Universal Pictures
Universal Pictures

O que Chadwick Boseman fez por James Brown, Brown, agora, fará por ele

Quatro anos antes de viver o herói Pantera Negra, ator interpretou o inventor do funk em um filme vitorioso por seu poder em transportar Brown não nas pernas, mas nos olhos. Ouvir Brown, agora, será ver Boseman também

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2020 | 16h09

Antes de ser Pantera Negra no filme de Ryan Coogler, Chadwick Boseman foi James Brown. E isso quatro anos antes, mas com uma divulgação e um investimento infinitamente menores no longa que, no Brasil, chegou com o título Get on Up – A História de James Brown,  mesmo com a co-produção de Mick Jagger. Uma pena, já que Brown, muito antes de Pantera Negra, se tornou o primeiro super herói negro da música pop mundial. E Boseman emprestou sua capacidade de transferência de personalidade, algo mais mediúnico do que dramático, para salvar um filme de roteiro ruim mas com o melhor personagem que a música pop produziu desde o advento do blues, na década de 20 do século passado.

A crítica passou como um trator sobre os disparates da direção que, de fato, parecia querer dar conta de uma vida como a de Brown em duas horas de longa, um erro capital das cinebiografias, mas nem só de direção vive um filme. E a parte que o resgatou das perdições esteve nas mãos de Boseman. Além de uma caracterização brilhante, o ator assumiu primeiro seus trejeitos de andar, seu sotaque cantado, sua malandragem e muitos de seus passos em cena. Mais do que interpretado, o criador do funk vinha evocado em cenas espetaculares, como nos show do Apollo Theater, no Harlem, onde decidiu gravar um show memorável, e no ensaio em que Brown ensina a seus músicos, em especial ao saxofonista Maceo Parker, que o contesta, o que ele deseja ao propor um ritmo que, no início, parecia não querer chegar a lugar nenhum: “O que há de errado, Maceo?” “Não podemos tocar como você nos disse. Não funciona musicalmente.” “Parece bom?” “Sim” “É gostoso?” “ Sim.” “Você se sente bem ao ouvi-lo?” “Sim.” “Então, vai funcionar.”

Boseman tinha o que muitos atores que chegaram a participar das audições com o diretor Tate Taylor não tinham, profundidade. James Brown não se faz com cinco passos de dança e a capacidade de dublar as músicas do filme , todas originais, da voz do próprio cantor. O que se vê na tela está nos olhos. Brown fora dos palcos podia ser tudo, descontrolado, emotivo, diáfano, distante e extremamente egocêntrico. Mais do que sabê-lo viver com as pernas, o que já seria uma conquista, o ator o transportava em um olhar ameaçadoramente perdido, massacrado por uma vida sem respiro. A mãe o abandonou, o pai bebia e o surrava e a polícia o prendia.

Quando o mundo inverte os personagens fazendo-os dar aquilo que receberam, lá por volta da juventude, ele passa a cometer roubos e a bater na mulher até que, na prisão, a visão dos primeiros pastores protestantes em ação,. um deles fazendo o passo que Brown irá incorporar em seus shows, começa a mudar o rumo da prosa.

James Brown seria então o primeiro herói negro a se tornar um anti herói. Seria, mas o herói em questão que Boseman trouxe de volta, como Pantera Negra, é aquele que se vê do palco pra cima, cada um em sua Wakanda particular. Como Pantera Negra, que volta para recuperar e trazer luz a seu reino, James Brown faz isso todos os dias assim que alguém coloca I Fell Good pra tocar. A partir de agora, ele traz também Chadwick Boseman.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.