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O teste das divas

Zuza Homem de Mello separa as grandes das excepcionais e tenta 'desbanalizar' um velho termo

Roberto Muggiati, Especial para o 'Estado'

01 de setembro de 2012 | 07h00

José Eduardo Homem de Mello, Mestre Zuza, completa 80 anos em 2013. Uma vida rica de sons, em especial aqueles do jazz, que ele aprendeu a amar, ainda jovem, na São Paulo natal que crescia vertiginosamente aos sons do bebop e da bossa nova. Jornalista, crítico, musicólogo, produtor dos maiores festivais do País, agitador cultural, ele faz tudo isso com a autoridade de quem estudou contrabaixo com Ray Brown e frequentou as famosas escolas de Tanglewood (Massachusetts) e Juilliard (Nova York).

A partir de 4 de setembro (e nas três terças-feiras seguintes), Zuza volta ao pódio para dar um curso sobre divas na Casa do Saber. Amplamente ilustrado por vídeos, o ciclo focaliza a arte e a técnica de 22 cantoras de jazz, de Ella a Billie, de Sarah a Dinah, de Doris Day a Peggy Lee. Ao Estado, ele fala sobre o conceito de diva que será tema de suas aulas.

Quais foram os critérios de suas escolhas?

Elencar entre as cantoras americanas de jazz ou do American Song Book aquelas cujo percurso de vida e trajetória artística lhes assegurassem a denominação de divas. Cantora de primeira categoria, musicalidade, autoconfiança adquirida com a idade, glamour, exuberância, personalidade e arrogância são alguns dos atributos que compõem o perfil da diva que provoca verdadeira adoração entre seus admiradores.

Das 22, quais você não ouviu ao vivo? Bessie Smith, apenas?

Além de Bessie Smith, que morreu em 1937, também não assisti a Ethel Waters, Jo Stafford, Doris Day e Frances Faye. Vi Billie Holiday duas vezes, num show no Central Park e no Carnegie Hall, ambas nos anos 50. Vi em cena todas as demais, como Chris Connor, Dinah Washington, Julie London, Rosie Clooney e Peggy Lee. Conheci pessoalmente Chris Connor, trabalhei como técnico de som de Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, frequentei a casa de Carmen McRae, fui amigo de Blossom Deary e tive o desprazer de trabalhar com Nina Simone.

Por que desprazer?

Nina era intratável. Cometia as maiores grosserias com os músicos e todos ao seu redor. Uma vez que eu a trouxe ao Brasil, quando era diretor artístico do Via Funchal, a proprietária da casa, Vera Maluf, quis presenteá-la com uma caixa de bombons. Assim que terminou o ensaio, saímos correndo para dar a caixa a ela. Quando apanhou o presente, disse rapidamente um “tá, tá, eu não vou perder tempo com isso”. Entrou no carro e partiu para o hotel. Foi uma péssima experiência.

E isso não a descredencia como diva?

De maneira nenhuma.

Acaba de sair no Brasil o livro sobre a gravação de Strange Fruit por Billie. Seria ela mais arte do que entretenimento, em relação às demais? 

Billie era a diva mais distante do entretenimento que se possa imaginar. Linda e elegante. Sua missão era entregar cada canção. Entrava no palco sem o mínimo artifício cênico, caminhava para o microfone, dava o recado deixando a gente com um nó na garganta pela emoção que brotava de sua voz, antítese do vozeirão. Sem firula, doava-se à canção desde suas entranhas. Para sempre.

Quais suas cinco favoritas?

Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Peggy Lee, Sarah Vaughan e Dinah Washington, nessa ordem. Contudo, a que me derruba literalmente é Peggy Lee, quem mais flutua sobre a canção. 

Brancas e negras: alguma diferença?

Brancas têm timbre de branco, negras têm timbre de negro. São diferentes. As negras tendem a valorizar o suingue e fatalmente injetam um componente soul. As brancas tendem a cantar “torch songs” e a se preocupar com a limpeza da interpretação. Brancas e negras podem ser criativas improvisadoras, como Anita O’Day, que conheci num estúdio de Los Angeles, e Betty Carter, que assisti num show do Apollo Theatre em dupla com Ray Charles. 

