Fernanda Nunes Abreu
Show de Nuno Mindelis, que reabriu o Bourbon depois da pandemia Fernanda Nunes Abreu

Show de Nuno Mindelis, que reabriu o Bourbon depois da pandemia Fernanda Nunes Abreu

O primeiro show depois do isolamento a gente nunca esquece

Como foi a apresentação do guitarrista Nuno Mindelis tocando BB King na casa Bourbon Street diante de mesas distanciadas e todos os protocolos que estão inaugurando uma nova noite em São Paulo

Julio Maria , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Show de Nuno Mindelis, que reabriu o Bourbon depois da pandemia Fernanda Nunes Abreu

E Nuno Mindelis  estava no palco, sete meses depois. Entre medo, saudade e protocolos, estar em uma plateia de pessoas que não assistiram a nenhum show desde que o mundo passou a sofrer a devastação provocada pelo vírus da incerteza se tornou uma experiência para a história. Histórica para a vida de cada um. Muitos dos que estavam em uma das mesas distanciadas na plateia do Bourbon Street na noite de quinta, 15, poderão não se lembrar do primeiro show que viram na vida mas todos se lembrarão do primeiro show que viram depois da quarentena..

Antes de sair de casa, algumas perguntas são e devem ser feitas por quem resolveu se cuidar e levar a pandemia a sério. Afinal, é hora de voltar a uma casa de show? Mesmo que eu me cuide, as pessoas que estarão a meu redor terão a mesma consciência? Vale a pena sair de casa para não tocar no outro e não cumprimentá-lo?

A resposta mais honesta a cada uma delas talvez seja não, mas a reabertura traz um novo item no serviço para uma parcela da população à qual retomar alguma atividade cultural se tornou uma questão de sobrevivência: qual o nível de segurança essa casa pode me proporcionar?

A segurança. Não adianta mais ter uma boa cozinha, uma boa programação e garçons excelentes. Se o público não se sentir seguro, ele não voltará. Os empresários que quiserem retomar o faturamento que tinham antes da pandemia irão naufragar na ambição. Não é hora de ganhar, por mais necessário que o dinheiro seja para preencher o rombo dos últimos meses. É hora de reconquistar as plateias, convencê-las de que seu estabelecimento tem condições de recebê-las e de que elas não se sentirão

agoniadas ao se virem trancadas em um ambiente insalubre. E uma dica: existe nesse momento uma plateia enorme, que por enquanto não pode ser enorme ao mesmo tempo e no mesmo lugar, querendo uma casa de shows para chamar de sua.

O Bourbon Street foi reformulado para reabrir suas portas com um show de Nuno Mindelis. Apesar de ter um espetáculo novo na manga, Angola Blues, aceitou o convite de Radesca para fazer uma noite em homenagem a BB King. Por uma razão justa. Foi BB Kingo homem que inaugurou a casa há 27 anos antes de voltar a ela por outras dez vezes. Havia um componente emocional extra a quem queria ouvir uma boa banda de blues ao vivo: ela iria orbitar, com a ajuda do guitarrista Tuco Marcondes, o repertório de BB King.

A entrada. Se antes era um ponto de passagem, ela se tornou um lugar de convencimento. É na entrada que nos convencemos a seguir adiante em nossos riscos ou darmos meia volta. Depois de passarem por um medidor de temperatura e pela estação de álcool gel, os clientes aguardam até que os anteriores sejam encaminhados às mesas. Por isso, é preciso chegar pelo menos meia hora antes do show.

O teto alto ajuda na sensação de respiro e o novo distanciamento das mesas são os primeiros sinais de boas vindas. Se até ali os clientes devem usar as máscaras, agora eles podem tirá-las, e aí está um momento em que entra o bom senso que não está em nenhum protocolo.

A máscara é o objeto com o qual o público precisa aprender a lidar. Ela não é desconfortável apenas quando se usa, mas também quando se tira em locais nos quais deverão ser recolocadas para falar com um garçom, receber um amigo na mesa, ir ao banheiro. As casas precisam pensar em um porta máscaras para, assim como o álcool gel, deixar em cada mesa. Um porta máscaras, como um mini cabide, evitaria que as pessoas tocassem nos tecidos ao guardá-los nas bolsas ou tentassem pendurá-las nas cadeiras, como fez esse repórter, deixando-a cair no chão. Ou isso ou oferecer máscaras descartáveis ao público.

A noite ficou mais curta, e isso também muda uma conduta. Para aproveitá-la, não dá mais para o público chegar atrasado nem o show não começar na hora. O de Nuno Mindelis começou antes das 20h30, um bom horário para que o palco estivesse vazio, como manda a lei, às 22h. Mas todos sabem o que se passa no final de um show de blues, com o dono da casa desesperado contra uma banda e uma plateia que não pretendem sair nunca mais dali. E isso piorou com a pandemia. Um fiscal pode arruinar um estabelecimento.

Quando a plateia está seguramente sentada, Nuno aparece. Ele confessa estar pegando no tranco depois de sete meses parado e talvez não consiga dimensionar a importância que terá, ele e sua banda, nos quase 120 minutos que seguirão. Cada solo, cada refrão, tudo pega como se as sensações estivessem sendo descobertas ali, pela primeira vez. Depois de sete meses à frente de lives frias e realmente distantes, estar a poucos metros do centro de um tornado criativo, com músicos se comunicando com os olhares e sorrindo uns aos outros, vale cada preço pago em cada pedágio de pandemia. Seu blues passa por cima dos medos e tem força para, pela primeira vez em sete meses, tirar as pessoas de um mundo contaminado por vírus visíveis e invisíveis e colocá-las em um lugar onde vale muito a pena estar vivo.

