O sucesso que não mostra a cara

Só poderia ser magia negra. Exposta àquela melodia por minutos, a criança saía repetindo um dialeto indecifrável, retorcia a coluna, revirava o pescoço e caía em um transe que podia levar horas. Um site holandês deu o diagnóstico: "Ragatanga possui versos satânicos". Seu criador, Manuel Queco, um modesto jovem do sul da Espanha, jura nunca ter negociado a alma com o tinhoso, mas está ganhando muito dinheiro com os 8 milhões de discos que a canção lançada no Brasil pelo grupo Rouge vendeu. "Bem, virei um mito", se diverte.Mitos nem sempre têm rosto. Os traços do paulista Cesar Augusto, por exemplo, só a família e os amigos conhecem. Mas suas canções valem milhões e lhe proporcionam uma vida de luxo. Desculpe Mas Eu Vou Chorar, que na voz dos sertanejos Leandro & Leonardo vendeu 3 milhões de cópias, foi o começo.Na seqüência vieram outras 700 gravadas pela fina flor da música romântico-brega-sertaneja. Zezé Di Camargo & Luciano, Gian & Giovani, Bruno & Marrone, Fafá de Belém e uma extensa lista lançaram suas composições e venderam juntos 60 milhões de álbuns.Na terra em que gravadoras quebram e mafiosos da pirataria enriquecem, pode parecer que tanto entusiasmo caminha na contra-mão. Mas seus bens nada modestos conquistados com versos e acordes não lhes caíram ao colo como mágica. Há passagens que se repetem na vida das estrelas sem face. São humildes na origem até que a luz da grande criação os atinge e a vida se transforma no anonimato.Severino dos Santos Filho trouxe o violão e deixou a família em Juripiranga, sertão da Paraíba, para viver o conto do cantador famoso. Foi parar no palco de casas de prostituição de Santos - como músico, vale ressaltar - antes de subir para a capital. "Desbravei São Paulo sozinho por dez anos." Seu nome passou a ser Tivas assim que Gilliard, romântico dos anos 80, botou fé em seus versos e gravou Ciúme.Mas o filé viria mais tarde. Daniel lançou Eu me Amarrei, Sandy & Junior receberam Cadê Você Que Não Está Aqui e Chitãozinho & Xororó cantaram Rebola. A vida de andarilho ficou para trás. Seu patrimônio físico, conquistado a gordos depósitos de direitos autorais, reúne um estacionamento, dois imóveis comerciais, dois carros importados, duas fazendas, uma casa na praia e uma "bela residência", como diz, no Morumbi. "Não posso reclamar. É uma vida boa."Na Bahia não há cantor que não conheça Anderson Cunha. Ivete Sangalo foi a mais recente a lhe dar boas notícias. Os 250 mil que seu disco Festa vendeu graças à canção homônima não foram a única fonte de renda de Cunha. Só o Carrefour lhe pagou R$ 120 mil para usá-la como jingle de um comercial."Mas continuo humilde como no início", lembra referindo-se à infância em Guanambi, no interior da Bahia. Filho de pais funcionários públicos, começou a sentir o sabor do luxo no momento em que passou a tocar em uma banda de axé."Nunca imagino o que será um sucesso. Mas hoje as gravadoras vão pelo que julgam que será mania de verão. Isso é negativo. Os artistas deixam de cantar muito material de qualidade que os compositores fazem e escolhem aquilo que pensam que as gravadoras irão gostar", critica e revela que de suas 300 canções, apenas 25 foram lançadas.Ninguém foi tão transparente ao tocar nesta ferida quanto Tivas. Ele diz que "é lamentável o estado de nossa música. É muito pobre, a boa música não tem espaço." Só para lembrar, Tivas é autor de Eu Me Amarrei, um hit sertanejo que há um ano tocava mais de 40 vezes por dia. "Eu tenho parte de culpa. Mas nós compositores somos levados a fazer isso pelas gravadoras. Compomos dentro do universo de cada artista. Estou com três músicas que vou mandar para o Rouge."Há artistas e compositores que estabelecem uma relação de dependência quase química. Chico Amaral e Samuel Rosa, do Skank, foram uma das duplas pop mais bem-sucedidas dos anos 90. Casado, 41 anos, dois filhos, uma carreira de músico da noite frustrada e um apartamento comprado em Belo Horizonte com os rendimentos de suas criações, Amaral vive no anonimato que sempre sonhou. "Só sou reconhecido em Belo Horizonte. Graças a Deus não sofro assédio."Sua certeza de sucesso veio ecoando pela rua no alto falante de um caminhão do PT em 1992. Collor havia caído e as pessoas festejavam ao som de Indignação. Amaral foi a um orelhão e tentou ligar para Samuel para contar mas não conseguiu tamanha a emoção. Em Barcelona teve o ego massageado durante uma única viagem de táxi. No trajeto do hotel para o aeroporto, Garota Nacional tocou duas vezes. "Ouvir uma canção que fiz tocando no rádio deve ser como o jogador que vê seu gol passando no Fantástico."O gol de Manuel Queco, o espanhol criador de Ragatanga, foi de todos o mais inusitado. Quando já era um compositor conhecido de música flamenca, ainda que seus álbuns jamais houvessem vendido mais que 300 mil cópias, fez uma brincadeira com os filhos pequenos para treinar suas memórias. Foram os pequenos que mudaram algumas sílabas e fizeram a letra de Ragatanga. "Fico orgulhoso quando falam que os versos são satânicos. Falavam isso das músicas do Led Zeppelin e dos Beatles."

Agencia Estado,

11 de fevereiro de 2003 | 10h25

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