O Rappa lança álbum "pra multidão ouvir"

O Rappa canta, em Instinto Coletivo, música que dá título ao seu novo CD, que "o som tem que ser alto pra multidão ouvir". Um verso de segundas intenções traçadas desde o trabalho anterior, Lado B Lado A, de 1999. A intenção mais evidente é a sonora. Um álbum duplo, quase todo gravado ao vivo que capta a energia das suas apresentações. No festival Abril pro Rock deste ano, a massa pernambucana delirou com o seu show, superlotando o ginásio. Em seguida, apresentou-se o conjunto Asian Dub Foundation, que quase ficou coagido com o fervor da atração anterior - lógico, o grupo nada deixou a desejar. Desde o disco anterior, Marcelo Yuka enfatizava a preferência por sons mais graves, e O Rappa manteve isso em Instinto Coletivo ao Vivo. Já o lado b dessa história é o mais tendencioso. "O outro sentido de ´o som tem que ser alto pra multidão ouvir´ é sobre a questão ideológica, de chacoalhar as pessoas, tirá-las do comodismo. Fazer barulho pelo que nos interessa mudar", diz Yuka, que compôs as faixas inéditas de Instinto... feitas no estúdio, exceto a versão de Fica Doido Varrido, um samba de Benedito Lacerda e Frazão. Falcão reforça a argumentação de Yuka."Eu entendo essa crítica constante aos discos gravados ao vivo desse momento. A gente não gosta dessa coisa limpinha, em que ficam domando o público pra bater palma na hora exata, após o fim do número", complementa."Nós gostamos do som sujo, de uma forma como as bandas faziam antigamente quando encaravam suas longas turnês, com verdade, pois esse é o nosso projeto de vida. Quando estamos no palco, o nosso lance é fazer música pra gente e não exatamente ter de somente satisfazer o público. Ele se satisfaz com a nossa grande viagem dub (subgênero musical de origem na música popular jamaicana, como o reggae)." Essa questão, para Yuka, é até mais profunda. " Realmente somos mal-educados sonoramente: é proposital. O dub nos dá liberdade para tocar, é um acabamento musical pouco usado no Brasil, mas que nos influencia desde o começo da banda. A gente fala que o dub pode ser um tipo de jazz de quem não sabe tocar", reafirma.A viagem "dub-psicodélica" de O Rappa é uma das melhores formas em que o dub foi empregado na cena pop nacional. Muitos grupos já tentaram fazê-la, porém, soam como cópias fajutas de Bob Marley. No segundo disco de Instinto Coletivo ao Vivo há um casamento perfeito quando O Rappa faz dobradinha com o grupo hindo-britânico Asian Dub Foundation. Isso ocorre na música inédita de mesmo nome do CD (leia crítica nesta página). "Nenhum dos grupos faz um dub ortodoxo e mantém as suas raízes musicas. É o encontro dessas propostas que faz a coisa ser boa e comunicar-se", diz Yuka. "Outra questão importante é que as bandas se juntaram, primeiramente, não só pela música, mas por suas ideologias, por serem atuantes e quererem fazer algo. Não é um lance messiânico, embora eu possa dizer que tem show do Rappa, principalmente no subúrbio, que a gente sente essa crença. É que nós estamos agindo como cidadãos conscientes e o Asian, nesse sentido, é um exemplo mundial de atitude. A admiração é mútua por causa disso", enfatiza Falcão.Os dois integrantes afirmam que O Rappa permanece não querendo levantar bandeiras partidárias. "A gente realmente se coloca quando acredita num movimento ou grupo, como o Movimento Sem Terra. Mas não somos tolos a ponto de acreditar que essa nossa atitude é o máximo ou especial. Isso tem de ser encarado como algo corriqueiro, como comer, dormir", afirma Yuka. "Os nossos videoclipes (sempre premiados justamente por retratarem com ética os dramas sociais) são pano de fundo para essas pessoas que acreditamos", diz Falcão. O "imperialismo norte-americano" também é combatido pelo grupo. Esse embate pareceria um pouco questionável quando se ouve a gravação da música Ninguém Regula a América, parceria com o Sepultura, hoje um grupo que tem um vocalista norte-americano. "Não vejo dessa maneira paradoxal. Ele, antes de ser norte-americano, é negro. Isso é incomum dentro do gênero que o grupo toca, o metal. É um ato de coragem. Outra coisa é que o grupo tem anos de estrada e durante esse tempo sempre teve atitude, coerência", responde Yuka.Enquanto ele se trata das lesões provocadas no ano passado, quando foi baleado, Yuka investe numa parceria com o MST, que pode dar tanto em música quanto documentário. Mantém-se como integrante do grupo, só que ainda não pode tocar bateria e arrisca-se na bateria eletrônica, além de compor - inclusive para um filme de Paulo Lins e Breno Silveira sobre o Comando Vermelho. Já O Rappa deve começar nova turnê em outubro.

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