L. Gevaerd/Estadão
L. Gevaerd/Estadão

Obra de Elis Regina ganha tratamento digital com novos projetos

Especial da HBO, disco de 1972 e vídeo remasterizado recolocam Elis em cena com tecnologia e emoção

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

A pergunta de mil vezes: e se Elis Regina estivesse viva, como estaria? Atuante nas redes sociais com a mesma assertividade ferina das conversas de bar dos anos 1970? Vasculhadora de compositores jovens com a mesma impetuosidade sobre cada fita cassete que guardava em sacos de plástico azuis? À frente de manifestações como a que liderou em 1967 contra as estridências gratuitas da guitarra elétrica? Sem freio com os verbos que a colocaram na lista dos milicos? Gravando discos produzidos por jovens modernos? Cantando com Ivete Sangalo?

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Ninguém, nem mesmo seus filhos, poderia dar chutes seguros até porque Elis Regina adorava praticar mudanças de opinião para desconcertar previsões. Há algo do qual se pode, contudo, aproximar. Como Elis estaria soando quase 40 anos depois de sua morte prematura, aos 36 anos? Mesmo sendo resultado de estúdios analógicos dos anos 1970 e início dos 1980, para muitos, o ponto alto de uma evolução que entraria em curva decrescente nos próximos anos, há muita gente se esforçando para passar pelos filtros do tempo a voz da maior cantora do País.

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O álbum Elis, de 1972, o primeiro sob administração do marido e arranjador Cesar Camargo Mariano, é considerado o melhor de sua discografia. A sequência de canções é das mais matadoras do pós-Chega de Saudade, incluindo 20 Anos Blue (Vitor Martins e Sueli Costa), Bala com Bala (Aldir Blanc e João Bosco), Nada Será como Antes (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos), Mucuripe (Belchior e Fagner), Águas de Março (Jobim), Atrás da Porta (Chico Buarque e Francis Hime) e Cais (Milton Nascimento). A pedido do filho João Marcello Bôscoli, o álbum foi remixado e remasterizado no estúdio de Carlos Freitas, um dos papas nos processos de recondicionamento sonoro de grandes discos. A previsão é de que saia Elis 1972 com as linhas do baixo de Luizão Maia mais nítidas que nunca até o final deste ano, perto do Natal. “É um disco espetacular. Nossa demora em fazê-lo (a remixagem foi iniciada há três anos) é por causa das liberações que precisamos pedir para os músicos envolvidos. Assim que tivermos tudo, é sentar e fechar o projeto”, diz Paulo Lima, presidente da Universal Music.

A Elis dos palcos voltará em outro projeto. Elis Pelo Mundo, nome ainda não definitivo, será uma série de três capítulos com exibição ainda sem data de estreia no canal HBO. Serão imagens raras da cantora em apresentações pela Europa, América Latina e Brasil. 

O filho João Marcello Bôscoli vai fazer algumas narrações. Ele conta como o projeto chegou: “Marcelo Braga, dono da Santa Rita Filmes, havia acabado de filmar um especial do Milton Nascimento para a HBO. Vi o primeiro capítulo e fiquei muito emocionado. Ambos nos olhamos em silêncio e ela (Elis) falou por nós. Ele perguntou o que me passava pela cabeça. Respondi: ‘Elis no mundo’. Quero o planeta sabendo dela, descobrindo um dos últimos tesouros musicais escondidos. O meio já a conhece, agora novos públicos a conhecerão”, diz João. 

A direção será de Lea Van Steen. Marcelo Braga, o produtor, diz o seguinte: “O objetivo é mergulhar mesmo na vida de uma das maiores cantoras deste país. Ela agora está entrando nos meios digitais, e precisamos mostrá-la a pessoas que ainda não a conhecem.” 

Fazer Elis chegar a novas audiências parece ser uma preocupação por trás de estratégias e projetos que a envolvam. Seu nome não seria o suficiente para garantir a imortalidade? João Marcello: “Elis tem uma mágica inexplicável. Quase todo mundo esquece quase tudo no nosso país. Com ela parece ser diferente, ninguém esquece Elis. Contudo, toda iniciativa (filmes, livros, musicais, exposições) alimenta, apresenta, enfim, leva seu nome ainda mais.” Pedro Mariano, outro filho de Elis, diz mais. “Não basta só o nome, é preciso abanar a brasa sempre. Eu percebi essa necessidade aumentando”, diz ele, sobre a manutenção do nome da mãe via criação de novos conteúdos. “As pessoas não vão mais atrás da informação, elas a esperam. Só mostrar uma foto não é mais suficiente.”

