O tempo de Francis

Aos 70 anos, artista lança disco duplo com inéditas e com as trilhas que fez para cinema

Lucas Nobile, de O Estado de S. Paulo,

20 de outubro de 2009 | 01h00

 

Há dez anos, quando Francis Hime chegou aos 60, começou a compor e a gravar aos montes, com a fixação de que seu tempo era cada vez mais curto. Hoje, aos 70 - completados em 31 de agosto -, o cantor, pianista e compositor valoriza, com calma, pequenos detalhes que antes lhe passavam batidos. Vivendo "o tempo da serenidade", como ele mesmo define, Francis comemora a idade com uma série de novos projetos.

 

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Em uma espécie de encontro entre épocas distintas, ele acaba de lançar o disco duplo Francis Hime - O Tempo das Palavras... Imagem. No primeiro CD, o momento presente do compositor, em 12 faixas inéditas feitas com diversos parceiros, como Geraldo Carneiro, Edu Lobo, Paulo César Pinheiro, Joyce, Paulinho Moska e sua mulher Olívia Hime. No segundo, em uma viagem ao passado, revirou seu baú de partituras para resgatar e gravar trilhas criadas por ele para filmes das décadas de 60 e 70, como Dona Flor e Seus Dois Maridos, A Noiva da Cidade, O Homem Que Comprou o Mundo e Um Homem Célebre. Com o detalhe precioso de ser a primeira vez na carreira que Francis registra suas músicas com arranjos para piano-solo.

 

 
 Reprodução
O disco, já apresentado no Rio, no Espaço Tom Jobim, chega aos palcos de São Paulo em novembro, com shows no Sesc. No mesmo mês, a obra de Francis será interpretada pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), que tocará o Concerto para Violão e Orquestra, composto por ele em homenagem a Raphael Rabello (1962-1995), seis meses antes da morte do violonista. Na apresentação, de 40 minutos, Fábio Zanon será o solista, e a mexicana Alondra de la Parra, a regente convidada.

 

As comemorações invadem o ano que vem, quando está previsto o lançamento de uma caixa com sua obra completa. Bela chance de lembrar que grandes sucessos de Chico Buarque, Vinicius e Ruy Guerra muito devem a Francis Hime.

 

Em sua casa, no Jardim Botânico, Francis Hime olha para o passado sem nostalgia. Em uma mistura de dois sentimentos, revela tristeza por não poder se encontrar mais com amigos que morreram, como Vinicius, e saudade por raramente rever companheiros de longa data, como Chico Buarque. Vivendo do presente, e justificando o apelido que o compositor, poeta e amigo Geraldo Carneiro lhe deu de "parceiro mais promíscuo da música brasileira", Francis ainda cultiva o hábito de enviar suas composições a letristas a fim de encontrar novos colegas de trabalho.

 

A diversidade de parceiros se comprova no disco recém-lançado. Com Geraldo Carneiro, o mais assíduo do álbum, dividindo a autoria de 6 das 12 faixas, Francis prova, aos 70 anos, ainda ter o mesmo fôlego criativo de antes, com destaque para Eterno Retorno e a belíssima marcha-rancho que dá título ao disco, O Tempo das Palavras. Além de Carneiro, ele assina dois sambas com Joyce, Adrenalina e Rádio Cabeça; Maré, com Olívia Hime, interpretada por Mônica Salmaso; O Sim Pelo Não, com Edu Lobo; Pra Baden e Vinicius, homenagem feita aos afro-sambas do poeta e do violonista, com Paulo César Pinheiro; e Há Controvérsias, com Paulinho Moska. "Eu gosto de compor com muitos parceiros. De certa forma, trabalhar com alguém novo provoca uma desestabilização, uma nova procura dentro de si mesmo. Eu não gostaria de ter um parceiro só, acho que é isso que me abre sempre novas ideias", diz Francis.

 

Ao contrário do que ocorreu nos discos anteriores, em que o ponto de partida para as composições eram as melodias e harmonias criadas por ele, desta vez, em O Tempo das Palavras, Francis preferiu criar em cima das ideias sugeridas pelos versos dos parceiros, aproveitando o ritmo e a métrica. Muito além da sonoridade das letras, o significado também serviu como inspiração. Ciente de que certas coisas têm seu momento exato para serem ditas, Francis revela a opção do álbum. "A palavra foi meu norte, o critério primeiro da criação. Eu acho que a palavra se transforma. Ela tem seu tempo e cabe ao artista descobri-lo e indicá-lo."

 

Francis, aliás, quando jovem, teve seu tempo e seu caminho apontados por aquele que se tornou seu primeiro parceiro, Vinicius de Moraes, em 1963. Foi o poeta que, acostumado a engatar parcerias com rapazes bem mais jovens do que ele, vaticinou que Francis deveria seguir a carreira de músico e jogar fora o diploma de engenheiro. Vinicius, diga-se de passagem, também influenciou Chico Buarque a largar a arquitetura, Edu Lobo, o direito, e João Bosco, a engenharia.

