O som do revolucionário grupo Ilumina de Jennifer Sturm

A violista, que concebeu o conjunto, com músicos experientes ao lado de aprendizes, fez com eles um concerto memorável na terça-feira, dia 30

João Marcos Coelho/Especial para O Estado, O Estado de S. Paulo

01 de maio de 2019 | 20h53

A primeira sensação é de deslumbramento: os limites entre palco e plateia são eliminados e todos mergulham numa viagem musical que mistura Bach com Bartók e Boccherini com Ravel, tudo comandado por Mozart. Depois do concerto da terça-feira (30/4), na Sala São Paulo, dentro da série TUCCA Música pela Cura, a sensação era de perplexidade: como um grupo de vinte músicos, metade estrangeiros, outro tanto de brasileiros de vários cantos do país, consegue fazer música de elevadíssima qualidade?

A resposta é fácil: eles integram um projeto revolucionário, que se concentra na prática da música de câmara. Concebido pela violista norte-americana Jennifer Sturm, o Ilumina espelha-se no modelo do Festival de Marlboro, nos EUA, onde grandes músicos convivem com aprendizes por mais de um mês. Desde 2015, todo início de janeiro vem sendo ocupado por dez dias de imersão – primeiro em Bragança Paulista, depois em Mococa, no interior do Estado de São Paulo. O resultado é espantoso: os dez brasileiros que estavam no palco estudam em Salzburgo ou Viena. Nada substitui a imersão, que um dia já foi mote do Festival de Campos do Jordão, hoje travestido de Festival de Campos Elísios.

Finamente engendrado em torno do chiaroscuro, o concerto remete ao nome do Projeto. Todos tocam de pé e mostram como o corpo fala e se integra com os instrumentos, que não são mais vistos como próteses mas extensões naturais de seus corpos. Tudo sem regente. Jennifer lidera, mas discreta.

Estruturada em três partes, a noite se iniciou com os músicos improvisando sobre um pedal do contrabaixo e cellos e adentrando o palco informalmente. Três minutos que desembocaram no sexto Concerto de Brandemburgo, em que brilham duas violas solistas com seus timbres ao mesmo tempo escuros mas calorosos. A segunda parte girou em torno do pizzicato. E, como numa playlist, sucederam-se dois movimentos de quartetos (o incrível Assez vif do Quarteto de Ravel e o Allegretto pizzicato do Quarteto nº. 4 de Bartók) e La Musica Notturna delle Strade du Madrid nº. 6, de Boccherini – compositor injustamente pouco tocado hoje em dia. Sob o signo de Mozart, ao lado do ótimo pianista inglês Paul Lewis, os músicos, sempre alegres e integrados, exploraram o sutil jogo de luz e sombra de seu derradeiro concerto.

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