Kika Antunes/ DIVULGACAO
Kika Antunes/ DIVULGACAO

Ocupação revela detalhes da vida reclusa e do processo criativo do músico Elomar

Conhecido entre seus admiradores por não dar entrevistas e não permitir ser fotografado, menestrel ainda vai se apresentar em SP

Lauro Lisboa Garcia, Especial para O Estado de S. Paulo

17 Julho 2015 | 05h00

É notória a aversão que Elomar Figueira Mello tem pela “urbi”, como costuma se referir às (grandes) cidades. Arquiteto formado pela Universidade Federal da Bahia, onde também estudou música, por isso mesmo sabe da dureza de viver na massa compacta de asfalto e concreto. Tem até uma tese em que defende que o mal vem da cidade, e está no ensaio A Era dos Grandes Equívocos, a ser publicado. 

Conhecido entre seus admiradores pela atitude reclusa - vive no sertão baiano, perto de Vitória da Conquista, não dá entrevistas, não permite ser fotografado -, vez ou outra ela transcende sua galáxia para se apresentar em São Paulo, cidade onde mais gosta de cantar. Dessa vez, além de um concerto no sábado e dois no domingo no Auditório Ibirapuera, o menestrel aporta na formiguenta Avenida Paulista para a abertura da Ocupação Elomar, que começa neste sábado, 18, no Itaú Cultural.

São Paulo é um dos cenários de tragédia para um retirante numa de suas mais belas e imagéticas composições, Chula no Terreiro. Diz que jamais moraria aqui, mas reconhece nela uma certa beleza, superior a todas as outras cidades que conhece, e o respeito do público educado que sabe apreciar seu trabalho. Curioso é o contraste ao transpor seu universo tão peculiar, rural, árido e silencioso para um espaço urbano numa das avenidas mais movimentadas da Pauliceia. De acordo com sua assessoria, Elomar acha interessante, e um grande desafio para os artistas que montaram essa ocupação, pegar seu universo, que é bem maior em “escala ciclópica”, e reduzi-lo em um simples espaço, de 10 X 12 m no piso de um alto edifício. A ambientação do espaço terá réplicas de seu reduto.

Ao avançar a porteira, como aquela da poeirenta estrada das areias de ouro que leva à Casa dos Carneiros, o visitante vai ter acesso a muitas raridades, como o primeiro compacto simples lançado por Elomar em 1968 com as músicas O Violeiro (regravada em seu primeiro álbum, ...Das Barrancas do Rio Gavião, de 1973) e Canções da Catingueira, partituras de suas óperas, trechos originais de livros, poemas inéditos, cartas, objetos pessoais, tirinhas do Bode Orelana, personagem que Henfil (1944-1988) criou inspirado nele, desenhos de sua figura feitos pelo amigo e conterrâneo Juraci Dórea, documentos que Elomar mantém no que chama de “arquivos implacáveis”, capas de discos e outras peças iconográficas inspiradas nos temas de suas canções. Porém, coerente com seu padrão de comportamento, não haverá exposição de fotos. 

A ideia da Ocupação Elomar surgiu a partir de visitas (cerca de 15 viagens) que a equipe do Itaú Cultural fez às terras do compositor, arquiteto e fazendeiro na Gameleira, sertão da Bahia, a 22 quilômetros de Vitória da Conquista. O Itaú vai patrocinar parte da recuperação do acervo do artista, que vai ser alojado numa construção projetada pelo próprio Elomar, com catalogação, higienização (incluindo a recuperação de gravações em fitas cassete) e aclimatação adequadas, ao lado da Casa dos Carneiros e do Teatro Domus Opera, que ele próprio também projetou e foi destinado à montagem de óperas brasileiras. 

Como as montagens realizadas no teatro, o acervo estará aberto ao público, então a Ocupação Elomar é uma espécie de amostra do que se pode ver na fonte inspiradora do artista. “Ele não é um fazendeiro fake, não é um sertanejo que usa chapéu para fazer tipo, ele vive o que canta e canta o que vive”, diz o filho João Omar.

Entre as músicas mais significativas de sua carreira, estarão disponíveis para audição em toca-discos de vinil no Itaú Cultural estão Campo Branco, Chula no Terreiro, A Meu Deus Um Canto Novo, Clariô, O Pedido, Cantiga de Amigo, Arrumação, Cantiga do Estradar. Nos concertos, além de alguns desses clássicos e temas que gravou com Heraldo do Monte, Arthur Moreira Lima e Paulo Moura no célebre álbum ConSertão (1982), há novas composições, como Salmo 23, e algumas do início da carreira, como O Robot e Mulher Imaginária, incluídas em seu derradeiro recital de canções ao lado do filho, Riachão do Gado Brabo, que começou na sala da Casa dos Carneiros em 2012, circulou por algumas cidades e chega ao disco este ano. “Estamos em fase de produção, já gravamos algumas músicas”, conta João Omar. “Têm canções inéditas, outras extraídas de peças de teatro dele, como Amarração (de O Mendigo e o Cantador) e até composições da fase da juventude, como Naquela Favela, que é bem um estilo clássico de samba.”

Rigoroso e radical nas atitudes concernentes à criação artística, política cultural e relação com a mídia e o mercado, Elomar é como o também baiano Dorival Caymmi (1914-2008): é o melhor intérprete do próprio e valioso cancioneiro. No entanto, em menor escala do que o conterrâneo, teve canções talhadas em outros moldes por diversas vozes agrestes, como Xangai, Dercio Marques (1947-2012), Diana Pequeno, Elba Ramalho e mais recentemente a portuguesa Susana Travassos.

