Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

O último romântico

Às vésperas dos 60 anos, Fabio Jr reafirma sua condição de galã das massas sem crise existencial

Julio Maria,

22 de dezembro de 2012 | 07h00

O jornal Folha da Tarde do dia 29 de abril de 1987 saiu com uma notícia reconfortante para os 53 fãs-clubes oficiais que temiam pela vida do homem ao qual juraram amor incondicional. "Fabio Jr não morreu." A história que corria por Rio e São Paulo dizia que seu coração havia pifado em um quarto de hotel, durante a passagem de uma turnê por Araçatuba, no interior de São Paulo.

Fabio Correa Ayrosa Galvão, 33 anos, filho de um taxista e de uma professora de piano, seria enterrado com honras de mito por mulheres que ouviam Desejos e Delírios uma média de 3 mil vezes por dia em rádios AM e FM do Brasil. O galã que a gravadora CBS preparava para ser uma espécie de "Roberto Carlos dos anos 80", que caíra nas graças da Globo com um potencial de sedução de massas que não se via havia décadas, saía de cena cedo demais. Mas Fabio Jr não morreu, como disse o jornal. E, ainda convalescente, acabou com a brincadeira ao atender o telefonema de um jornalista para dizer que estava vivinho da silva, que só havia sofrido uma inflamação da membrana que envolve o coração sem maiores riscos. Estava sereno, bem-humorado e já se comportava como um homem acostumado a ser enterrado vivo.

O primeiro jab de direita veio aos 12 anos, quando trabalhava como uma das atrações do Mini Guarda, na TV Bandeirantes, apresentado por Ed Carlos na mesma época em que Roberto e Erasmo lideravam o Programa Jovem Guarda, na Record. Ao dizer que queria mesmo era cantar em vez de ser ator mirim, ouviu de um diretor: "Esquece que pra isso você não leva jeito não, menino". A frase nunca mais lhe saiu da cabeça. "E, então, pensei: ‘Vou mostrar pra esse filho da p... que eu posso’", lembra hoje. O segundo cruzado o desnortearia mais. Quando as coisas começaram a dar certo, pelo início de 1982, seu pai foi encontrado morto a tiros no táxi que dirigia. Seu Antonio Luis era sua maior adoração. Na cozinha, de madrugada, ouvia por horas o velho falar da importância de se ver a beleza na alma das pessoas. A música Pai, que já havia sido escrita e mostrada ao próprio, tinha a força de sua angústia triplicada para se tornar arrebatadora e com um alto poder de devastação interior que Fabio Jr jamais conseguiu controlar. Ao fechar os olhos para cantá-la, ele via Seu Antonio e desabava. "Parei de cantar Pai. Pode ver que ela não está no DVD", diz, sentado no sofá branco de sua casa, em Alphaville.

Aos 59 anos, Fabio fala de um projeto novo, o lançamento do DVD chamado Íntimo, em que ele repaginou seus hits em formatos leves e acústicos. Alma Gêmea, Caça e Caçador, Senta Aqui, O Que É Que Há estão todos lá. Canta com o filho Fiuk Vinte e Poucos Anos e com a filha Tainá Não Posso Reclamar de Nada. Mas é um raro momento em que deixa de lado a canção que se tornou seu primeiro sucesso. "A sensação que tenho é... (faz uma longa pausa). É a de que tenho que deixar ele quieto um pouco. Não sei. Um dia eu falei: 'caramba, tá puxado. Vou experimentar, vou tirar a música do show'. Deu um branco no primeiro momento, mas foi bom. Um dia eu retomo."

