Jordan Strauss/Invision/AP
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O que Britney Spears enfrentou não teria acontecido a um homem

Artistas masculinos costumam ser presumidos como competentes e capazes, não importando seu passado; já as mulheres têm que provar várias vezes sua competência e sanidade

Helaine Olen , Washington Post

27 de junho de 2021 | 14h00

Sejamos claros: o que aconteceu a Britney Spears jamais teria acontecido com uma versão masculina de Britney Spears.

Em 24 minutos de um devastador testemunho perante a corte nesta semana, Spears descreveu em detalhes gráficos uma rígida existência, resultado de uma tutela à qual foi submetida desde 2008, após seu infame colapso. A tutela, conduzida por seu pai - e à qual Spears tem procurado colocar um fim por anos, de acordo com reportagem do New York Times - tem controlado quase todos os aspectos de sua vida desde então - uma vida em que ela, ao menos em alguns momentos, não pode carregar seu próprio cartão de crédito, telefone ou passaporte sem permissão, mesmo se ela for forçada a se apresentar em casas de show lucrativas em Las Vegas, às vezes contra a sua vontade.

Na corte, Britney descreveu uma vida sem privacidade. Ela foi informada de que não poderia tirar férias em Maui a não ser que concordasse em ver um terapeuta pessoalmente duas vezes por semana. Ela não poderia dirigir o carro do namorado sem permissão. Em um momento particularmente arrepiante, ela informou ao juiz que gostaria de casar e ter outro filho - ela já tem dois - mas a tutela não concordou em deixá-la remover seu DIU [dispositivo contraceptivo]. 

Isso não é mero paternalismo. É violação de direitos humanos. E totalmente assustador.

Agora pense nos incontáveis artistas homens que embarcaram em aparições públicas enlouquecidas, vício em drogas ou comportamento emocionalmente perturbado. Em poucos segundos, posso citar Michael Jackson, Kanye West e Robert Downey Jr., que uma vez foi levado pela polícia após entrar na casa de um vizinho pelado e dormir na cama de uma criança. Quando ligaram para o 911 [número da polícia nos Estados Unidos], você podia ouví-lo roncando ao fundo.

Há então o pai de Britney, Jamie - um homem tão raivosamente inapropriado que o ex-marido de Spears pediu e recebeu uma ordem de restrição para mantê-lo longe de seus dois filhos. 

A teoria da gestão mostrou que homens costumam ser presumidos como competentes e capazes, não importando seu passado. Nós, mulheres, por outro lado, temos que provar várias e várias vezes: nossa competência, nossa perspicácia financeira, nossa sanidade. E tutelas e comprometimentos involuntários foram usados ao longo da história para controlar homens e tomar o controle de suas finanças.

Spears - razoavelmente - gostaria de encerrar aquilo que ela considera um controle inadequado de sua vida e dinheiro. Até agora, sem sorte. "São 13 anos", ela contou à corte. "Não faz sentido algum para o Estado da Califórnia literalmente me vigiar... Dar sustento a tantas pessoas, e pagar tantas pessoas... E ser contado de que não sou boa o bastante".

Nós não temos como saber se tudo que Britney Spears contou à corte é preciso. Mas há várias evidências que sugerem que ela não está exagerando. Spears paga as contas e despesas legais de seu pai. Seu pai ganha uma taxa administrativa em acordos que comissiona por ela. Seus advogados recentemente cobraram-na em US$ 890 mil por quatro meses de trabalho. 

O advogado de Britney, a quem ela não escolheu, ganhou mais que US$ 3 milhões desde que começou a representá-la em 2008. Ela diz que ele nunca informou-a de que ela tinha o direito de contestar a situação legal. Nós só temos a sua palavra quanto a isso, mas é válido citar que o Times notificou o advogado de Spears por reportar Britney aos advogados de seu pai por - espere por isso - falar um palavrão em frente aos seus filhos. (Se isso realmente fosse um padrão parental, eu teria perdido o direito de ficar com meus filhos sem supervisão meses após seus nascimentos). 

Britney, enquanto isso, recebe uma mesada de US$ 2 mil por semana, mesmo que seu patrimônio tenha atingido US$ 60 milhões, e ela tenha lançado múltiplos álbuns entre os mais vendidos e se apresentado centenas, se não milhares de vezes. 

Nós não sabemos os verdadeiros detalhes da saúde mental de Britney Spears. Mas parece altamente improvável que o controle exercido pela tutela seja necessário ou certo.

Geralmente, o meio das celebridades ou Hollywood providencia o atendimento de todos os desejos de uma estrela, não importa o quão estranhos. No caso de Spears, ocorre o oposto. Essa suposta mulher louca no sótão está bancando um elenco de milhares enquanto eles lucram mantendo sua benfeitora prisioneira. É material para um filme de terror.

É fácil para muitos repudiar os obssessivos fãs por trás do movimento #FreeBritney. Em uma era de aceitação semi-massiva de teorias da conspiração, essa se parecia com qualquer outra - o conto gótico de uma cantora presa por uma tutela legal feita ostensivamente para protegê-la. Agora, ao que parece, a história é pior do que qualquer um imaginava.

Spears tem 39 anos de idade. Ela passou a maior parte de sua vida adulta cativa a esse acordo. "Eu mereço ter uma vida", ela disse à corte. Sem dúvida ela merece - mesmo que isso implique com que ela se relacione com homens inapropriados ou desperdice a sua fortuna. É a vida dela, e isso deveria ser sua escolha.

Estou com os fãs. Já passou do tempo de termos #FreeBritney (Britney livre).

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