“Acho que, como qualquer pessoa consciente de seu trabalho, meu pai detesta quando gravam errado melodias, harmonias, mas não tem muita resistência contra quem queira gravar as músicas dele”, diz João Omar, responsável pela curadoria da parte musical escrita da Ocupação. “No Japão, um grupo de rock underground gravou várias músicas dele sem autorização. Dois rapazes do Rio gravaram O Violeiro em ritmo de rap. Ele riu muito, achou hilário e absurdo, mas imagine que duas pessoas de um universo completamente diferente do dele tenham se interessado por sua música. Então, não tem problema, meu pai é muito aberto e receptivo a jovens que querem gravá-lo, mas boa parte deles é imatura, não tem qualidade artística. Agora, quando é um exemplo extremo como esse, ele acha interessante.”

Elomar já disse que identifica influências dele no trabalho de muitos artistas, mas prefere deixar que a “crítica do futuro” descubra, que a história conte. Porém, faz questão de enfatizar que nem todos que se interessam em gravar suas canções têm conhecimento profundo. São talentosos, mas a maioria, segundo ele, conhecem sua obra de ouvido. Curiosamente, o único que ele considera exceção nesse aspecto, não canta: é um jornalista mineiro chamado João Paulo.

Entre o trabalho na fazenda e a manutenção do acervo, Elomar encontra tempo para compor. “Nesse concerto do Ibirapuera, vamos tocar um aboio inédito e muito bonito dele”, diz João Omar. “Ele está animado em compor e realizar um sonho artístico. A composição é a grande tarefa para ele, sejam canções ou óperas.” A execução é algo consequente e há temas que só ele pode tocar, porque está muito ligada ao violão.

O compacto que Elomar gravou em 1968 deve ser o primeiro disco independente do Brasil, como lembra o filho. Em conversas com outras pessoas sobre a possibilidade de reeditar esses registros dos primórdios, Elomar já disse discordar, porque acha que não está cantando bem nas gravações. Outro projeto difícil de viabilizar é a montagem de suas óperas, e a de outros autores brasileiros, que há tempos vem planejando encenar no Teatro Domus Operae, construído com essa principal finalidade em sua fazenda.

Construído com recursos próprios no meio do campo, o teatro que lembra o Areópago de Atenas foi transformado em fabriqueta de laje. Foi fechado para encenações operísticas, diante da grande dificuldade de se realizar o Festival da Ópera Brasileira (que é a grande bandeira de Elomar), por falta de patrocínio e de interesse por essa arte no Brasil. Agora, Elomar, mais uma vez, surpreende com ímpeto empreendedor ao criar uma laje esbelta e revolucionária que vai ser patenteada com o nome de Kallu Guapa, segundo sua assessora Rossane Nascimento. E espera que, um dia, o governo tome alguma iniciativa como essa da instituição que se interessou por seu acervo, para então devolver ao Domus Operae a sua função nobre.

Novo espaço abrigará peças raras e inéditas

No acervo de 80 fitas, podem ser encontrados fragmentos de óperas, antífonas e peças do romanceiro

Como o Teatro Domus Operae, o imóvel destinado a abrigar o acervo musical de Elomar, projetado por ele, é integrado à paisagem da Gameleira. Tem forma de curral de carneiros, similar ao que abriga os animais de seu rebanho. Dali se pode ver o umbuzeiro, os pés de mandacaru, toda a vegetação da caatinga, o contorno da serra e os animais que vivem soltos. Admiradores e especialistas em sua obra terão acesso a diversas peças raras e inéditas, gravadas em fitas de áudio e vídeos. Haverá uma sala equipada com esse fim. Quanto à digitalização desse acervo, ainda não há planos, como conta João Omar. Só quem se dispuser a ir até a Casa dos Carneiros poderá ter acesso ao material.

A encorpada discografia de Elomar, lançada em vinil e CD, muitos por conta própria, está quase toda fora de catálogo, e difícil de ser encontrada até em sebos e sites de vendas. Alguns exemplares ainda podem ser comprados na fazenda, bem como seus livros. Agora, há ainda muita coisa nova a ser publicada. No acervo de 80 fitas de Elomar, podem ser encontrados fragmentos de óperas, antífonas e peças do romanceiro. 

Recentemente, Elomar concluiu sua quarta ópera, Peão Mansador, de um projeto inicial de 11, que depois, por falta de tempo, foram reduzidas para seis. No momento, trabalha na conclusão de A Casa das Bonecas. Em seguida, vem De Nossas Vidas Vaporosas. Conforme sua assessora, ele também vai pegar no baú temas e fragmentos embrionários do Romanceiro do Ciclo do Gado e do Ouro.

"Estamos trabalhando com a Casa dos Carneiros e sobre o seu acervo há cerca de dois anos. O Banco Itaú tem patrocinado a organização deste arquivo e a construção do espaço que o abrigará. Foi a partir desta parceria que o Itaú Cultural propôs a Elomar a realização desta Ocupação, com o mesmo espírito de toda a série destas mostras, que é levar ao público o processo de criação da obra e a vida de artistas que são referência na arte e cultura brasileiras", conta Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. Para acompanhar as atividades da Ocupação Elomar, as informações estão no site http://itaucultural.org.br. / L.L.G.

OCUPAÇÃO ELOMAR

Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149. 3ª à 6ª, 9h/20h. Sáb., dom. e feriados, 11h/20h. Até 23/8. Grátis. Abertura 18/7

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