À frente do tempo. Quando surgiu então o convite de um banco para o uso do vídeo de Como Nossos Pais, música de Belchior que Elis lançou no espetáculo e no disco Falso Brilhante, de 1976, Pedro conta que pesou a ideia das novas plateias. A investida da empresa de aura internética que tinha como slogan a ideia do “à frente do seu tempo” para atingir um público sobretudo jovem poderia dar carona a Elis, a cantora “à frente do seu tempo”, em uma de suas mais assombrosas atuações na TV. “Achei curioso o fato de terem essa proposta e se lembrarem justamente de Elis”, diz Pedro. Com o sim em mãos, a jovem equipe de produtores da The Kumite, contratados pelo banco, exumou Como Nossos Pais para lhe dar nova vida. O trabalho artesanal de abrir os frames (fotos de um vídeo) um a um é dos mais intensos. São cerca de 2 mil frames de Elis retrabalhados para se corrigir imperfeições, clareando brancos, escurecendo pretos e dando vida nova a tudo. “Trabalhamos ali entre 200 e 230 horas para ficar pronto”, diz o produtor Carlos Todero. Cris Junqueira, cofundadora de Nubank, diz por que ter escolhido uma garota-propaganda morta há 36 anos: “A interpretação de Elis Regina no Fantástico é icônica e sua força mostra que os questionamentos levantados pela letra de Belchior são relevantes ainda hoje, mais de 42 anos depois do lançamento de Como Nossos Pais. Não importa quanto tempo passe, o conceito da letra se mantém novo e contestador”.

A reinserção de Elis pela tecnologia já estava no foco de Pedro Mariano desde o fim de 2017. A convite do irmão Bôscoli, que estava com as pistas de todo o disco de 1972 abertas, Pedro decidiu colocar voz em Casa no Campo, de Tavito e Zé Rodrix, na própria gravação original, sem mexer na voz da mãe. Assim, Elis canta com o filho Pedro, que tinha seis anos na manhã de janeiro de 1982, quando a mãe foi encontrada morta no apartamento em que moravam juntos nos Jardins, em São Paulo. “O que me convenceu foi o fato de João me dizer que essa música era um desejo de Elis, de ter sua casa no campo. Assim, pude visitar a casa no campo de minha mãe.” A gravação, depois de tocar em algumas emissoras de rádio, fez parte também da temporada de shows com orquestra que Pedro apresentou em São Paulo, com imagens da mãe ao fundo.

Homenagens. As ressuscitações tecnológicas são controversas no meio artístico. O próprio cantor Pedro Mariano faz ressalvas. “Elas sempre me remeteram às homenagens. O uso contínuo parece cansar, não ter durabilidade”, ele diz, referindo-se a experiências mais radicais. A era dos encontros extraterrenos foi inaugurada em 1991, quando Natalie Cole conseguiu cantar e atuar em um vídeo ao lado do pai, o gigante Nat King Cole, interpretando Unforgettable. Natalie morreu em 2015 de hepatite C, exatos 50 anos depois da despedida do pai. 

No Brasil, os hologramas entraram em cena mais de uma vez. Cazuza “apareceu” no Parque da Juventude, em São Paulo, em 2013, no mesmo dia em que morreu seu pai, o produtor João Araújo. Era o projeto GVT Music Live, e sua imagem cantava Exagerado à frente de um fundo preto, de camisa sobre regata branca, óculos escuros, calça jeans e faixa na cabeça.

Em junho do mesmo 2013, foi a vez de Renato Russo dar as caras. Estavam todos em pleno Estádio Mané Garrincha, em Brasília, com 14 convidados interpretando músicas da banda Legião Urbana e uma grande orquestra nos arranjos. Renato apareceu apenas no final para Há Tempos, mas houve problemas técnicos, como a sincronia da música executada pelo grupo com a parte em que Russo cantava, e o show sucumbiu nos tribunais das redes sociais. À revelia do próprio artista que não pode dar opiniões por hologramas, é sempre uma angústia mexer em sua obra. Elis Regina, pela responsabilidade que o próprio nome impôs, está segura.

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