Obras de Gounod são lançadas em série de concertos românticos

O regente Howard Shelley mostra as excêntricas peças do compositor em ‘The Romantic Piano Concert’

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

14 de abril de 2014 | 15h18

Dá pra imaginar um cruzamento de piano com órgão? Pois este híbrido não só existiu no século 19 como compositores conhecidos como Schumann, Liszt e Alkan escreveram para o chamado piano de pedaleira. O instrumento foi concebido para os organistas poderem tocar fora das igrejas. O fabricante de pianos francês Erard tinha uma dessas máquinas bizarras num de seus salões. Alkan costumava tocá-lo de vez em quando. Outro que se encantou com ele foi Charles Gounod ao ouvir uma execução da Fantasia de Saint-Saëns.

Sua reação foi de efeito retardado. Apenas dez anos depois, quando renunciou à ópera e resolveu dedicar-se à música religiosa e instrumental, compôs quatro peças para o bizarro instrumento. O musicólogo Paul Landormy descreveu uma sessão de música com piano de pedaleira. Impressionava, sem dúvida. “Era estranho”, diz Landormy, “ver uma pessoa miudinha curvada sobre uma imensa caixa contendo as cordas graves da pedaleira sob um piano de concerto colocado em cima da caixa”. Ele descrevia Lucie Palicot e até elogiou seus “belos joelhos”, já que a moça tinha de se esticar toda pra dar conta dos dois teclados – o de cima com as mãos, e o debaixo com os pés.

O regente inglês Howard Shelley – não confundir com o pianista de mesmo nome que gravou uma imensa integral da música para piano de Liszt – incluiu as excêntricas obras de Gounod na série concerto romântico do selo inglês Hyperion. E assim, neste volume 62 – já são 62 os CDs dedicados a concertos românticos, muitos modernamente desconhecidos –, Shelley rege a Orquestra da Suíça Italiana, aquela que Martha Argerich costuma usar em seus Festivais de Lugano. Regente e orquestra acompanham o pianista italiano Roberto Prosseda nesta empreitada diferente.

Gounod começou modesto, em 1885, com uma Fantasia sobre o hino nacional russo. Gostou daquele piano diferente que no ano seguinte escreveu uma Suíte Concertante em Lá Maior. Bonita, agradável, bem escrita. Seu andante é até cantarolável. Mas ainda soa como mais um passo no domínio da escrita para o “pianórgão”.

A mignon Lucie Palicot de belos joelhos tocou publicamente a fantasia e a suíte e seduziu romanticamente o compositor. Daí a obra mais vistosa do CD, o concerto para piano de pedaleira e orquestra, que Gounod escreveu em 1889. Ele mesmo disse que escreveu o concerto para “ma petite Palicote” e o manteve inédito. Possíveis entreveiros românticos à parte, o fato é que a partitura foi dada de presente pelo compositor à Jolie Lucie. É de longe a obra em que ele explora melhor os recursos diferentes do instrumento solista. Vale a pena conhecê-lo.

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