WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

O Terno lança disco 'Melhor do que Parece', um pop disfarçadamente feliz

Terceiro álbum do trio não se prende à estética roqueira – e é o melhor da banda paulista

Pedro Antunes , O Estado de S. Paulo

26 Agosto 2016 | 05h00

Martim Bernardes, o Tim, vocalista e guitarrista d’O Terno, saca sabe-se lá de onde três vibrantes capas de chuva amarela. A garoa insistente daquela manhã de segunda-feira, 22, curiosamente não era a motivação para a indumentária à lá Axl Rose naquele desastroso show do Rock in Rio 2011. “Já usamos essas capas algumas vezes”, explica Tim. A apresentação no  Lollapalooza  2015 é uma dessas ocasiões. “Sempre trago essas capas quando precisamos nos vestir iguais”, ele completa. Gabriel Basile, baterista da banda desde 2015, conclui: “Assim, um de nós pode estar de sunga o outro de jardineira, que dá tudo certo.” Todos, inclusive o terceiro integrante d’O Terno Guilherme d’Almeida, o Peixe, riem. 

E gargalham sem culpa. Sem peso. O Terno, mais promissora banda paulistana a surgir nesta década, nasceu com origens roqueiras – e até mesmo a página do Wikipédia dos rapazes os classifica como “de rock”. No disco 66, de 2012, talvez a classificação até funcionaria para eles, que na época tinham Victor Chaves nas baquetas. O site oficial dos garotos que há pouco ultrapassaram a barreira dos 25 anos prefere outra descrição: “power-trio de canção-rocknroll-pop-experimental”. Talvez essa seja a forma mais curta de tentar se aproximar ao salto estético e musical dado pelo grupo ao longo desses quatro anos e três discos – depois de 66, nasceu O Terno (2014). 

Nesta sexta-feira, 25, é lançado o mais ousado e (também por isso) melhor álbum do trio. Melhor do que Parece, erguido através do patrocínio do edital Natural Musical, é um petardo pop daqueles. Soul solar e ora ardido, faixas dançantes e outras anuviadas, tudo num caldeirão “mais coração do que razão”, como eles explicam depois da sessão de fotos nas quais usavam as tais capas amarelas – nota da redação: todos estavam normalmente vestidos por baixo delas. 

“Acho que ficou estabelecido que no início de 2016 gravaríamos o terceiro disco”, relembra Tim, compositor do grupo, filho do grande Maurício Pereira, do Mulheres Negras. “O Tim foi nos mostrando as músicas em ensaios, mas era algo de brincar com as ideias. A produção do disco, mesmo, começou em setembro”, completa Gabriel. Naquele mês, os três integrantes encheram dois carros de tralhas e instrumentos e rumaram para Indaiatuba, ocupar um sítio de Gui de Jesus, produtor do disco e companheiro do selo Risco, também um coletivo musical integrado por outras bandsa da cena, como Charlie e Os Marretas, Mustache e os Apaches, Memórias De Um Caramujo, entre outras. 

Por sete dias, estruturaram as canções, experimentaram roupagens e arranjos. “Ficamos tocando cada uma delas de um jeito diferente, ouvimos muita música também e buscamos referências”, explica Gabriel. 

Nas caixas de som, quando não era o som do próprio Terno que saía, havia espaço para sons do início da Motown e Rascals. “Muito dessa coisa soul solar e pop. De hippies cantando num campo de flores”, brinca Tim. Mac DeMarco, atual queridinho da música indie “good vibes”, também entrou nas playlists. “Ele tem um som de férias, de praia e churrasco”, arrisca Peixe. Ouviram também discos de Caetano Veloso, Moraes Moreira e Jorge Ben Jor – dele, especialmente, o disco A Tábua de Esmeralda, clássico alucinógeno brasileiro de 1974. “As composições não são referenciais”, explica Tim. “Mas fomos buscando ideias para tipos de sons, timbres e coisas assim.” 

Daquelas sessões no interior, surgiram “16 ou 17 músicas favoritas”, explica o vocalista. A partir daí, o conceito do disco, a positividade filosófica das letras e as harmonias de um rock reduzido em altas doses de pop delirante, se estabeleceu para os três. “Ao ouvir o álbum com distância, percebemos que esse tema era recorrente”, relembra Tim. Gabriel completa: “A gente não quis ser rock ou contra isso. Deixamos as coisas fluírem, cada canção de uma forma. Há, em várias canções, influências de rock, outras reverberam outras coisas”. 

