William C. Eckenberg/The New York Times
William C. Eckenberg/The New York Times

O primeiro musical de Bob Dylan virou uma peça sem música

Cantor recebeu a missão de escrever canções para a adaptação de Archibald MacLeish de um clássico sobre a moralidade da Nova Inglaterra, mas a diferença de visões levou a parceria ao fracasso; 'Scratch' saiu de cartaz dois dias depois da estreia

Adam Langer, The New York Times

11 de novembro de 2020 | 10h00

Na época, parecia uma boa ideia: juntar dois gigantes da poesia de gerações diferentes e fazer com que eles colaborassem na reinvenção de um clássico americano.

O ano era 1969. O produtor Stuart Ostrow e o diretor Peter Hunt já tinham um espetáculo de sucesso na Broadway: 1776. Agora eles estavam de olho em The Devil and Daniel Webster, o clássico de Stephen Vincent Benét, de 1936, sobre Jabez Stone, um camponês de New Hampshire que vende sua alma ao diabo, quer voltar atrás e convoca o orador e estadista Daniel Webster para discutir seu caso perante um júri composto por vilões americanos.

A história fora adaptada para uma ópera em 1939 e um filme em 1941, mas ainda não um musical.

Quem escreveria o libreto seria Archibald MacLeish, poeta três vezes vencedor do Prêmio Pulitzer e autor de J.B, peça ganhadora do Tony que reinventava o Livro de Jó. O compositor e letrista seria Bob Dylan - décadas antes dele oferecer suas canções a Twyla Tharp em The Times They Are A-Changin, de 2006, e a Conor McPherson em Girl From the North Country. (A temporada deste espetáculo na Broadway foi interrompida pela pandemia).



“Stuart teve a ideia de que conseguiríamos fazer com que o poeta mais velho e o poeta mais jovem trabalhassem juntos”, lembrou Hunt numa conversa no início deste ano, antes de morrer aos 81 anos de complicações do mal de Parkinson.

“Achei que juntar o poeta laureado da República com o compositor da América seria um convite especial para públicos jovens e velhos”, acrescentou Ostrow num e-mail recente.

O espetáculo Scratch tirou o título do nome pelo qual o diabo se apresenta na história de Benét. MacLeish ofereceu uma meditação profundamente ponderada sobre a natureza do bem e do mal, indagando obliquamente se os ideais sobre os quais a América fora fundada poderiam perdurar na época de Richard Nixon e do Vietnã.

O espetáculo seria o “oposto de um musical”, MacLeish escreveu a Ostrow em cartas que agora estão na Divisão de Teatro Billy Rose da Biblioteca Pública de Nova York; seria uma “peça de baladas”, apresentando um ator em trajes modernos que cantaria canções e serviria de condutor entre o público e a ação no palco.

Quanto ao que esse trovador do século 20 cantaria, bom, este era o trabalho de Dylan.

MacLeish propôs alguns títulos de músicas - entre eles, Red Hands, Lower World, New Morning e Father of Night. E Dylan, que se cansara dos holofotes e estava experimentando novas personas, começou a escrever de acordo com as especificações.

O poeta se entusiasmou com as contribuições iniciais de Dylan. “Suas canções têm me assombrado - e me animado”, escreveu ele a Dylan. “New Morning se casa com a abertura como se tivessem sido feitas uma para a outra”.

Mas Dylan e MacLeish estavam separados não apenas pela idade, mas também pela formação, estilo, temperamento e sensibilidade. MacLeish dividia o tempo entre sua casa no oeste de Massachusetts e um clube privado em Antigua, era produto de internatos e universidades da Ivy League. Dylan, um artista mais instintivo e menos meditativo, nascera em Minnesota, filho de um dono de loja de eletrodomésticos judeu e, como afirmou em Rough and Rowdy Ways, seu último álbum, “nascido do lado errado da ferrovia, como Ginsberg, Corso e Kerouac”.

Uma discordância sobre a letra de Father of Night sintetizou a diferença entre as duas visões. A música de Dylan estava cheia de oposições (“Pai do dia, Pai da noite / Pai do preto, pai do branco”). MacLeish gostava da melodia, mas achava que a música deveria falar mais exclusivamente sobre a natureza do mal; ele sugeriu uma letra alternativa: “Pai da noite, pai do pavor / Pai do frio no vazio ao redor / Pai da serpente sob a pedra / Pai do medo sozinho no escuro”.

Conforme relatado nas fantásticas memórias de Dylan, Chronicles: Volume One, de 2004, o encontro entre o septuagenário MacLeish e Dylan, de 20 e poucos anos - com o poeta mais velho discorrendo sobre Safo, Sócrates, Dante e John Donne - parece um diálogo tirado do filme Trocando as Bolas, quando o vigarista Eddie Murphy de repente se vê bem-vindo à casa do aristocrata Dan Aykroyd.

Inevitavelmente, o processo criativo de Scratch emperrou; a história desse fracasso difere de acordo com o narrador.

“Eu desisti da produção”, escreveu Dylan no encarte de Biograph, sua coleção de takes alternativos, gravações clandestinas e outros materiais lançada em 1985. “Não foi nada de mais, acho que algum tipo de mal-entendido, imagino”.

Tempos depois, em Chronicles, ele voltou a escrever: “Eu sabia que não poderia ter nada a acrescentar à mensagem da peça. Ele não precisava da minha ajuda”.

Em seu livro de memórias de 2005, Present at the Creation: Leaping in the Dark and Going Against the Grain, Ostrow, quatro vezes vencedor do Tony cuja carreira na Broadway durou quatro décadas, discorda da versão de Dylan, para dizer o mínimo. Ele apresenta o futuro ganhador do Nobel como um idiota monossilábico e afetado que congelou na presença de um verdadeiro homem de letras e passava o tempo na casa de MacLeish entornando conhaque e desmaiando no sofá.

“A única impressão que o célebre cantor folk deixou foi a desagradável mancha de sua taça de conhaque na mesa de cerejeira de 1785 na sala de MacLeish”, escreveu Ostrow.

Apesar de seu entusiasmo inicial, MacLeish se irritou com as contribuições de Dylan. “Dylan se mostrou incapaz de escrever novas canções”, escreveu ele numa carta de 1970.

Num e-mail, Ostrow foi mais direto: “Dylan não conseguia colaborar”.

Talvez. Mas, visto que Dylan tinha acabado de lançar Nashville Skyline, que trazia uma parceria com Johnny Cash, e, dois anos antes, havia trabalhado com a banda em gravações que se tornariam conhecidas como The Basement Tapes, a verdade parece mais específica: Dylan podia colaborar quando queria, mas não com Archibald MacLeish.

 


Ostrow e MacLeish pensaram em apresentar Scratch com as canções que Dylan já havia gravado, mas quando o espetáculo estreou no Teatro St. James da Broadway, em 6 de maio de 1971, foi como uma peça normal, estrelando Patrick Magee como Daniel Webster, Will Geer como Scratch e Will Mackenzie como Jabez Stone.

Sem a voz de um compositor contemporâneo para contrabalançar, deixou a impressão de algo pomposo e desatualizado, caracterizado pelo que o crítico do New York Times Walter Kerr chamou de “ecos de um estilo em extinção”.

O espetáculo saiu de cartaz dois dias depois.

“Tinha sido concebido como um musical, então fracassou”, disse Ostrow, por e-mail.

Quanto a Dylan, meses antes, ele havia lançado New Morning, coleção de uma dúzia de novas canções, incluindo a faixa-título e sua versão de Father of Night. Foi, como Greil Marcus escreveu no Times, “seu melhor álbum em anos”.


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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