últimos anos, e agora a tendência é que o OK Go volte para o estúdio para gravar um novo álbum.

A banda já existe há mais de dez anos, mas vocês só lançaram três discos até agora. Tem a ver com o que você acabou de dizer? Vocês costumam despender tempo e energia em outros projetos, certo?

Sim, mas também acho que tem a ver com a quantidade de shows que fizemos nos últimos anos. Para Of the Blue Color of the Sky (2010), a turnê durou mais ou menos 18 meses. O álbum anterior, Oh No (2005), contou com uma turnê de 31 meses. É possível compor nesses períodos, mas o foco necessário para gravar um disco só existe realmente em uma pausa, dentro do estúdio.

Vocês estão voltando para o estúdio por que estão cansados de viajar ou por que sentem que estão no momento criativo certo para escrever novas músicas?

Estou muito empolgado para escrever material novo. Vamos entrar no estúdio com algumas ideias, mas nada muito fechado Apenas conceitos mais amplos, que precisam de lapidação até que a música que existe dentro deles apareça, se é que você me entende. Não diria que estou cansado da turnê, porque os últimos meses não foram tão repletos de shows, e sim de viagens para colaborações inusitadas, gravação de vídeos, projetos de dança e outras maluquices.

Então você diria que os shows nas ruas aqui no Brasil serão os últimos por um bom tempo?

Ah, sempre aparecem algumas oportunidades para tocar aqui e ali. Os "pop-up shows" marcados para o Rio e São Paulo seriam legais em qualquer lugar, mas é sempre muito especial tocar no Brasil. Raramente temos a oportunidade de viajar para cá, mas amamos o país.

Já fizerem shows do tipo antes?

Nunca neste esquema. Já fizemos alguns eventos bizarros. Participamos de uma parada em Los Angeles em que juntamos uns cem amigos e tocamos pelas ruas da cidade durante oito horas, sem parar. Na verdade acho que foi o oposto do que vamos fazer por aqui, já que os shows nas ruas do Brasil serão mais curtinhos.

Quais você considera que são as vantagens e desvantagens de trocar uma gravadora gigantesca como a Capital Records, à qual o OK Go era associado até o ano passado, por um selo independente?

Ambos os sistemas exigem algo como dezoito horas de trabalho duro por dia na hora de gravar. Mas com as grandes gravadores, você também tem que perder tempo gritando e chamando a atenção dos chefões para que eles invistam recursos em você. Com um selo independente, o processo é mais direto e eficiente. Também temos mais liberdade para tomar decisões quanto ao rumo da banda. A mentalidade é outra.

 

 

Então vocês devem estar se sentindo muito bem, prontos para entrar no estúdio pela primeira vez sem a sombra da EMI [empresa britânica que controla a Capitol desde a década de 50].

Com certeza. Não que eles tenham influenciado o som da banda diretamente, sempre tivemos liberdade criativa. Mas o mundo do OK Go está tão distante do modelo ultrapassado das grandes gravadoras, que de certa forma é um alívio não ter mais um parceiro muito mais poderoso do que a própria banda.

Mas vocês são gratos à Capitol, certo? Querendo ou não, eles tevem ter contribuído para o crescimento do grupo.

Ah, sim. Também não é como se trabalhar com a gravadora fosse uma droga, e ponto. É todo um modelo e uma estrutura que deixou de funcionar, para nós pelo menos. Certamente funciona para Lady Gaga, Justin Bieber, e até mesmo algumas bandas indie mais famosas. Só que a maneira como nós medimos o sucesso é muito diferente da deles. Estamos felizes enquanto conseguirmos tocar nossos projetos. Os shows que vamos fazer aqui no Brasil, por exemplo, jamais poderiam ser feitos se ainda estivéssemos com a Capitol.

E o vídeo que vocês vão gravar no Rio, se trata de um novo clipe do OK Go?

Não sei. É difícil dizer o que vai ser, na verdade. E isso não é um problema. Costumamos chamar nossos vídeos de clipes, porque só assim conseguimos apoio para fazê-los (risos). Imagine só se, dez anos atrás, eu chegasse para alguém e falasse: 'Quero juntar um grupo de quatro caras e fazer um vídeo bizarro de arte performática, sem nenhuma história, e uma música de fundo'. Qualquer um iria virar pra mim e falar, 'Esse é o pior plano de negócios que eu já ouvi na minha vida'. Mas se você falar que gostaria de fazer um clipe, faz mais sentido, porque todos sabem o que esperar. Não acho que nossos clipes se encaixam no conceito tradicional, porque clipes supostamente têm que adicionar alguma coisa à própria música. Enfim, não sei o que vamos fazer no Rio, mas vai ser incrível.

Por último, uma pergunta que extrapola um pouco o mundo da música. Li que, quando George W. Bush ainda era o presidente dos EUA, você escreveu uma espécie de manifesto que servia como manual explicando o que grupos musicais poderiam fazer para ajudar a derrubá-lo. Não funcionou, mas Bush foi substituído pela oposição há alguns anos. Acha que muita coisa mudou? Você está mais contente com a administração atual?

Uau, é difícil ser breve em um assunto como este. Ainda sou fã do Obama. Eu certamente gostaria que mudanças mais radicais tivessem acontecido nos três últimos anos. Acho que o buraco deixado pela administração anterior foi tão profundo que Obama ainda não conseguia se aproximar muito da superfície. É triste, mas acho que Bush fez mais coisas negativas em seus anos finais na presidência do que Obama fez coisas boas até agora. É difícil dizer se estamos nos aproximando da sanidade no que diz respeito à política nos EUA. A impressão que fica é que ele está amarrado por uma situação complicada no Congresso, mas espero que ele seja reeleito e então não tenha que se preocupar em agradar pessoas que defendem posições e ideias contrárias às suas.

Ok Go em São Paulo:

19/11: 16h na Galeria do Rock e 21h na Rua Augusta, tura do n. 700

20/11: 16h na Avenida Brigadeiro Faria Lima

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