Tom Jamieson/ The New York Times
Tom Jamieson/ The New York Times

O vinil? É caro. E o som? Transcendental

A Electric Recording Co., que vem lançando discos desde 2012, é especializada em meticulosas recriações de álbuns de música clássica e de jazz das décadas de 1950 e 1960

Ben Sisario, The New York Times

30 de abril de 2020 | 09h08

LONDRES - Instalada num moderno complexo de coworking no oeste de Londres, depois da praça de alimentação, ao lado da startup de processamento de pagamentos, ali se encontra aquela que talvez seja a gravadora mais tecnologicamente atrasada do mundo.

A Electric Recording Co., que vem lançando discos desde 2012, é especializada em meticulosas recriações de álbuns de música clássica e de jazz das décadas de 1950 e 1960. Seu catálogo conta com reedições de discos de Wilhelm Furtwängler, John Coltrane e Thelonious Monk, além de artistas menos conhecidos, os prediletos dos colecionadores, como a violinista Johanna Martzy.

Mas o que realmente diferencia a Electric Recording é o seu método: uma filosofia de produção mais semelhante à fabricação de chocolate gourmet do que à dos vinis embalados a vácuo.

Seus álbuns, feitos à mão e lançados em edições de menos de 300 unidades – a um preço de US $ 400 a US $ 600 cada – são fabricados com equipamentos antigos restaurados, como amplificadores valvulados e sistemas de fita mono que não são usados há mais de meio século. O objetivo é garantir uma restauração fiel àquilo que o fundador da gravadora, Pete Hutchison, vê como a era de ouro da gravação de discos. Até seus encartes, impressos um a um em prensas tipográficas, demonstram uma devoção fanática ao ofício.

“Tudo começou como o desejo de recriar o original, mas não fazer um tipo de pastiche”, disse Hutchison numa entrevista recente. “E, para não cair no pastiche, tivemos de fazer tudo como eles faziam”.

A atenção da Electric Recording aos detalhes e o delicado estilo de Hutchison na masterização fizeram com que a gravadora se tornasse objeto de reverência entre os colecionadores – mas também suscitaram uma leve ridicularização entre os selos rivais, que consideram sua abordagem desnecessariamente cara e preciosista.

Hutchison, 53 anos, cujas feições afiadas e a barba de um palmo de comprimento o fazem parecer um bruxo rebelde de O Senhor dos Anéis, descartou críticas, dizendo que eram exemplos do tribalismo mesquinho do mundo audiófilo. Até mesmo a palavra “audiófilo”, disse ele, muitas vezes é mais uma jogada de marketing vazia do que um sinal confiável de qualidade.

“Os audiófilos ouvem com os ouvidos, não com o coração”, disse Hutchison. “Não é a nossa praia, de jeito nenhum.”

Mas, então, qual é a sua praia?

“Nossa praia é tentar fazer algo que não seja genérico, digamos assim”, definiu ele. “O que estamos fazendo com esses álbuns antigos é essencialmente pegar a tecnologia da época e refazê-la como era feita, em vez de abrir mão da qualidade.”

Em grande medida, o ressurgimento do vinil na última década foi alimentado por reedições. Mas nenhum selo de reedições foi tão longe quanto a Electric Recording.

Em 2009, Hutchison comprou as duas grandes máquinas metálicas que ele usa para masterizar os discos – um rolo de fita Lyrec, com amplificadores Ortofon, ambos de 1965 – e gastou mais de US $ 150.000 restaurando-os ao longo de três anos. Ele investiu outros tantos milhares de dólares em melhorias, como a substituição de sua fiação de cobre por uma prata, o que Hutchison disse que confere ao sinal de áudio um maior grau de pureza.

Esses equipamentos possibilitam que Hutchison exclua qualquer vestígio de tecnologia que tenha entrado no processo de gravação desde uma época em que os Beatles ainda tinham cabelos tigelinha. Isso significa não apenas algo digital ou computadorizado, mas também transistores, um dos pilares dos circuitos de áudio por décadas. Em vez disso, os amplificadores das máquinas são alimentados por tubos de vácuo (ou válvulas, como os engenheiros britânicos os chamam).

“Nosso negócio aqui é válvula”, disse Hutchison no tour guiado pelo estúdio da gravadora.

Masterizar um disco de vinil quer dizer “cortar” ranhuras num disco de laca, uma arte misteriosa na qual pequenos ajustes podem ter um grande efeito. Hutchison costuma masterizar seus discos em volumes baixos (às vezes até mais baixos que os originais), para destacar ainda mais a sensação natural dos instrumentos.

Ele demonstrou sua técnica durante uma recente sessão de masterização para Mal/2, álbum de 1957 do pianista de jazz Mal Waldron que traz uma participação de Coltrane. Ele testou vários níveis de masterização para a faixa One by One – que tem muitas notas de trompete staccato, tocadas por Idrees Sulieman – antes de escolher o volume que melhor preservasse a vibração da fita original, mas evitasse o que Hutchison chamou de “buzinas” quando os sopros chegam ao clímax.

“O que você quer ouvir é a clareza, as harmonias, as texturas”, disse ele. “O que você não quer é botar o disco e sentir que precisa baixar o volume.”

