EMI Music/Divulgação
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O último baile punk

James Murphy toca em São Paulo rumo ao derradeiro show do LCD Soundsystem

Roberto Nascimento, de O Estado de S. Paulo,

19 de fevereiro de 2011 | 14h15

Eram dois soundsystems na boate Pachá, sexta-feira à noite. O primeiro distribuia o som de maneira lastimável pelo galpão de médio porte, cujo acesso custava em média R$180, mas parecia destinado a fãs de bandas iniciantes, tamanho o desleixo com mixagem, potência e definição. O segundo, o LCD Soundsystem, fazia um show inesquecível sob o comando de James Murphy, o pai do disco punk moderno que desmanchará a banda em abril para tocar outros projetos. Os poucos alto-falantes formavam uma membrana sonora que separava palco e público, como se a plateia estivesse presa entre os graves e agudos de um pedal wah wah, e fosse obrigada a discernir entre som e qualidade musical para se divertir. Descaso completo com o último show em São Paulo de uma das bandas mais influentes da atualidade.

 

No palco, Murphy e seus comparsas davam sangue. Começaram com Dance Yourself Clean, faixa do último disco This is Happening, que caminha mansinho por três minutos, à marcação de um batuque simplório, antes de entrar rasgando com uma faca só lâmina de timbres sintéticos auxiliados pela bateria de Pat Mahoney. Este era um heroi em campo: partia de sua pulsação todo o ímpeto funkeado, aqui em versão orgânica, do LCD Soundsystem. A seguir, Drunk Girls, um bubblegum single sobre bebedeiras irresponsáveis deu inicio a uma sequência de hits que marcaram o rock da última década: Daft Punk is Playing at My House, Tribulations, All My Friends, Yeah. Movement, puro banho de distorção a la MC5, deu o peso.

 

À frente da banda, a entrega de Murphy é admirável. Se o palco de garagem que o recebeu serviu para alguma coisa, foi para mostrar que, mesmo depois do sucesso, a intensidade de seu compromisso com a música permanece intacta. Ele é simpático e hiper ativo: agradeceu o carinho da cidade que o recebeu pela terceira vez, tocou sintetizadores, conversou com o engenheiro de som, solou nos timbales, a la Tito Puente. Quando o bicho pegou, Murphy extravasou com angústia afiada, como se estivesse em terapia, exorcizando seus demônios: um furor contaminou toda a banda, conhecida por suas apresentações contundentes. David Scott Stone empunhava sua guitarra como se fosse -e em breve será-  a última vez. Atrás de uma escrivaninha com cabos e um sintetizador modular, a acanhada tecladista Nancy Whang deixava o santo baixar e dava cor aos backing vocals.

 

A pulsação disco, punk e house do LCD, uma atualização do punk dançante de Nova York, no início dos anos 80, seguiu firme até o fim. Só foi quebrada, em um toque de mestre, pelo melancólico bis New York I Love You But You're Bringing Me Down, um blues quase Broadway sobre a cidade, que fechou o set com uma pontada de tristeza naqueles que acompanharam a trajetória do homem que fez a molecada dançar em vez de balançar as cabeleiras.

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