Janek Skarzynski
Janek Skarzynski

O século de Leonard Bernstein, um dos maiores maestros da história da música

Em seu centenário, o também compositor e professor é lembrado por suas obras marcantes e gravações do grande repertório sinfônico

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado

25 de agosto de 2018 | 09h00

O mundo musical celebra em 2018 os 100 anos de nascimento do norte-americano Leonard Bernstein, que se completa neste sábado, 25. Figura de talentos múltiplos, ele é autor de obras marcantes, como o musical West Side Story, e deixou como regente centenas de gravações do grande repertório sinfônico, que fizeram dele um dos maiores maestros da história.

Compositor, maestro, professor. As três atividades dialogavam entre si com o objetivo de levar a música clássica a um público cada vez maior - e a discutir temas decisivos na relação entre música e ouvinte, como o significado do discurso musical.

"O que ele acreditava como autor era nada mais do que ele era enquanto maestro: certo ou errado, ele se manifestava com total expressão artística, com profunda convicção na habilidade da música em transformar emocionalmente as pessoas", diz o maestro Fabio Mechetti, que dirigiu um Festival Bernstein este mês com a Filarmônica de Minas Gerais.

No pódio da regência, afirma Isaac Karabtchevsky, diretor da Petrobras Sinfônica e da Sinfônica Heliópolis, "ele era pura música, projetada dentro de conceitos que extrapolavam a trivial definição dos compassos". E o mesmo vale para sua atividade como professor, recorda Marin Alsop, diretora musical da Osesp e ex-aluna de Bernstein. "Ele era um ser humano caloroso, afetivo. Ele amava as pessoas. Ele me apoiava, exigia, e sempre me levava a ser o melhor que eu podia ser. E falava sempre sobre temas amplos, nunca se perdia em pequenos detalhes técnicos. Era um grande contador de histórias e entender a narrativa de uma peça, assim como nossa responsabilidade como mensageiros dos compositores, era primordial."

Leonard Bernstein maestro: intensidade acima de tudo

O legado de Leonard Bernstein como maestro passa necessariamente pelas gravações feitas por ele ao longo da carreira das sinfonias de Gustav Mahler, que ele ajudou a transformar em repertório fundamental de qualquer orquestra mundo afora. 

A relação de Bernstein com a música de Mahler era extremamente pessoal. O americano via na figura do austríaco um paralelo com sua própria história: ambos foram regentes e compositores e tiveram que lidar com a incompreensão com seus trabalhos como autores.

Bernstein gravou as sinfonias com orquestras como as filarmônicas de Nova York, Israel e Viena, além da Orquestra da Rádio Bávara. Um registro particularmente especial, no entanto, é o da Sinfonia nº 9 com a Orquestra Filarmônica de Berlim.

Esse é o registro ao vivo da única apresentação de Bernstein com a orquestra, que ao longo da segunda metade do século XX foi território de Herbert von Karajan, a antítese de Bernstein como regente. Enquanto Karajan era símbolo da precisão sonora, Bernstein era pura intensidade, emoção, como mostra esta leitura da Sinfonia nº9. 

 

Capacidade de surpreender

Ex-aluna de Bernstein, Marin Alsop diretora musical da Osesp, conta que o fundamental para ele, como maestro, era entender o que uma obra musical tem a dizer, qual a sua narrativa. Para ele, explicou outro de seus alunos, o maestro Kent Nagano, em uma entrevista para o documentário, era preciso compreender a partitura em si, claro, mas também o contexto em que uma obra surgiu, os detalhes da biografia do compositor, com atenção especial ao possível diálogo com outras artes. 

Era isso que permitia ao maestro saber exatamente que história pretendia contar ao interpretar determinada peça. E, a partir daí, descobrir como as notas escritas pelo compositor poderiam ajudá-lo a narrar essa história. "Um maestro ou músico deve tocar como se estivesse compondo a obra naquele momento, sem jamais perder a capacidade de se surpreender com a partitura a cada instante", disse Bernstein em uma entrevista.

Música americana

Nos anos 1950, Bernstein foi o primeiro maestro americano a se tornar diretor de uma orquestra americana. E entendia o simbolismo do fato, interpretando obras de compositores do país e se tornando seu principal divulgador mundo afora. Entre suas preferências estavam Aaron Copland, de quem foi grande amigo, Gershwin, Samuel Barber e Charles Ives. 

Bernstein também deixou gravações de suas próprias obras. No mundo do teatro musical, há duas referências importantes: West Side Story, que ele registrou com um elenco de cantores de óperas que incluía José Carreras e Kiri Te Kanawa, e Candide, gravado em Londres. De West Side Story, há ainda um documentário sobre a gravação em si, que revela muito da personalidade complexa do músicos e seus embates com os cantores e produtores.

 

Grande repertório

Bernstein gravou as sinfonias de Tchaikovsky, Beethoven e Brahms mais de uma vez. São leituras intensas, profundas, mas seus andamentos lentos muitas vezes soam exagerados. Da mesma forma, em especial em Beethoven e nos autores do classicismo, nossa sensibilidade já demanda um outro tipo de leitura, mais atenta aos estudos de época.

Ainda assim, são um prazer de ouvir pela leitura sempre pessoal. E também por questões históricas, como a Sinfonia nº 9 de Beethoven gravada com músicos de orquestras da Alemanha Ocidental e Oriental logo após a queda do Muro de Berlim. Destaque também para seus registros de autores do século 20, como Igor Stravinski.