Essas decisões muitas vezes são subjetivas. Mas, para testar a abordagem de Hutchison, fui a Nova Jersey visitar a casa de Michael Fremer, colaborador da revista Stereophile e velho defensor do vinil. Ouvimos alguns lançamentos da Electric Recording e os comparamos com discos lançados por outras empresas no sistema de som de última geração de Fremer (só os alto-falantes custam US $ 100.000).

Muitas vezes fico cético diante das alegações de superioridade do vinil. Mas, ao ouvir um dos álbuns da Electric Recording, com as composições de Bach para violino solo tocadas por Martzy, fiquei impressionado com sua clareza e beleza. Comparada às outras prensagens, a versão da Electric Recording tinha detalhes vívidos e viscerais, produzia uma convincente ilusão de que havia um ser humano tocando violino na minha frente.

“O que eles estão fazendo, recriando esses discos antigos, é uma coisa mágica”, disse Fremer enquanto colocava para tocar mais alguns álbuns da Electric Recording.

É no mínimo inusitado que Hutchison agora esteja carregando a bandeira pela fidelidade da música clássica. Nos anos 1990, ele era uma estrela da cena techno britânica com seu selo Peacefrog. O sucesso da gravadora no início dos anos 2000 com o folk minimalista de José González ajudou a financiar a obsessão da Electric Recording.

A conversão de Hutchison aconteceu depois que ele herdou álbuns de música clássica de seu pai, que morreu em 1998. Colecionador de longa data de rock e jazz, Hutchison ficou encantado com o som dos originais de décadas passadas e percebeu que as reedições mais recentes deixavam a desejar. Ele descobriu que a EMI, distribuidora da Peacefrog, detinha os direitos de muitos de seus novos favoritos. Seria possível recriar as coisas exatamente do jeito que tinham sido feitas na primeira vez?

Depois de restaurar os equipamentos, a Electric Recording colocou seus três primeiros álbuns à venda no final de 2012 – os solos de Martzy tocando Bach, originalmente lançados em meados da década de 1950.

Hutchison decidiu que a verdadeira fidelidade deveria se aplicar tanto à gravação quanto às capas. A impressão tipográfica aumentou seus custos de fabricação, e alguns dos projetos do selo talvez tenham ultrapassado os limites do absurdo.

Por exemplo: ao recriar ‘Mozart à Paris’, uma réplica quase perfeita de uma caixa de luxo de 1956, Hutchison passou meses vasculhando os armarinhos de Londres para encontrar a fita de seda certa para o laço decorativo. O conjunto de sete discos é o título mais caro da Electric Recording – cerca de US $ 3.400 – e um dos poucos em seu catálogo que ainda não esgotou.

Hutchison defende tais esforços como parte da devoção do selo à autenticidade. Mas tudo tem seu preço. Seus métodos de fabricação e a atenção ao controle de qualidade de cada disco não proporcionam economias de escala. Então, a Electric Recording não conseguiria reduzir as despesas nem mesmo se fizesse lotes maiores, anulando assim a pergunta que mais fazem a Hutchison: por que não prensar mais discos e vendê-los mais baratos?

“Provavelmente fazemos os discos mais caros do mundo”, disse Hutchison, “e temos o menor lucro do mundo”.

Os preços da Electric Recording fizeram os produtores de vinis sofisticados coçar a cabeça. Chad Kassem, cuja Acoustic Sounds, em Salina, Kansas, é um dos maiores impérios de vinil do mundo, disse que admirava o trabalho de Hutchison.

“Tiro o chapéu para qualquer empresa que se esforce para fazer as coisas da melhor maneira possível”, disse Kassem.

Mas ele também disse que se orgulha do trabalho da Acoustic Sounds, que, assim como a Electric Recording, cria masterizações a partir de fitas originais e faz de tudo para capturar detalhes do design original – mas vende a maioria de seus discos por cerca de US $ 35. Perguntei a Kassem qual era a diferença entre uma reedição de US $ 35 e uma de US $ 500.

Ele parou por um momento e disse: “Quatrocentos e sessenta e cinco dólares”.

No entanto, o mercado abraçou a Electric Recording. Mesmo em meio à pandemia de coronavírus, disse Hutchison, seus discos estão vendendo mais rápido do que nunca, embora a empresa venha enfrentando alguns problemas de produção. A única fabricante do tecido que Hutchison escolheu para uma caixa com álbuns de Mozart tocados pela pianista Lili Kraus, está sob lockdown na Itália.

A próxima fronteira da Electric Recording é o rock. Hutchison recentemente obteve permissão para relançar ‘Forever Changes’, o clássico álbum psicodélico de 1967 da banda californiana Love, e disse que a fita original tinha um som mais sujo do que muitos fãs imaginam. Ele planeja seu lançamento para julho. E ‘Mal/2’ será lançado em agosto.

Mas Hutchison parecia mais orgulhoso do trabalho da gravadora com discos de música clássica que parecem vir de uma época distante. Ele pegou um compacto de 10 polegadas da pianista francesa Yvonne Lefébure tocando Bach, lançado originalmente em 1955. A Electric Recording recriou cuidadosamente o selo, o encarte e a capa gravada em folha de ouro.

“É um belo artefato”, disse Hutchison, olhando-o com carinho. “E um ótimo disco também”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

 

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