O rock digital do Pato Fu, em CD e DVD

Rock-and-roll sem os velhos amplificadores no palco, sem guitarras movidas a pedais de distorção, sem ruídos de microfonia nos shows e sem ensaios nos finais de semana na casa da mãe do baterista seria a mais improvável das apostas, uma completa bizarrice que só provocaria os cabeludos mais ortodoxos. Não foi exatamente um paraíso o que o Pato Fu encontrou quando surgiu há dez anos com um baterista virtuoso, um baixista obscuro, um guitarrista franzino e uma garota miúda de voz e esquisita de roupa. O rock que faziam à época pelos cantos de Belo Horizonte já era criado, ensaiado e levado ao palco pelas mãos dos computadores. Os festejos para comemorar a década - que o grupo passou escutando que era "plágio dos Mutantes" por um ouvido e "uma das dez melhores bandas de rock do mundo" por outro - não poderiam ser convencionais. O Pato Fu lança um disco gravado ao vivo pela MTV no Museu de Arte da Pampulha, em Belo Horizonte, e um DVD do mesmo show. A MTV exibe um programa especial na sexta, às 22h30. O álbum tem 19 músicas enquanto o DVD traz 21. As quatro inéditas são Por Perto, Me Explica, Não Mais e Nada pra Mim, que a cantora Ana Carolina já havia gravado. Sempre com arranjos novos - mais acústicos ou mais eletrônicos que nas gravações originais -, há entre conhecidas Eu, Made in Japan, Imperfeito, Rotomusic de Liquidificapum. Os três convidados para as gravações foram Lulu Camargo, tecladista do Karnak, e a dupla de atores músicos do espetáculo Tangos e Tragédias, Hique Gomes e Nico Nicolaiewsky. Seria equívoco classificar o MTV Ao Vivo Pato Fu como uma seqüência de Ruído Rosa, apontado como a melhor de suas crias desde o surgimento. Por ser comemorativo, não há compromissos com novos direcionamentos. Há boas tiradas nas canções e um cenário futurista acionado por programação eletrônica de encher os olhos. Mas nada demais para considerá-lo o que se chama de "trabalho de carreira".Os fatos que atraem as atenções ao Pato Fu devem ser outros. Em seus dez anos, o grupo subiu e desceu sem despencar pelo barranco das facilidades radiofônicas. Acertou mais no rock "tecnológico-humanista" de Ruído Rosa e quase se perdeu na informação excessiva de Isopor. Mas, mais importante, sedimentou um jeito de fazer música e fazer show como nunca se viu no grande meio pop. O Pato Fu, primeiro, não ensaia. "Acho que as bandas terminam por causa dos ensaios. Para fazer o show da MTV, passamos dois meses ensaiando e já foi um sofrimento. Não suportamos isso", diz a vocal Fernanda Takai. "Sempre vamos melhorando um show na estrada mesmo. O máximo que ensaiamos antes de uma turnê são dez dias", conta o guitarrista e mentor John. Dispensa também amplificadores. "Os músicos que vão aos nossos shows estranham. Mas usamos midi (sistema de amplificação que dispensa as caixas no palco) há dez anos, é algo natural", fala o baixista Ricardo Koctus. "Meu barato nunca foi pisar em pedais de efeito para tirar sons da guitarra. Não faço apologia da eletrônica, mas com a gente funciona assim", fala John. E não se encontra para criações coletivas. "Primeiro gravo as bases em computador. Os arranjos que faço já ficam valendo em 90%", explica o guitarrista, sem tirar o mérito alheio. "As linhas de baixo são o Ricardo que faz." Não é uma nova revolução o que os músicos propõem, mesmo porque fazem questão de salientar que não são pregadores de um religião que tem a tecnologia como deus. Mas, ao assumirem que fazem dos mouses instrumentos reais, ajudam a derrubar o muro que historicamente separa roqueiros de tudo o que sai de um computador. As programações eletrônicas que os xiitas do rock chamam de heresia foram usadas em Ruído Rosa, o mais rock-and-roll de seus álbuns. MTV Ao Vivo Pato Fu: Preços médios CD: R$ 26 / DVD: R$ 46.

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