Na ópera, seu grande feito foi um registro ao vivo do Tristão e Isolda, de Wagner, que acaba de ser lançado em DVD depois de anos circulando apenas como CD - do compositor há ainda duas gravações, em Nova York, do primeiro ato de A Valquíria. Sua Carmen, de Bizet, no entanto, é uma sucessão de erros, da escolha do elenco à interpretação. 

Bernstein compositor: dos musicais às sinfonias

A obra mais célebre de Leonard Bernstein é o musical West Side Story. Não por acaso. O musical não só foi um sucesso na Broadway como, levado ao cinema, conquistou nove estatuetas. Marcou época redefinindo o padrão de qualidade do teatro musical americano.

Na obra, Bernstein e o coreógrafo Jerome Robbins adaptam para a Nova York dos anos 1950 a peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, com as famílias rivais se tornado gangues de americanos e de imigrantes porto-riquenhos. Entre os trechos mais famosos, estão Maria, Tonight, Somewhere e One Hand, One Heart. Bernstein gravou a obra nos anos 1980 e fez questão de ter no elenco cantores de ópera, como José Carreas e Kiri Te Kanawa.

Não foi o único musical de Bernstein. E On The Town (que também chegaria ao cinema com Gene Kelly e Frank Sinatra no elenco) e Wonderful Town mantém alguns pontos em comum com West Side Story. O principal deles é a cidade de Nova York como cenário.

Os musicais de Bernstein ajudaram a criar e consolidar a imagem da cidade como um lugar onde os sonhos podem se realizar mas que, ao mesmo tempo, pode ser fria e cruel. Seus personagens personificam esse dilema, em obras marcadas por um lirismo profundo.

Também para o teatro, Bernstein escreveu Candide, obra de difícil qualificação: é um musical, uma opereta, uma ópera? Seja como for, é uma das partituras mais inventivas, em que ele brinca com diferentes estilos para caracterizar os personagens e situações, usando desde música dodecafônica até referências aos grandes mestres do passado.

 

Sinfonias

A contribuição de Bernstein para o teatro musical já seria por si só marcante. Mas depoimentos de músicos e amigos dão conta de que ele sempre alimentou o desejo de ser aceito como "compositor sério", autor de grandes obras sinfônicas. Ele escreveu, por exemplo, três sinfonias. E as obras são marcadas pelo diálogo com questões do século 20. 

Na Sinfonia nº 2, por exemplo, ele teve como inspiração o poema A Era da Ansiedade, de W.H. Auden, sobre quatro jovens perdidos em Nova York durante a Segunda Guerra, refletindo sobre as angústias da existência. Na nº 3, por sua vez, o tema é um embate entre o ser humano e a figura divina, com um narrador que questiona Deus a todo instante.

Já na Missa, escrita nos anos 1960, ele faz uma crítica indireta à guerra do Vietnã. A obra inaugurou o Kennedy Center, em Washington, e foi escrita depois de um episódio que marcou Bernstein profundamente. Após oferecer um jantar para líderes do movimento Panteras Negras, o maestro foi tema de um artigo do jornalista Tom Wolfe, que chamava atenção para o tom surreal de um encontro entre frequentadores da Quinta Avenida com membros de um grupo de luta pelos direitos civis, cunhando o termo "radical chic".

A reabilitação da obra de Bernstein como compositor começou pouco após sua morte, nos anos 1990. O maestro britânico Simon Rattle inclui seus musicais no repertório da Orquestra Filarmônica de Berlim, defendendo a presença do jazz em sua música como algo a ser celebrado e compreendido à luz dos caminhos da composição no século 20. Seus alunos também fizeram um trabalho de divulgação importante, entre eles Marin Alsop, que acaba de lançar uma caixa de CDs com toda a obra orquestral do autor, gravada com a Sinfônica de Baltimore e com a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo.

 

Bernstein professor: investigando o significado da música

Uma das marcas do trabalho de Leoanard Bernstein foi a busca pela comunicação com um público cada vez maior, o que lhe rendeu fama e reconhecimento fora do mundo da música clássica e o inseriu de modo definitivo no mapa da cultura norte-americana.

Nos anos 1950, ele criou a série Concertos para a Juventude, na qual conversava com a plateia e explicava, com a orquestra no palco, algumas das principais obras do repertório. E logo percebeu que a televisão era um veículo para a divulgação dessa música, transmitindo ao vivo e semanalmente essas apresentações.

A experiência o levou a criar o programa Omnibus, com o mesmo propósito, mas agora em estúdio e não apenas com obras marcantes como tema, mas também gêneros, compositores e aspectos técnicos da composição musical.

 

Significado da música

Um desses temas, que ele abordaria também em livros como O Mundo da Música e Findings, era o significado da música. Em outras palavras, ele questionava como se dava a relação entre o ouvinte e a música que era tocada, tentando entender como atribuímos determinado sentido a uma peça puramente instrumental, sem texto.

Momento marcante de sua atividade como educador é a série de seis palestras reunidas sob o título The Unanswered Question. Elas foram proferidas no início dos anos 1970, quando Bernstein era professor convidado da cátedra Charles Eliot Norton de Poesia da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos.

Nessas palestras, que foram reunidas em livro e gravadas em vídeo, Bernstein propõe o diálogo entre música, poesia, estética e linguística para investigar a questão do discurso musical e seu significado, em linguagem sempre acessível.

 

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