 

O poeta, como se sabe, mesmo tendo trabalhado com muitos compositores, assim como Francis, considerava suas parcerias como um "casamento sem sexo", demonstrando ciúmes quando seus amigos começavam a compor com outros. O pianista passou por isso quando foi trabalhar com Ruy Guerra e, posteriormente, com Chico Buarque. "Ele não falava explicitamente, mas ficava enciumado. Sinto muita saudade do Vinicius, ele foi a pessoa mais importante na minha vida musical", conta Francis.

 

A relevância da trajetória do pianista, atestada por este disco duplo, volta aos palcos de São Paulo em novembro, quando ele apresentará Francis Hime - O Tempo das Palavras... Imagem, no Sesc. No mesmo mês, a envergadura de sua obra será reconhecida pela Osesp, que interpretará Concerto para Violão e Orquestra, homenagem de Francis a Raphael Rabello, seis meses antes da morte do violonista, em abril de 1995. Sob regência da mexicana Alondra de la Parra, os músicos dividirão o palco com o solista Fábio Zanon.

 

E os projetos não param. Francis busca patrocínio para lançar a Ópera do Futebol, com música dele e libreto de Silvana Gontijo. Promessa certeira é feita para 2010, quando a Biscoito Fino lançará uma caixa com toda a obra de Francis, com curadoria de Tárik de Souza. Ótima oportunidade para resgatar discos importantes da carreira do compositor que há tempos estão fora de catálogo.

 

Compositor resgata trilhas antológicas

 

Em trabalho de pesquisa para a caixa que vai compilar a obra completa de Francis, ventilou-se que a coletânea contivesse novas gravações de trilhas criadas pelo compositor para filmes das décadas de 1960 e 1970. Como o box ficou para o ano que vem, Francis decidiu registrá-las em disco agora. Revistando seu baú de partituras, fez novos arranjos para piano-solo - a primeira vez na carreira que grava como solista - de músicas compostas há pelo menos 40 anos. O resultado é o disco Imagem que reúne temas feitos para os longas Dona Flor e Seus Dois Maridos e A Estrela Sobe, ambos de Bruno Barreto, O Homem Que Comprou o Mundo, de Eduardo Coutinho, Um Homem Célebre, de Miguel Faria Jr., A Noiva da Cidade, de Alex Viany, Lição de Amor, de Eduardo Escorel, Marcados Para Viver, de Maria do Rosário, e Marília e Marina, de Luiz Fernando Goulart.

 

"Segui uma adequação pianística. Reestruturei algumas cenas, combinei algumas delas, não correspondendo necessariamente ao que aconteceu na tela, escolhendo um tema e criando variações para ele", conta Francis. Além do mais, são 64 anos de intimidade com o piano - ele toca desde os 6 - somados à familiaridade do autor com sua própria obra.

 

Em relação ao desenvolvimento de ideias centrais das composições, o pianista pôde amadurecer na virada dos anos 60 para os 70.

 

O ano era 1969 e ele decidiu embarcar para os Estados Unidos, decidido a ficar apenas um ano, estudando especificamente orquestração e composição de trilhas para cinema. Acabou ficando até 1973. Na Califórnia, teve aulas com especialistas, como Lalo Schifrin, David Raksin, Paul Glass, Albert Harris e Hugo Friedhopfer. Na volta, além de gravar seu primeiro disco, pela Odeon, Francis começou a fazer música para os filmes com muito mais competência. "Antes eu não tinha a técnica, compunha um monte de temas, sem unidade", explica.

 

Hoje, depois de tantos anos, Francis voltará a fazer trilhas. Semana passada, ele foi assistir ao documentário que Zelito Viana fez sobre o dramaturgo Augusto Boal e recebeu o convite para musicar o filme. Coincidentemente, foi Viana que o contratou para fazer a trilha de O Homem Que Comprou o Mundo, há 40 anos. Sobre Boal, ele é o famoso destinatário exilado a quem Chico e Francis mandam lembranças em Meu Caro Amigo. A composição nasceu em 1976, com o nome original de Choro nº1. Os dois parceiros estavam na casa de Chico para compor, quando o letrista empacou. Para espairecer, perguntou ao pianista se ele tinha algum choro pronto. Francis tinha vários. No fim das contas, Chico gostou mais do primeiro. Choro nº 1 (Meu Caro Amigo), que faz parte da trilha de Um Homem Célebre, ganhou registro singular e emotivo de Francis agora em Imagens, contando com uma segunda parte original, não letrada por Chico. Além dela, destaque também para Passaredo, A Noiva da Cidade e Canção do Vento.

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