'Ocupação Jards' compila vida e obra de Macalé

Textos e imagens sobre a vida e obra do artista são expostos no Itaú Cultural, que montou programação paralela.

Renato Vieira, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 03h00

Jards Macalé há tempos não come a farinha do desprezo em relação à sua obra. Nos últimos anos, sua trajetória foi relembrada em dois documentários; seu primeiro disco foi relançado em vinil e suas faixas foram gravadas por artistas da nova geração no tributo E Volto Pra Curtir, disponível para download gratuito na internet. A Ocupação Jards, aberta hoje no Itaú Cultural, se aprofunda ainda mais em sua história por meio de material multimídia.

O artista acredita que as recentes abordagens e releituras de sua vida e trabalho são sinais de que ele é melhor compreendido hoje. E vê na ocupação a síntese de tudo o que fez. “A música me levou a diversos caminhos e tudo isso ficou muito disperso. Acho que o material dá uma dimensão mais clara sobre o meu trabalho.”

Parte do acervo veio das mãos do próprio Macalé. Cartazes de show, textos e fotos foram guardados por ele ao longo dos anos. O gerente do núcleo de música do Itaú Cultural, Edson Natale, conta que a ideia de fazer uma ocupação com a obra do artista vem de 2001, quando Macalé capitaneou uma releitura de O Banquete Dos Mendigos no Theatro Municipal, também organizada pela instituição. À época, ele esteve na casa do cantor e compositor em Penedo, no sul fluminense, e se impressionou com o material acumulado.

“Vi que poderia fazer algo com aquilo, formava um mosaico. A ocupação junta os cacos do Macalé e forma algo maior”, salienta Natale. A cenografia da ocupação é assinada pelo quadrinista Lourenço Mutarelli, convidado por Natale pela ligação que Macalé tem com os quadrinhos. Ele criou a Macalândia, espaço no qual o acervo está disposto, e o personagem Makalé, espécie de alter ego do artista, pintado em telas acrílico e expostos na seção de quadrinhos, compostas por itens da coleção pessoal de Macalé, indo de gibis do Batman aos desenhos eróticos de Carlos Zéfiro.

Mutarelli revela que a inspiração para o conceito visual veio de Gotham City, parceria de Macalé com Capinam. A atmosfera sombria da canção foi reproduzida pelo quadrinista, que faz sua primeira cenografia. Ele desenvolveu um labirinto que leva aos setores da ocupação. “É um espaço pequeno, de 120m², que vai levando as pessoas pela divisão da ocupação. Eu queria que tivesse um grau de respeito e sofisticação, para não ficar apenas na questão do underground ou do maldito, que por muito tempo ficou atrelada ao Macalé”, ressalta Mutarelli.

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A divisão estabelecida pela curadoria agradou ao homenageado, que não interferiu na montagem da ocupação. “As coisas que fiz se intercomunicam e influenciaram umas às outras. Ainda não vi como ficou o espaço, mas os temas podem ser vistos como um suporte do que faço”. E os ‘cacos’ de Macalé contam um pouco da história do Brasil e da cultura nacional. Estão expostos bilhetes de Maria Bethânia e do poeta Torquato Neto endereçados à mãe de Macalé, a carta de Caetano Veloso pedindo sua presença em Londres para fazer a direção musical do álbum Transa (1972) e lembranças de um encontro com o general Golbery do Couto e Silva no fim dos anos 1970, quando propôs que “os nossos terreiros invadissem Nova York, uma coisa metafórica”, sendo alvejado pela esquerda brasileira.

Neste fim de semana, Macalé está em São Paulo para uma programação paralela à da Ocupação Macalé. Ele faz hoje, às 20h, show gratuito para a plateia externa do Auditório Ibirapuera. Amanhã, no Itaú Cultural, às 16h, ele encarna o personagem Elacam Tená (o oposto de Macalé Anet, este último seu sobrenome) em um espetáculo de mágica com Ibrelam Odracir (ou Ricardo Malerbi). “Sempre gostei de ilusionismo, apesar de ser um amador, aquele que ama. A própria arte, por mais concreta que seja, é uma ilusão que construímos. E a mágica para mim é um espelho, por isso os nomes ao contrário”.

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