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O triunfo e a queda do ídolo Simonal

Documentário mostra cantor no auge da popularidade e no ostracismo, após acusação de ser informante

Lauro Lisboa Garcia, de O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 01h06

Pouco antes de morrer, aos 62 anos, doente, magoado e esquecido, Wilson Simonal (1938- 2000) dizia que ainda sonhava com o reconhecimento em vida por suas qualidades artísticas, mas já era tarde demais. O que ficou mais forte na memória do público que não o viu cantar foi a controvertida imagem de delator. O documentário Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, que estreia na sexta-feira, 15, traz à tona o debate sobre essa questão nebulosa, acirrada pelos radicalismos nos tempos da ditadura militar. O filme também revela para as novas gerações o astro pop que dominava as massas. Com doses intensas de alegria e tristeza, conta a saga do papa do suingue, um dos maiores cantores brasileiros de sempre.

 

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som Ouça trecho de Nem Vem Que Não Tem, de Wilson Simonal

videoAssista ao trailer de "Simonal - Ninguém Sabe o Duro que Dei"

 

Na sequência, serão relançados seus principais discos, gravados na Odeon de 1961 a 1971, além de uma coletânea em CD duplo da Som Livre. A caixa da EMI traz como novidade um álbum inédito no Brasil, gravado no México em 1970, ano em que acompanhou a vitoriosa Seleção Brasileira de Futebol. Além disso, saem em breve dois livros sobre ele: uma biografia escrita pelo jornalista Ricardo Alexandre e Quem Não Tem Swing Morre Com a Boca Cheia de Formiga, de Gustavo Alonso.

 

O "rei do patropi" tinha um jeito brincalhão de picotar as palavras, pronunciando só as primeiras sílabas, como o fez em um de seus maiores êxitos, País Tropical (Jorge Ben). Mas foi Nem Vem Que Não Tem que motivou Langer e Calvito, sócios de uma produtora, a pesquisar sobre o cantor. "Quando estávamos empolgados porque descobrimos uma história maravilhosa para um filme, soubemos que Claudio Manoel, já tinha começado a fazer um projeto desse dois anos antes", diz Langer. "Na hora foi um balde de água fria, mas resolvemos ligar para ele e daí nasceu essa parceria."

 

Exibido pela primeira vez em 2008 no festival É Tudo Verdade, o filme tem como um dos principais trunfos a entrevista com o contador Raphael Viviani. Ele foi o pivô do episódio que marcou a queda vertiginosa de Simonal, um ídolo que no auge do sucesso concorria em popularidade com Roberto Carlos.

 

Acusado pelo cantor de tê-lo desfalcado, Viviani foi demitido e moveu uma ação trabalhista contra Simonal. O troco veio em forma de tortura, praticada, entre outros, por um segurança do cantor (como ele mesmo revelou) ligado ao Dops (Departamento de Ordem Política e Social). Processado por mais esse episódio, Simonal levou como testemunha aquele mesmo policial, Mário Borges, que o apontou como colaborador do Dops. Depois disso, o ídolo desmoronou. No filme, José Bonifácio Sobrinho, o "Boni", da TV Globo, lembra que ele "nunca foi julgado e vaiado pelo público, mas pela própria classe dele e pelos veículos de comunicação".

 

Amigos como Toni Tornado, Chico Anysio e Mièle ressaltam mais as qualidades vocais, artísticas, a versatilidade e o imenso carisma do autor de Tributo a Martin Luther King, um hino sério do orgulho negro, bem diferente do estilo da pilantragem que o popularizou. Uma das passagens mais divertidas é quando Anysio conta como Simonal caiu na conversa do técnico Zagallo e acreditou que poderia ser o ponta direita da Seleção na Copa do México.

 

Da parte da imprensa, os cartunistas Jaguar e Ziraldo, do O Pasquim, e o jornalista Arthur da Távola, analisam e reconhecem os erros do julgamento precipitado. Porém, como diz Ziraldo, naqueles anos de chumbo, ninguém reagia "com isenção de ânimo". Ou se era contra ou a favor da ditadura, não havia meio-termo. Simonal foi mais um a agir impulsivamente. Pagou muito caro por isso. Nem a direita nem a esquerda tomaram partido dele.

 

"Em nenhum momento a gente se prestou a dizer se ele foi ou não foi (dedo-duro). Preferimos pisar no freio a pisar no acelerador", diz Langer. Hoje o assunto é menos tabu, mas até durante a realização do filme ele ouviu sugestões para que não tocasse nesse vespeiro. Os diretores esperam que o filme ajude a combater o estigma de "anti-Cristo", que se abateu sobre o cantor de clássicos como Sá Marina e Zazueira. E que seu legado musical prevaleça.

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