Melhor do que Parece é um passo  em direção à maturidade. Um reflexo da vida adulta nos integrantes, sejam como músicos e como indivíduos. “E talvez isso não tenha acontecido de forma consciente”, explica Tim. “Mas isso acontece até na vibração da banda, esse é um disco de virada de fase. São ciclos.” Tim gesticula e, criando círculos imaginários à sua frente, coloca O Terno, o segundo álbum deles, no extremo mais abaixo do desenho, enquanto Melhor do que Parece está no lado oposto, no alto. “É um caminho, sair daquela parte cinzenta e introspectiva (do álbum O Terno) para chegar no solar de novo. O ano de 2015 foi ótimo para a gente. Tocamos bastante, o Biel (apelido de Gabriel) entrou na banda”, ele justifica. 

Há, no disco, canções criadas por Tim “que  nunca achei que se encaixariam em um álbum d’O Terno”. Depois que a Dor Passar e Não Espero Mais, por exemplo, são dessa nova safra. “Ouvi Não Espero Mais e disse: ‘Vamos colocar essa música n’O Terno porque quero tocá-la”, conta Guilherme. Tim ri da lembrança. “São músicas que acho que agora O Terno tem maturidade para tocar”, ele diz, e completa: “E acho muito mais legais do que as antigas.” 

Ouça Melhor do que Parece: 

MAIS MELANCÓLICO DO QUE PARECE  - FAIXA A FAIXA: 

1 - ‘Culpa’ 

Falsetes de Tim Bernardes e companhia convidam o ouvinte para o mergulho por esse pop agridoce. Questiona-se a existência nos versos, enquanto os instrumentos dizem para suas pernas dançarem. 

2 - ‘Nó’ 

O trio deixa a caixinha do rock de lado de vez e envereda por um mundo no qual harpa e violinos dialogam como velhos amigos. 

3 - ‘Não Espero Mais’ 

Há algo de jovem-guardista na primeira canção definitivamente de amor no disco. “Acho que é a minha vez de ser feliz”, canta Tim.

4 - ‘Depois que a Dor Passar’ 

O baixo de Guilherme D’Almeida protagoniza a canção e retumba como o coração machucado protagonista desses versos chorosos criados por Tim. 

5 - ‘Lua Cheia’ 

Guitarra saída de ‘Let it Be’, disco dos Beatles no qual o quarteto voltava ao rock puro. Doses cavalares de psicodelia das estrelas. 

6 - ‘O Orgulho e o Perdão’ 

O órgão grita – e grita quase mais do que se esgoela Tim nessa faixa – só perde para um excelente sax barítono de Filipe Nader. Uma ardida canção de amor e arrependimentos. 

7 - ‘Volta’

Quando o amor é grande, aceita-se perdê-lo. “Vem, volta, estou te esperando desde que eu nasci”, verso responsável por abrir a balada é um os mais belos de ‘Melhor do que Parece.’ 

8 - ‘Minas Gerais’ 

Uma ode ao estado querido pelos três integrantes d’O Terno. É também uma lembrança de uma viagem que o trio fez para o Festival de Inverno de Diamantina. 

9 - ‘Deixa Fugir’

Não se deixe enganar pela levada criada por Gabriel Basile e pelos sopros. Trata-se de uma melancólica canção de adeus – das mais doloridas. 

10 - ‘Vamos Assumir’ 

Sozinho, o trio tem fôlego também. Sem ajuda, entregam uma balada direta e roqueira. 

11 - ‘A História Mais Velha do Mundo’ 

Qual seria a história título? ‘O que mais alguém pode querer além de amar e ser amado?’, questiona Tim no último verso dessa canção de ninar chorosa.

12 - ‘Melhor do que Parece’ 

Segundo single do álbum é também diretamente oposto ao primeiro, ‘Culpa’, que abre o disco. Posicionadas nos extremos do do disco, as faixas representam o arco percorrido pela banda. 

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Música Mauricio Pereira

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