Obra-prima de Moacir Santos sai em CD

Poucos discos na história da músicabrasileira foram tão incensados e disputados por colecionadoresnas últimas décadas como o genial e mitológico Coisas, deMoacir Santos. Lançado originalmente em 1965, pela gravadoraForma, de Roberto Quartin, produtor do disco, permaneceu estesanos todos fora de catálogo e só agora, quase 40 anos depois,chega ao CD, pelo selo MP,B, com distribuição da Universal. A iniciativa partiu dos músicos Mario Adnet e Zé Nogueira,responsáveis por outra obra sensacional, o álbum duplo OuroNegro (2001), que reuniu a elite do instrumental brasileirorecriando obras-primas de Moacir, entre elas algumas destascoisas. Além do CD, os temas de Coisas serão publicados numsongbook que vai reunir toda a obra de Moacir. Adnet e Nogueiratambém estão produzindo um CD de inéditas do compositor. Nascido na pequena Vila Bela, em Pernambuco, Moacir, quecompletou 80 anos no dia 8 de abril passado, migrou para o Riode Janeiro no final da década de 40, onde começou a tocar embailes. Logo passou a integrar a orquestra da Rádio Nacional, naqual permaneceu por 18 anos, no início como saxofonista, depoiscomo maestro e arranjador. Foi professor de ninguém menos quePaulo Moura, Baden Powell, Nara Leão e Eumir Deodato, entreoutros. Vivendo desde o final dos anos 60 nos Estados Unidos,ficou um tanto esquecido por aqui. Com o modismo da lounge music algumas de suas Coisas pipocaram, desmerecidamente de maneiraredutora, em coletâneas para fundo de conversa. Pelo menos umdos dez temas do disco, o de n.º 5, popularizado como Nanã,está no inconsciente coletivo. Depois de ganhar letra de MárioTelles, virou clássico da bossa nova. A de n.º 2 é outra dasmais difundidas. Só agora, no entanto, com o lançamento da obra integralé que as atenções se voltam para sua importância histórica. Istoporque simboliza um manifesto abrangente sobre a grandeinfluência da música negra na mais funda brasilidade, numa épocaem que qualquer atitude política simbolizava um ato e tanto decoragem. E a afirmação da negritude ainda pairava no plano dautopia. No entanto, como lembra Roberto Quartin no texto deapresentação do disco, Moacir "deu um grito de desesperoafinado", sem panfletagem, "dando sentido social à música, semque para isso se precise mediocrizá-la". Todos intitulados Coisa, com o diferencial dos númerosde 1 a 10, são temas acima de tudo de uma beleza incontestável.Jazz, samba, bossa e outros ritmos afro-latinos se entrelaçam ese propagam em arranjos sutis e cadenciados. Sem exagero, é umdisco para figurar na lista dos mais importantes não só damúsica brasileira (instrumental ou não), mas mundial. Háprocedimentos de composição, harmonia, divisão, orquestração evariedade rítmica, além da qualidade dos músicos, que o situamem pé de igualdade com outros gigantes como Duke Ellington,Miles Davis e Dizzy Gillespie. Tudo soa moderno hoje, como o erahá 39 anos, e possibilita descobertas prazerosas a cadaaudição. Se Moacir e suas Coisas, milionárias em detalhes,foram referência para muito músico bom, devem virar bíblia paraos que só agora terão acesso a elas. Para certas gerações devirtuoses com egos inflados, de músicos que tocam para músicos,são alertas de que genialidade e sutileza podem sercomplementares. Só que sintetizar tantas boas idéias em apenas32 minutos não é para qualquer um.

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