Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Obra de Paul Simon é reverenciada pelo cantor Ritchie e o grupo Black Tie

Álbum arrebatador será mostrado neste sábado, 9

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

08 Julho 2016 | 21h12

Ritchie está em casa. O inglês se sente assim quando faz repertório em seu idioma nativo, contrastando com a carreira dos anos 1980 em que teve de cantar em português para fazer parte do cenário mais pop da música brasileira. Agora, ele é convidado de um grupo que tem criado identidade a cada trabalho, uma combinação de forças que já tem história. Ritchie está ao lado do Black Tie cantando apenas músicas de Paul Simon.

O projeto tem a abordagem luxuosa pensada pelo violista Fabio Tagliaferri. Fabio e Mario Manga ao violoncelo se uniram ao violonista Swami Jr para fazer projetos de arranjos centrados nas cordas. Para o disco com Ritchie, chamaram ainda o guitarrista e violonista Tuco Marcondes. Todos estarão no palco para o show de lançamento neste sábado, 9, no Auditório Ibirapuera.

A história do projeto chamado Old Friends começa nas ideias de Tagliaferri. Ele já havia arranjado para composições de Simon na época do grupo Música Ligeira, que contava com ele, Manga e o cantor Rodrigo Rodrigues (morto em 2005). Depois disso, o violista se empolgou ao ver Ritchie tão à vontade fazendo o repertório de seu disco 60, lançado em 2012 com o repertório em inglês de bandas e artistas de rock da década de 1960. As peças foram se juntando.

Havia ainda que se convencer Ritchie. Ele recebeu a proposta ressabiado. “Eu queria investir em um disco de repertório mais misturado (com outros compositores), não apenas com músicas de Paul Simon. Mas o Fábio insistiu e acabamos fazendo.” Antes de fechar, uma exigência: queria escolher canções com as quais guardava mais intimidade.

O álbum, apesar do repertório localizado na produção mais clássica de Simon, tem frescor, é sensível, comovente. Já fez algumas pessoas chorarem. Amigos que ouviram ligaram em prantos para Ritchie. Trazer as cordas de aço de Tuco foi um acerto, um aliado importante para subir alguns pontos de volume na dinâmica do trio sem atingir a esfera do rock and roll. Simon está preservado e mais folk que nunca. As linhas de viola e violoncelo parecem ser pedidas pelas canções o tempo todo. Paul Simon deveria ouvir isso.

A voz de Ritchie está bem acomodada, muito mais do que em tudo o que o público conhece com ele. Os projetos de intérprete estão se sobrepondo aos de compositor, o português com sotaque dando espaço ao inglês. É ele mesmo quem admite. “Estou há 40 anos cantando em português, mas minha zona de conforto ainda é o inglês. Como agora não preciso mais dar satisfação à gravadora, posso fazer o que quiser. E acho que canto muito melhor em inglês.”

O canto em inglês não havia espaço no Brasil de 1983, ano em que o jovem loiro de Beckenham chegou às estrelas com o lançamento de Voo de Coração, que trazia a música Menina Veneno. “Cantar em português foi a condição para fazer parte naquele momento da MPB.” E, ali, Ritchie se desdobrou para desenrolar um sotaque que jamais o deixaria. “Eu ficava treinando as pronúncias com o Bernardo (Vilhena, coautor da música) para ter a pronúncia correta. Ao mesmo tempo que o trabalho em português me fazia mais realizado, por saber que estava vencendo a ideia das gravadoras de que um gringo não faria sucesso no Brasil, cantar em inglês faz com que eu me sinta mais verdadeiro.”

O projeto de intérprete é também um respiro redentor a Ritchie. Se essa frente não se abrisse em sua vida, ele talvez tivesse que seguir com apresentações baseadas em sua carreira em português, algo que causa certo desconforto depois de 40 anos de carreira. “Veja: eu tenho nove discos. Oito deles não fizeram sucesso. Eu estou cantando as mesmas cinco músicas há 40 anos. Não dá. Quero expandir e, para mim, é um processo mais sofrido o de compor.” O repertório de Paul Simon que ele escolheu inclui, na sequência do disco: The Only Living Boy In New York; Old Friends/Bookends; The Boxer; The Sound of Silence; Scarborough Fair; April Come She Will; 50 Ways To Leave Your Lover; Bridge Over Troubled Water; America; Homeward Bound; Mrs Robinson; Still Crazy After All These Years; Song For The Asking; e The Boy In The Bubble.

Simon pega os músicos não apenas como um criador intuitivo de letras e melodias. “Temos que respeitar essas canções. Tudo já vem muito bem resolvido, só adaptamos ao formato”, diz Mário Manga. “Mesmo quando usa acordes naturais, ele cria melodias extremamente originais sobre aquilo. E há momentos harmônicos sofisticados, como em Still Crazy After All These Years”, conta Tuco Marcondes.

Antes de ser disco, o projeto foi show, apresentado em duas noites de novembro de 2015, na sala Crisantempo. O material foi gravado ao vivo, mas o resultado técnico não agradou a ninguém. Os músicos foram para suas casas e refizeram as partes de cada um, individualmente. Ritchie também recolocou a voz. “Esse trabalho merecia ter esse cuidado”, afirma Tagliaferri. A prática da gravação individual, sem contato entre os músicos, poderia resultar em algo frio, burocrático. Isso se a emoção das duas noites de show e a força do repertório de Paul Simon não estivessem guardadas na memória dos músicos. Quando regravaram tudo, sozinhos, reativaram aquela emoção e a entregaram de forma intacta.

RITCHIE E BLACK TIE

Auditório Ibirapuera. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 2; tel. 3629-1075. Com Tuco Marcondes. Sáb. (9), 21h. R$ 20

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