O suingue divertido de Criolina, cheio de boas referências

Dupla formada por Alê Muniz e Luciana Simões toca no Grazie a Dio! as canções de seu álbum de estréia

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2007 | 20h52

Os nomes de Zeca Baleiro e Rita Ribeiro são divisores de água da música do Maranhão. Ele, como produtor e compositor, ela, como intérprete, conhecedora da história e defensora de causas, abriram as comportas no final dos 90 para sonoridades que até então soavam muito distantes. "Enquanto você não aparece fora, as pessoas não entendem porque os artistas de lá não são celebrados no Brasil inteiro", diz o guitarrista e violonista Alê Muniz, que forma o projeto Criolina, com Luciana Simões, com quem divide as composições e os vocais.  Veja Também'Balaiei, Sim', de Lopez Bogéa 'Banguela', de Criolina O som que vem do Maranhão Os dois fazem hoje no Grazie a Dio! um show com o repertório de seu estimulante, suingado e criativo álbum de estréia, Criolina, de produção própria. A dupla será acompanhada no show por René Parisi (guitarra), Magno (baixo), Priscila (bateria), Pedro Cunha (teclados e acordeon) e Junio Gaiato (gaita). Ainda falta muito para a cena do Maranhão ter repercussão semelhante à do Recife, mas é inegável que Zeca e Rita abriram caminho, reconhece Alê. Até então, de referência mais óbvia, havia apenas João do Vale, Alcione e o grupo de reggae Tribo de Jah. Papete, César Teixeira e Josias Sobrinho, grandes compositores, ainda são conhecidos de poucos. De uns anos para cá, avançaram as fronteiras outros bons representantes: o veterano Antonio Vieira, Mano Borges, Zé de Riba e Flávia Bittencourt, além do grupo Maria Preá, formado em São Paulo, mas de sonoridade e repertório de fonte maranhense. O Criolina é uma das mais novas manifestações a se expandir. Radicados em São Paulo, mas sempre voltando a São Luiz, capital maranhense, Alê e Luciana começaram a firmar a parceria quando se encontraram na Rua Teodoro Sampaio, bastante freqüentada por músicos. Até então, cada um tinha seu trabalho e Alê fazia "umas levadas no computador", mas diz que trabalhar com Luciana lhe deu mais segurança. Ela tinha vindo do Maranhão como vocalista da banda de reggae Mystical Roots, mas também ali não tinha autonomia. No início, o som da dupla era mais eletrônico do que agora. "Nas primeiras gravações, a eletrônica era o destaque", diz Alê, que aos poucos, com Luciana, resolveu deixar a sonoridade "mais orgânica". "Até para não ficar datado. Hoje essa coisa de fazer fusão acabou ficando banalizado demais. O cara coloca um berimbauzinho aqui e uma guitarra distorcida ali, já está fazendo fusão. E é um discurso muito gasto. Aí dá a mesma sensação de quando você escuta um disco dos anos 80, com aquela caixa cheia de reverb. Não dá", esclarece Alê. Em suma, resultou num som que não identificasse época, assim o CD teria maior longevidade. O processo para chegar aí, segundo Alê, foi bem natural. A mistura que Alê e Luciana fazem reflete tudo o que ouviram de música brasileira, americana e caribenha na infância e a adolescência. Há texturas eletrônicas discretas, bom humor, ao ritmo de rock-maracatu com citação de Beatles (Zé Bedeu), tambor-de-mina dobrada (Santa Maria), brega abolerado (Veneno), samba-funk-rock-embolada (Carapinha), soft reggae (Lonely Girl, com Zeca Baleiro tocando piano). O lance vintage, adotado também na parte visual do projeto, se evidencia nas boas influências absorvidas, e abertamente assumidas pela dupla, como Mutantes (na divertida guajira Banguela), Novos Baianos (na suingada Baladeira) e Gilberto Gil (no baião pop Pra te Ensinar o B a Bá, que remete a Expresso 2222). A canção Afinado a Fogo poderia ser de Zeca Baleiro. Há formas lúdicas que lembram Manu Chao. Luciana diz que o trabalho da dupla se desenvolveu como "coisa do coração, sem focar o mercado". "A gente vive um momento de maior liberdade de criação. Nunca paramos para pensar num tema para fazer uma letra, sempre são coisas que surgem, que a gente vê acontecer", diz a cantora.  O nome Criolina, além de sugerir as sonoridades de ambiência afro-brasileira, também se refere ao produto de limpeza creolina (desinfetante, anti-séptico e germicida), bastante popular no Nordeste e em outras regiões brasileiras. Serve para tudo quase.  Criolina. Grazie a Dio! (150 lugares). Rua Girassol, 67, Vila Madalena, tel.: 3031-6568. Terça, 18, 23 horas. R$ 15

Tudo o que sabemos sobre:
Maranhão

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.