TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
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Ocupação Alceu Valença desvenda uma das maiores mentes criativas do País

Mostra estreia neste sábado (14) e segue até 2 de fevereiro, no Itaú Cultural da Avenida Paulista

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2019 | 20h14

Se fosse pelo pai, não haveria frevos nem maracatus. Seu Décio Valença era rígido, homem de currículo e respeito, e sonhava que o filho seguisse as linhas do Direito. As vitrolas e as violas estavam proibidas em casa, mas a música que invadia o filho Alceu vinha pelo ar, sempre que um embolador passasse pela rua, um aboiador reunisse o gado, uma rolinha posasse na janela. O estrago, mal sabia Décio, seria muito maior.

Alceu é, assim, produto de uma música sem padrões, juntada com pedaços de sons que saíam de toda parte em São Bento do Una, e depois no Recife, Olinda, Paris e Rio de Janeiro. “Não é preciso me entender”, ele diz. “As pessoas podem gostar da minha música sem saber de onde ela vem. Podem gostar de reggae sem saber de sua história na Jamaica.” Mas então, para que serve uma exposição sobre sua obra? “Em resumo, para mostrar um artista de São Bento do Una, pernambucano, nordestino, brasileiro e planetário.”

Alceu Valença vale o estudo, até para ser ouvido melhor. A partir deste sábado, 14, até 2 de fevereiro, ele será tema do projeto Ocupação, do Itaú Cultural. Uma curadoria formada pela equipe do instituto, com consultoria de Julio Moura e cenografia de Leopoldo Nóbrega, levantou um vasto material biográfico do artista, com fotografias, poemas, músicas, audiovisuais, objetos e escritos literários. Muitas imagens e recortes guardados pela mãe, dona Adelma Valença, a incentivadora desde o início, morta em 2018, aos 104 anos, serão aproveitados. “Eu não tinha um acervo, não organizava nada, mas ela guardava tudo”, diz Alceu. Adelma foi guardiã do material do filho até 15 anos atrás, quando sua mulher, Violeta, assumiu o posto.

As fotos revelam um episódio curioso, quando o futuro músico jogava basquete pela equipe do Náutico. “Eu era pequeno, mas jogava muito.” Alceu, 1,76 m, era ligeiro, liso, mas baixo para aquele universo. Aos 17 anos, pendurou o All Stars assim que um garoto de 1,86 m, conhecido como mosquito, veio para o time assumir sua posição. “Aí eu virei micróbio e resolvi me aposentar.” Em nome do pai, seguiu para a Faculdade de Direito do Recife e, logo depois, fez sua inscrição em um concurso que valeria uma vaga em um curso de três meses na Universidade de Harvard. Alceu não sabia nada de inglês, mas impressionou o avaliador ao responder a uma questão sobre o marxismo fazendo uma analogia com a Igreja Católica em forma de poesia. Foi aprovado na hora.

Se faz rock? Não, diz ele. Alceu se vê como um misturador de tudo o que vem das terras quentes, frevo, maracatu, baião, xote, xaxado, galope, coco e embolada, com os ibericismos ciganos das terras frias, mas diz que o rock nunca o “atravessou”. Uma vez, o amigo Gonzagão assistiu a seu conjunto em ação em Juazeiro do Norte, em 1978, cheio das guitarras de Paulo Rafael, e deu seu veredicto ao final. “Ele disse que eu havia formado um conjunto de pife elétrico que fazia forró.” Mais tarde, um jornalista francês definiu seu som como “um rock que não é rock”. De que matéria, então, é feito um artista que poderia ser fiel seguidor de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro sem mover tantas peças para ter reconhecimento?

Se não levou o rock para o sertão, Alceu foi o primeiro a encontrar o potencial roqueiro que havia nele, eletrificando linhas que os aboios e os frevos tinham de mais pulsante, reforçando pontos que dinamizavam baiões e maracatus, traficando de campos o que era segregado como folclórico para transformá-lo em planetário. Que Grilo Dá (Rock de Repente), de 1984, do álbum Mágico, é uma embolada de violeiro fervida em fogo alto. Tropicana, de 1982, de Cavalo de Pau, é um xote originário de Vicente Barreto refugiado sob o guarda-chuva universal da MPB sem que ninguém a associe com os trios pé de serra. Anunciação, de Anjo Avesso, 1983, é um baião acelerado transformado em música pop e de rádio longe de valores cotistas. La Belle De Jour, de Sete Desejos, 1991, vem dos povos ibéricos, com seus lamentos alocados em sonoridades deixadas pelos árabes em escalas sexualmente tão perturbadoras que foram proibidas pela Igreja Católica na Idade Média.

A presença de Alceu vivo no centro de uma ocupação ganha, assim, a chance de vê-lo em três níveis de camadas: na mais superficial vem o artista que atravessou a pirâmide social de baixo para cima, fazendo o Brasil cantar xotes antes de saber o que era um. Na segunda, a visão histórica do homem que sai de São Bento do Una para ser advogado até o dia em que vai fazer a cobrança de um lojista e acaba dando razão para o devedor e que passa a ser jornalista do Jornal do Brasil no Recife até o dia em que uma lei começa a exigir diplomas. E que, diante da impossibilidade de todas as alternativas da vida até ali, resolve cantar. A terceira está em juntar o segundo com o primeiro e entendê-lo, deixando na inspiração um pensamento pós-tropicalista que nunca esteve em movimento algum para legitimar a música que faz.

Assim foi desde a origem, em 1972, quando chegou ao primeiro álbum com Alceu Valença & Geraldo Azevedo, gravado a alguns metros do Itaú Cultural, no outro lado da Avenida Paulista, onde ficavam os Estúdios Reunidos, no prédio da Gazeta. Sob o manto do arranjador Rogério Duprat, as guitarras abrem o disco com um riff de Me Dá Um Beijo, emulando Ray Charles (Hit the Road Jack). Alceu, antes de qualquer disco, ouvia os amigos do avô tocando sambas em casa, mas não podia entrar no recinto porque era pequeno. Um dia, resolveu tocar três notas no pandeiro, mas foi reprovado. “Esse filho de Décio não tem ritmo não.” O avô estava certo. Os próximos 70 anos Alceu passaria saindo do ritmo que a vida tentaria lhe impor para criar algo que se tornaria um novo estágio na proposta deixada por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro. Nem roqueiro nem forrozeiro, Alceu Valença seria a ponte.

OCUPAÇÃO ALCEU VALENÇA

ITAÚ CULTURAL. AV. PAULISTA, 149

TÉRREO. 3ª A 6ª, 9H/20H. SÁB., DOM. E FERIADO, 11H/20H. ABERTURA SÁB. (14), 11H. GRÁTIS. ATÉ 2/2/2020

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