Obra traz à tona uma São Paulo submersa

Cantar o Rio ou a Bahia é fácil.Duro é tirar poesia de São Paulo. Por isso seus cronistasmusicais são tão raros. Adoniran, claro, mas também PauloVanzolini. Há uma geografia de Sampa nas músicas de Vanzolini,até mesmo a de locais que não existem mais, como a antiga PraçaClóvis, onde, reza o samba, o malandro tem a carteira batida,mas, como compensação, livra-se da foto da mulher que oabandonou. Ou na infatigável Ronda - que o compositor achaum pouco piegas, mas é apenas batida demais -, com seu passeiopela noite, na Avenida São João e adjacências.Há também as mulheres de Vanzolini, como aquela Mariaque ninguém queria e o narrador do samba diz que mandoureformar. Ou aquela que transforma sua conquista em verdadeirotrabalho de Hércules, como se diz no Samba Erudito: "Andeisobre as águas, como São Pedro/ Como Santos Dumont fui aos aressem medo." Tudo apenas para "me exibir, só pra lheimpressionar".São temas obsessivos do cancioneiro universal. Males deamor, a boemia, o afeto que se transforma em rancor, aingratidão, etc. A diferença toda está no sotaque, na maneira dedizer. Hoje em dia se produz muita coisa anódina, sob pretextoda universalidade. Mas obra de personalidade tem cheiro, marcaprópria, sotaque.Os sambas de Vanzolini falam paulistês - no melhorsentido do termo. Não apenas porque evocam lugares da cidade,mas porque pretendem captar a marca da personalidade local.Aquilo que os boêmios, depois das 4 da manhã, costumam chamar de"a alma da cidade".Há, nessa música, a expressão de uma maneira de sentir,de falar, de reagir. Um estilo, fruto do seu criador mais suacircunstância, sendo a circunstância de Vanzolini seuenraizamento profundo na cidade. Faz samba de batida própria,paulistana, diferente da do Rio de Janeiro, na forma e nofundo.Vanzolini, cientista profissional, gostava de andar pela noite.Era visto no primeiro Jogral, a casa noturna de Luiz CarlosParaná, ainda na galeria Metrópole, no velho centro. Avenida SãoLuís, Praça Dom José Gaspar, e o Paribar, para terminar a noite- o point intelectual e etílico da antiga São Paulo.É essa cidade submersa que volta à tona nos sambas deVanzolini. Por isso a São Paulo de Vanzolini é necessariamentenoturna. Aquilo que se busca com tanta dificuldade surge nomomento em que o trabalho convencional cessa e outro tipo delabor humano, o poético, encontra vez.

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