Da sua lista, só Doris Day continua viva, aos 88 anos. Por que deixou de lado cantoras mais jovens, como Diana Krall, Diane Schuur e Dianne Reeves, e até veteranas, como Helen Merrill ou Abbey Lincoln?

A cantora Doris Day foi estigmatizada como atriz de cinema, mas é uma diva maravilhosa, deixa um belíssimo e extenso repertório da nata da canção norte-americana e vive com seus cachorros no interior. A juventude não é uma das marcas das divas. Sim, haveria espaço para outras, mas como as aulas são ilustradas com vídeos, alguns incríveis, tive de descartar algumas das divas favoritas, como Mildred Bailey e Lee Wiley.

O que distingue uma crooner de uma jazz singer? Billie Holiday sempre cantou um repertório de standards convencionais, raramente fez scat e nunca encarou novelties, como Ella (Hello Dolly, Mack the Knife)...

A crooner é um membro da orquestra. Como um dos músicos, embora tenha mais espaço para solo. A jazz singer escolhe a canção, não se amolda à banda e exerce seu poder sobre os músicos que a acompanham, além de se dar a liberdade de improvisar, injetando sua personalidade. A diva pode se dar ao luxo de encarar um Oh Susanah e deixar você arrebatado sem saber onde é que ela descobriu o que você nunca conseguiu perceber.

E as brasileiras nesse pedaço: Astrud Gilberto, Ithamara Koorax, Luciana Souza, Eliane Elias?

Nenhuma das quatro é diva. Astrud sempre terá o sobrenome Gilberto colado na carreira, Ithamara é uma contorcionista. Luciana, que sabe cantar, se distancia cada vez mais do Brasil. Eliane Elias é uma boa pianista que tenta cantar. Em compensação, Dolly Parton é uma diva, Diana Ross é uma diva, Joni Mitchell é uma diva, Aretha Franklin é uma diva, Amy Winehouse deveria ser, se continuasse vivendo, Norah Jones vai continuar tentando à toa. No Brasil, há admiráveis cantoras como Teresa Cristina, Rita Ribeiro, Tulipa Ruiz, entre outras. Diva é mais que isso. Dalva, Maysa e Elis foram nossas divas. Alcione, Maria Bethânia e Nana Caymmi são as divas de hoje.

Gal Costa é diva?

Eu não a incluo entre as divas, Ao contrário de todas as divas da lista, ela não me parece ter a autoconfiança que as divas devem ter para entrar em cena. 

Gostaria de acrescentar algo?

Meu objetivo é ajudar as pessoas a aprender a ouvir música. Neste curso, restaurar o sentido verdadeiro à palavra diva na música em vista da sua banalização ao ser atribuída, a torto e a direito, à primeira que passar.

AS DIVAS. Curso sobre as cantoras de jazz. Início: terça, dia 4 de setembro, das 20h às 22h. Demais aulas: 11/09, 18/09, 25/09. Valor: R$ 260 na inscrição Casa do Saber: Rua Dr. Mário Ferraz, 414 - Jardim Paulistano

Zuza Homem de Mello

Musicólogo, jornalista, radialista e produtor. Há mais de 50 anos dedica-se ao garimpo e à divulgação da música popular e do jazz. É autor dos livros A Era dos Festivais, João Gilberto, Música nas veias e Eis Aqui os Bossa Nova. 

Elas, segunda Zuza

Anita O’Day

“No vendaval que foi toda a sua vida, Anita se tornou uma das mais impressionantes improvisadoras do jazz. Indomável e arrebatadora, simplesmente desmontava cada canção”

Frances Faye

“Desbocada, era gay assumida quando ninguém queria saber desse assunto. Contrastando com sua alegria contagiante, seu I Want to Stay Here (I Love You Porgy), em Porgy and Bess, é imbatível”

Julie London

“Sem contestação, Julie London trata-se do mais ardente símbolo sexual de todas as divas da canção. Sua obra gravada foi ofuscada por sua estupenda interpretação de Cry Me a River

Jo Sttaford

“A mais melancólica voz da canção norte-americana envolve cada uma de suas interpretações com uma romântica dose de profundidade, capaz de reviver o passado no presente”

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