Obra de Nara Leão chega ao CD

Acaba de chegar às lojas o primeirolote da reedição, em CD, dos discos originais da cantora NaraLeão. Capixaba, de Vitória, nascida em 1942, Nara morreu no Riode Janeiro, em junho de 1989. Deixou discografia vasta, de cercade 30 títulos, e importante - uma das mais importantes dahistória da moderna música popular.Sua obra não havia chegado ao CD, salvo por uns poucos títulos,em geral, lançados sem alarde, sem divulgação, e por antologiasinconseqüentes, daquelas que fazem picadinho da obra, com faixaspinçadas de discos diversos.O acervo pertence integralmente à gravadora Universal, que vinhaprometendo o relançamento digital há muito tempo. Começou acumprir, com o lançamento da caixa Nara.O belo objeto, em forma de cubo, com cada uma das quatro letrasdo nome da cantora gravadas nas faces laterais, comporta 14 CDs.São os 13 primeiros discos de Nara - lançados entre 1964 e 1975- mais um disco, chamado Raridades, que coleciona faixasretiradas de elepês dos festivais de que Nara participou, trazparticipações dela em discos de terceiros e ainda registrosavulsos, originalmente editados em compactos, aqueles disquinhosde 33 rotações que tinham duas ou quatro músicas. Ficaram defora os títulos que ela divide com outros artistas.Os 13 títulos "de carreira" - aqueles que o artista lançaanualmente - trazem faixas-bônus, com músicas que ficaram defora, nas edições originais, e outras que são afins dorepertório original - por exemplo, do segundo trabalhofonográfico da cantora, Opinião de Nara, lançado em novembrode 1964, faziam parte os sambas Opinião e Acender asVelas, ambos de Zé Kéti, e da trilha sonora do showOpinião, em que Nara dividia o palco com Zé Kéti e João doVale. As faixas-bônus do CD são versões em espanhol dos doissambas.Acompanha a caixa Nara, que tem tiragem de 3 mil exemplares,um libreto com texto analítico do crítico Tárik de Souza. Areedição em CD, digitalmente remasterizada, foi produzida pelopesquisador Marcelo Fróes, que também garimpou as raridades e asfaixas-bônus. O preço sugerido pela gravadora Universal é de R$250,00. A gravadora promete, sem data fixa, mas para até o fimdo ano, a edição de um segundo volume da caixa, com o restanteda discografia da cantora. E assegura que, a partir de julho, osdiscos da primeira caixa estarão à venda separadamente (porenquanto, só está à venda a coleção completa).Originais - Detalhe importante da reedição: preservaram-se ascapas originais, as primeiras delas nos moldes elegantes criadospara a gravadora independente Elenco, fundada pelo produtor ecompositor Aloysio de Oliveira (o selo seria logo depoisabsorvido pela Companhia Brasileira de Discos, CBD, que, aolongo dos anos, mudaria de nome para PolyGram e, hoje,Universal). Foi na Elenco que Nara estreou, com o disco quelevava seu nome.Por economia - por falta de dinheiro, mesmo -, a equipe deAloysio criou um padrão gráfico usando apenas uma cor - overmelho, delicadamente aplicado, em detalhes, sobre o branco epreto básicos. Aquele projeto gráfico, surgido da necessidade,foi o mais sofisticado da história das capas de disco noBrasil.Ungida musa da bossa nova (já que na casa de seus pais, emCopacabana, reuniam-se os artífices do gênero nascente, em finsdos anos 50), Nara jamais esteve presa à bossa ou a qualqueroutra escola. Na estréia, gravou Cartola e Nelson Cavaquinho(gravou bossa, também, mas, ainda que musa, não se fez porta-vozexclusiva e só foi dedicar um disco inteiro à bossa em 1971, noduplo Dez Anos Depois, gravado no exílio francês, constanteda caixas.Em sua discografia, escreve Tárik de Souza, "descobriu novatos,renovou esquecidos, estabeleceu pontes com a vizinhança latina ecom a canção de protesto americana, elegeu prioridades e abriu amente da multidão que a ouvia." Nara, ela mesma, escreveu nacontracapa de seu segundo elepê, o citado Opinião de Nara:"Este disco nasceu de uma descoberta importante para mim: a deque a canção popular pode dar às pessoas algo mais do que adistração e o deleite. A canção popular pode ajudá-las acompreender melhor o mundo onde vivem e a se identificarem numnível mais alto de compreensão."

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