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A Osesp fez seu primeiro concerto presencial na Sala São Paulo, depois da pausa por causa da pandemia Mariana Garcia

O impacto positivo do primeiro concerto da Osesp aberto ao público

Fortalecia-se em mim a impressão de que a ideia era de fato enterrar um passado (ainda presente) triste e anunciar um novo tempo

João Marcos Coelho , Especial para O Estado de S.Paulo

Atualizado

A Osesp fez seu primeiro concerto presencial na Sala São Paulo, depois da pausa por causa da pandemia Mariana Garcia

Protocolos rígidos de segurança sanitária marcaram, no fim de tarde/noite da quinta-feira, 15 de outubro, a chegada, depois de oito meses de jejum absoluto, dos primeiros 480 espectadores à Sala São Paulo. Um punhado de felizardos segurava seus smartphones com os ingressos (digitais) que lhes davam direito a assistir ao primeiro concerto da Osesp em praticamente oito meses de pandemia.

Corredores delimitados encaminhavam cada um aos vários passos de segurança: a verificação da temperatura, álcool em gel. Ao chegar ao amplo átrio da Sala São Paulo, a primeira surpresa: mesas esparsas, distanciadas entre si, demarcavam o atendimento só feito nestas poucas mesas. Tudo muito distante do burburinho pré-concerto dos tempos normais.  

Havia quem mora fora de São Paulo, mas fez questão de vir a este concerto, apesar dos temores. Uma senhora de seus 80 anos disse que venceu o medo, porque a vontade de voltar a ouvir a “sua” orquestra era grande demais. E me alertou: “Você também faz parte do grupo de risco e está aqui”. Verdade.

A entrada na Sala era encaminhada, um a um, por atendentes mascaradas. Sentei-me e minutos depois duas senhoras comemoravam rindo alto porque foram levadas para os mesmos lugares previstos em suas assinaturas pré-pandemia.

Os primeiros compassos da pungente Für Lennart in memoriam foram impactantes. De repente, como postou na própria quinta-feira, 15, à meia-noite, um espectador, estávamos todos, músicos e público, “de volta à magia”. Foi extraordinário perceber, em segundos, quanto perdemos de música durante estes meses em que fomos obrigados a nos alimentar espiritualmente apenas com música online. A opulenta, embora solene, obra escrita para cordas de Arvo Pärt nesta peça de 2006 composta a pedido do presidente de seu país, e estreada no serviço fúnebre de Lennart, funcionou como uma catarse. Tomara que tenha sido um serviço fúnebre à morte da pandemia. Ao menos nos soou assim.

Aplausos tímidos foram cerceados pelo excelente maestro alemão Alexander Liebreich. Fortalecia-se em mim a impressão de que a ideia era de fato enterrar um passado (ainda presente) triste e anunciar um novo tempo. E nenhuma sinfonia talvez seja mais adequada do que a primeira de Brahms. Afinal, ela caminha para o grand finale a passos firmes. 

Sua história é conhecida. Brahms levou 14 anos para completá-la – e foi incompreendido na estreia em sua homenagem a Beethoven citando o tema da Ode à Alegria da Nona. Mas também tinha consciência, como escreveu, de que qualquer um, depois de Beethoven, teria de adotar um caminho diferente. Longe de ser, como foi apelidada, “a décima de Beethoven”, ele caminhou com suas próprias pernas. O rico contraponto cromático do movimento inicial, tão bem realizado pela Osesp neste concerto, está surpreendentemente próximo do Bach da “Paixão São Mateus”: mais do que um tema, são vários, o ascendente dos violinos e violoncelos em contraponto ao descendente das violas e madeiras. Minúsculo exemplo entre tantos outros que denotam seu novo caminho. Com um número menor de músicos, sente-se de modo mais claro o encontro dos timbres. Deste início extraordinário ao maravilhoso toque de trompas alpinas no final, uma certeza: a magia voltou mesmo. 

Talvez por causa dos músicos mais distantes entre si e obrigados a reaprenderem seu ofício, ou quem sabe pela sala com pequeno público, o fato é que não me lembro de ter ouvido de maneira tão cristalina os vários timbres se fundindo e misturando-se, porém mantendo suas individualidades. 

Numa conversa informal pré-concerto no saguão com Marcelo Lopes, diretor da Osesp, ele ressaltou que, mais distanciados entre si, cada músico torna-se mais exposto e, portanto, mais alerta em relação ao conjunto. É verdade. Em Brahms o rico tecido sinfônico se construía e envolvia a todos. Uma sensação difícil de descrever.

Colaborou muito para este resultado a performance do maestro Liebreich. Mais do que preciso, ele conseguiu transmitir o que desejava aos músicos (mesmo usando máscara, o que lhe deixava apenas as mãos e os olhos para se comunicar com eles). Desde o movimento inicial, Un poco sostenuto - Allegro, ficou claro que cada músico estampava o prazer de recuperar seu ofício. E os aplausos finais foram talvez não tonitroantes como em concertos normais, com casa cheia, mas profundamente significativos de uma comunhão palco-plateia que se estabelece apenas em ocasiões especiais. Muito especiais, como este primeiro concerto pós-pandemia. Que seja o primeiro de muitos.  

Cotação: excelente

 

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