Fabio Jr é um fenômeno que aconteceu ninguém sabe bem como. Nem ele. Assim que percebeu levar jeito para o negócio, se lançou cantando em inglês, uma moda por aqueles anos em que Maurício Alberto se chamava Morris Albert. Num dia Fabio era Uncle Jack, no outro era Mark Davis. Cantava e compunha baladas como um James Taylor sem saber falar duas palavras em inglês. Um mestre do embromation. "Eu fazia as letras olhando o dicionário, às vezes elas nem batiam. Botava um together, juntava com um forever e emendava um whenever e dava tudo certo", disse em entrevista a Marília Gabriela, em 1994. Quando o show terminava, as fãs corriam em busca de um beijo do 'ídolo norte-americano'. Era quando o alarme soava. Alguém sempre engatava um "Hello Mark, your performance was great" e ele, sem entender nada, fazia olhar de galã, dizia dois ou três "bye" e desaparecia.

Ainda assim, seus trabalhos por essa época soam hoje como relíquias setentistas e viram peças de colecionadores. Marcelo Fróes, jornalista que trabalhou na caixa Mais de 20 e Poucos Anos, de 2003, defende Mark Davis com unhas e dentes. "É uma coisa muito séria, excelentemente produzido em oito canais em São Paulo. Tive a chance de ouvir os canais abertos da canção Don't Let Me Cry numa mesa de som e a base é muito bem gravada. Nível internacional, canção perfeita." A Polygram viu em Fabio uma mina a ser explorada, mas em versão brasileira. Para isso, escalou o nome que tinha de mais certeiro entre os letristas da época. "Paulo Coelho era meu funcionário para marketing artístico e eu o envolvi nesse projeto. Queríamos lançar o Fabio como um novo cantor romântico", conta Roberto Menescal, então diretor artístico da Polygram. Mas antes, um novo nome para aquele Mark Davis se fazia necessário. Fabio queria ser Fabio Galvão, mas já havia o ator Flávio Galvão e ninguém quis correr riscos. Vários nomes foram escritos em um papel e Fabio apontou um deles. Junior. Fabio Junior.

O disco com letras de Paulo Coelho saiu em 1976 e, mais uma vez, nada aconteceu. "A Rita Lee tinha parceria com ele, o Raul Seixas. Mas comigo não rolou. Não sei o que houve." O LP também se tornaria produto de coleção. Aos incrédulos com a constatação de que tal obra é uma preciosidade, vale tirar uma conferida no YouTube. A música Bicho de Sete Cabeças é um soul funkeado arrebatador que Fabio poderia recuperar. Mas, na época, Tim Maia e Roberto Carlos já davam bem esse recado. "Só me lembro que ele compunha e interpretava umas canções em inglês, tudo muito simples e de um certo sucesso comercial", diz hoje Andre Midani, papa da indústria fonográfica no País que não viu em Fabio Jr, na época, um modelo ameaçador.

Quando foi para a Globo, em 1976, Fabio se injuriou rápido dos programas para os quais era escalado e resolveu dar um salto de fé e alguns pulos de raiva. Pegou os LPs que havia lançado até então e entrou na sala do diretor Mario Lucio Vaz sem bater na porta. "Eu preciso cantar, eu preciso cantar! Olha o que eu já fiz!" Mario Lucio o achou atrevido, mas passou a mão no telefone e ligou para a Som Livre meio que para se livrar do encosto. "Oi Guto, atende esse moleque aqui, vai." Fabio foi falar com Guto Graça Mello e, ali, Mark Davis, ou seja lá o que ele fosse até então, começou a virar Fabio Jr ao mesmo tempo em que sua laranja passou a encontrar metades que não acabavam mais. Gloria Pires, Guilhermina Guinle, Patricia de Sabrit, Mari Alexandre... Seus romances alimentaram um personagem que ficou maior do que a música? "Que dia é hoje", devolve Fabio ao repórter. "Segunda-feira." "Posso te responder na quinta?"

Fabio não é de reflexões sobre o meio artístico. Fala pouco, faz pausas, e passa a nítida impressão de que não está nem aí para o que pensam de seu repertório. "Sou um cantor romântico, como meu pai dizia. E não tenho um pingo de problema com isso." É o último romântico da música brasileira, uma espécie em extinção que só era possível ser produzida quando havia indústria fonográfica.

Tudo o que sabemos sobre:
Fabio Jr

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.