Obra de Koellreutter ganha dois estudos

O compositor, maestro e professor alemão Hans-Joachim Koellreutter, que vive no País desde 1937 e tem naturalidade brasileira desde 1948, tem sua obra e atuação redimensionada a partir do lançamento de dois livros: Música Viva e H.J. Koellreutter, de Carlos Kater, e Koellreutter Educador, de Teca Alencar de Brito. No primeiro, o autor documenta a contribuição do compositor para o movimento MúsicaViva, do qual foi líder, e pontua todos os conceitos, os rompimentos e os desdobramentos do movimento. O livro de Teca de Brito tem um viés oposto e centra-se na reflexão e aplicação dapedagogia musical do compositor.Música Viva e H.J. Koellreutter (editora Musa) é uma versão modificada da tese de Kater, defendida na Universidade Federal de Minas, em 1991. Musicólogo e educador, Kater procurouexpor cuidadosamente os princípios do movimento, pontuando rupturas e engajamentos do Música Viva na história da música brasileira, desde 1938, quando Koellreutter começou a articulara sua criação. Em 1939, iniciaram-se as atividades do movimento, entre elas a criação e ampliação do espaço para a produção emergente brasileira e para as músicas de invenção de todas as épocas, através de diversas realizações, como a promoção de audições, recitais, concertos, edição de partituras, cursos e programas de rádio."Durante a pesquisa, encontrei poucos registros eanálises relativos à história do Música Viva. Em geral, existia uma menção ao período, mas quase nada aprofundado, principalmente sobre o fato de ele ter produzido movimentos em direção à modernidade, como a utilização de meios de comunicação contemporâneos, e ter instaurado no cenário brasileiro uma ordem musical atual, ousada", afirma Kater. "Os compositoresbrasileiros envolvidos tinham referênciais de vanguarda como o atonalismo, dodecafonismo e a exploração do serialismo. Isso se confrontou com a geração anterior, marcada pelo nacionalismo. Opeso dessa geração também não foi apenas estético. O aspecto político estava impregnado nos conceitos deles, tanto que tiveram muitas divergências, como a Carta Aberta de CamargoGuarnieri (um apelo patriótico que, entre outras coisas, se propunha a alertar a classe musical sobre os perigos que a cultura brasileira sofria, como a influência do dodecafonismo) em 1950."Em resposta a Guarnieri, sobre a questão dododecafonismo, Koellreutter informava que não era um estilo, mas sim o emprego de uma técnica de composição criada para a estruturação do atonalismo. "Não tendo, por um lado - como todatécnica de composição - outro fim a não ser o de ajudar o artista a expressar-se", descreve o documento, redigido no mesmo ano.Temeroso com a superficialidade, Kater não quisconvergir a dissertação para a análise e descrição da personalidade de Koellreutter, nem para a de outros compositores do movimento. "Eu queria despersonificar o movimento de uma única atuação ou de algumas atuações. Apesar de Koellreutter estar à frente das articulações, muitos outros foram relevantes. Há, por exemplo, um erro recorrente de ressaltar o papel deCláudio Santoro e Guerra-Peixe; e até mesmo o de Koellreutter é pouco valorizado", explica. "É importante deixar claro que o Música Viva não foi um entreato na história musical. Não foi sóum aglomerado espontâneo de pessoas de talento; foi, certamente, uma escola de pensamento, coisa que nem Villa-Lobos fez."Educação musical - Um dos aspectos dessa "escola de pensamento", apontada em Música Viva e H.J. Koellreutter, o de "promover uma educação musical ampla e popular sob pontos devista modernos e atuais", presente na constituição oficial do movimento de 1943, encontra-se na essência do estudo Koellreutter Educador (Editora Fundação Peirópolis), de Teca Alencar de Brito. A autora centra-se na reflexão e aplicação da pedagogia musical do compositor, que transcende o valor estético da música e preocupa-se com o contato inter-humano, especialmente entreestudantes e professores. Assim como o papel desempenhado por Koellrreutter no Música Viva não se limitou ao de criador, sua atuação prosseguiu contundente na área de educação, enquanto omovimento perdeu forças nos anos 50. Parte dos ideais vanguardistas do Música Viva foi recuperada pela geração Música Nova, dos anos 60, formada por nomes como Gilberto Mendes.Ensino funcional - O compromisso de Koellreutter (e Música Viva) com a educação e a sociedade é evidente no livro de Teca, embora ele seja quase uma descrição das práticas e dosprincípios do mestre. "Ele é reconhecido como grande mestre de muitas gerações de músicos brasileiros, apesar de suas reflexões pesquisas e propostas dele para o ensino musical sejam poucos conhecidas", afirma Teca. "Ele tem uma preocupação, desde os anos 40, com uma educação musical funcional, que reflita a realidade brasileira. O objetivo maior, sem dúvida, é o serhumano."De linguagem acessível, mesmo para aqueles que não são da área de educação, a parte central de Koellreutter Educador relata o processo de criação e realização de Fim de Feira, deTeca e Koellreutter, em 1999. O projeto de arte-jogo comemoria 15 anos da escola Teca-Oficina de Música, da autora, no Museu de Arte Moderna, mas foi adiado e tornou-se um aprendizado maisamplo, que teve por perto o rigor, a capacidade criativa e a disponibilidade de Koellreutter - na ocasião com 84 anos. O projeto foi apresentado no Museu da Imagem e do Som e foi filmado pela produtora Documenta - Vídeo Brasil. Esse vídeoacompanha Koellreutter Educador."Os pais e educadores desconhecem ainda o inestimável valor educacional e socializante das disciplinas musicais, como a música de conjunto e o canto orfeônico. A mocidade brasileiraainda não aprendeu a fazer música, música verdadeira, cantando e tocando espontaneamente, sem pretensão alguma ou ambição qualquer", escreveu Koellreutter, na década de 50. É esse tipo de aspecto da obra e pensamento de Koellreutter que o livro de Teca apropria-se. Uma grande contribuição, seja ou não para apedagogia.

Agencia Estado,

06 de outubro de 2001 | 14h37

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