Marcio Fernandes/Estadão
Marcio Fernandes/Estadão

Odair José volta às origens nas garagens de Goiânia e faz um disco de rock pesado

'Dia 16' tem lançamento nesta semana com dois shows em SP

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

12 Março 2015 | 03h00

Odair José diz que há muito tempo não se sentia como agora, em paz e em casa. Acaba de fazer um disco que saiu como ele queria, chamado Dia 16 – a imersão mais roqueira desde o início de sua carreira, em 1970. Gravar um álbum de rock and roll, com influências das pegadas de Rolling Stones, Beatles, AC/DC e Bob Dylan, seus heróis, é um ato simbólico. Odair sofreu para encontrar seu caminho e, quando encontrou, se perdeu novamente. Agora, diz, ninguém mais o tira do prumo.

Dia 16 começa a ser uma vitória pela capa. Em letra de máquina de escrever, enumera vários acontecimentos relacionados ao dia 16 (o cantor, de 66 anos, nasceu em 16 de agosto de 1948). “16 de janeiro de 1957: The Cavern Club é inaugurado em Liverpool”, “16 de abril de 1964: o primeiro álbum dos Rolling Stones é lançado no Reino Unido”, “16 de agosto de 1977: morre Elvis Presley”.

O álbum é vigoroso, de guitarras dobradas e distorcidas e de uma sonoridade cheia, de baixo e bateria casados até que a última faixa os separe. São canções vestidas para a noite. Tudo emana anos 1970, mas não mais os violões de Crosby, Stills and Nash ou as baladas de Van Morrison, gente que Odair admirava. Os anos 1970 de agora fazem mais sexo do que amor.

O disco será lançado com dois shows, nesta quinta e sexta-feira, 12 e 13, na Choperia do Sesc Pompeia. A chance agora será de ver Odair no limite de uma proposta que, em retrospecto, foi sua primeira intenção desde que a primeira guitarra caiu em suas mãos, ainda na juventude de Goiás. Ele mesmo recorda. “Havia uma enxurrada de bandas em Goiânia e eu estava em uma delas. Uma banda de rock de garagem.” A formação levava o nome de Monft, criada com as iniciais dos nomes de cada integrante. “Era a turma que estudava na mesma escola. A gente tocava Beatles, Animals e Stones nas festas. Não chegava nem a ser barzinho.”

Mas era tudo o que Odair tinha e o que ficou em sua alma mesmo nos anos que as circunstâncias o levaram a fazer álbuns dos quais ele não se orgulha muito, em sua fase de EMI. “Não fiz nenhum disco lá como eu queria fazer”, confessa ainda.

Odair tem claramente o momento em que perdeu o fio da meada. O nome do divisor de Odair se chama O Filho de Maria e José. O álbum lançado em 1977 é um estrondo em sua carreira, gravado com um timaço de músicos e muito bem produzido. Mas a resistência à época foi grande, levando até integrantes da igreja católica decretarem heresia no título. Ali, Odair, que vinha de uma sequência de bons discos na CBS, (agora ainda mais bem reavaliados desde seus lançamentos em CD, no ano passado) ficou amedrontado com tanto barulho. “Eles bateram o pé e eu corri”, recorda.

“Quando o disco saiu, todo mundo jogou pedra e eu me decepcionei. As pessoas não aceitavam que o cantor que falava da pílula (Pare de Tomar a Pílula) pudesse ser um cantor pop. Eu me decepcionei e me perdi, perdi o fio da meada. O erro foi meu.” O erro que ele diz seria a sequência de discos gravados para o prazer e o gosto dos produtores de gravadoras a partir de então, jamais para sua realização.

Por isso, ver Odair neste momento é assistir a um raro caso de libertação que ele fez desde a década passada. Odair José jamais aceitou os carimbos de “cantor das empregadas”, “rei do brega” ou algo parecido não por rejeitar essas categorias, mas por não serem elas sua verdade. O que sempre esteve naquele homem, e que agora fica ainda mais evidente, foi mesmo o bicho chamado rock and roll. 

ODAIR JOSÉ

Sesc Pompeia. Choperia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7700. Quinta, 12, e sexta, 13, às 21h30. R$ 9/ R$ 30. 

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