Evan Agostini / The New York Times
Evan Agostini / The New York Times

O que um holograma de Maria Callas pode nos informar sobre a ópera

Na gravação que foi usada, a expressão da voz da cantora é assustadoramente sutil e triste

Anthony Tommasini, The New York Times

19 Janeiro 2018 | 18h57

Quando, na noite de sábado, 13, Maria Callas surgiu no palco do Rose Theater no Jazz, no Lincoln Center, ela parecia um pouco pálida, fantasmagórica. O que era compreensível, uma vez que ela morreu em 1977.

Esta Maria Callas é um holograma tridimensional, a mais recente de uma série de ressurreições musicais/visuais que incluiu Tupac Shakur, Michael Jackson e Ronnie James Dio. Ela dividiu o programa, na verdade, com Roy Orbison, que morreu em 1988.

Indiscutivelmente a maior cantora de ópera do século 20, Maria Callas, radiante em um vestido de cetim branco e uma riquíssima echarpe de seda, foi recriada para a ocasião, reduzida aos movimentos minuciosos das suas mãos e os mais sutis gestos faciais. Sua voz, em árias da Carmen, de Bizet, e Macbeth de Hamlet, vinha das suas próprias gravações, apoiadas por uma orquestra ao vivo. O público somente assistiu a 30 minutos do que possivelmente será um concerto longo. (O programa completo, criado por uma divisão da empresa Base Entertainment, integra uma tournée internacional que começa em maio em Tóquio).

Ela - (o holograma?) - canta a Habanera de Carmen com uma sonoridade esfumada, uma expressão sensual e uma sedução magneticamente sutil, às vezes se virando para o lado, olhando por cima do ombro para se mostrar sexy, apertando a echarpe em seus braços.

É fascinante, mas também absurdo: estranhamente encantador, e também exagerado e ridículo. E de algum modo, de todos os hologramas produzidos até agora, parece ser o que tem mais sentido. Mais do que os fãs de rock ou hip-hop – e mais ainda do que os da música clássica instrumental – os amantes de ópera vivem no passado. Somos conhecidos por nossa obsessão obcecada pelas divas mortas e gravações antigas. Às vezes parece que uma espécie necrofilia impulsiona os mais fanáticos.

Os fãs de Maria Callas, em particular, sempre foram insaciáveis na sua fome por cada fragmento da persona e da arte da Divina. Cada gravação em estúdio que ela fez foi lançada, relançada, masterizada e remasterizada inúmeras vezes. Callas ficaria consternada ao saber que até suas atuações ao vivo mais imperfeitas foram legitimadas e levadas a público.

Infelizmente sua carreira na maior parte precedeu a era em que o cinema e a TV rotineiramente vão às casas de ópera internacionais. Temos alguns filmes maravilhosos dela em concerto. E há um vídeo sensacional do 2º Ato da Tosca de Puccini, em 1964. Mas não temos óperas integrais desta que é uma das maiores intérpretes de ópera da história: este holograma pode preencher um pouco essa lacuna. A voz operística, e a própria forma de arte, parecem muito frágeis. Que melhor maneira de representar essa fragilidade do que um holograma?

O respeitado diretor Stephen Wadsworth, que tem um currículo respeitado no campo da ópera e do teatro (incluindo a produção de Master Class, de Terrence McNalli, sobre Maria Callas), é o diretor de criação deste Callas in Concert. Wadsworth afirmou que o projeto quer mostrar a cantora com “comedimento, sutileza e delicadeza”. A ideia de um holograma cantando parece incompatível com esse objetivo. Mas alguns momentos durante a apresentação do domingo foram surpreendentemente comoventes.

Depois da Habanera de Carmen, esta Callas holograma cantou a cena do 3º ato em que Carmen lê a sorte nas cartas e vê que a morte está prevista para ela e o amante. Na gravação que foi usada, a expressão da voz dela é assustadoramente sutil e triste. No teatro, porém, a sonoridade era um pouco irregular, a voz às vezes metálica (os produtores dizem que ainda estão aperfeiçoando a tecnologia).

No final a Callas holográfica lançou as cartas de Carmen no ar que por um momento pairaram no espaço antes de caírem lentamente, um efeito que dá tempo para o regente da orquestra fazer a transição sem nenhuma interrupção para a ária seguinte, do Macbeth. Embora tenha sido um pouco melodramático, funcionou. Se você vai usar a tecnologia do holograma, então tem sentido criar algo novo e não copiar um concerto padrão.

Houve vários trechos durante a cena de sonambulismo de Lady Macbeth que me exasperaram principalmente porque na gravação a expressão vocal de Maria Callas é tão honesta e reveladora. Ela redefiniu o que significa cantar maravilhosamente. Sua interpretação profundamente emotiva, às vezes delicada e outras vezes crispada da ária de Verdi é a essência da verdade, algo que permeia todos os truques holográficos no palco.

Mas qual o objetivo deste espetáculo? Qual é o público visado? Callas, símbolo da elegância, continua a ser objeto de fascinação, mesmo além do público de ópera. Talvez o holograma produza alguns novos fãs do seu incrível talento artístico. Insisto para as pessoas ouvirem a extensa discografia de Maria Callas, como muitos, eu a adorava sem jamais tê-la visto ao vivo. Seu espectro holográfico é estranhamente sedutor, mas jamais a substituirá.

O problema é se este fantasma do passado impedir a apreciação plena da vitalidade da ópera e do canto nos dias atuais. Os amantes de ópera sempre se queixam de que a “era de ouro” já passou há muito tempo e preferem sentar-se em casa e ouvir suas gravações antigas em vez de procurar conhecer jovens intérpretes e assistir representações necessariamente imperfeitas ao vivo.

Em vez de recomendar aos novos entusiastas de ópera para ver o holograma de Maria Callas, eu os aconselharia a irem ao Metropolitan Opera, onde Sonya Yoncheva e Anna Netrebko cantando a Tosca nesta temporada vão informá-los muito mais sobre o que torna a ópera tão infinitamente fascinante. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

 

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