O power é pop na zona cinza de Brendan Benson

Brendan Benson atua num mercado perigoso, a zona cinza do power pop. Nem doce o suficiente para emplacar nas paradas pop, nem rascante o bastante para seduzir o mercado roqueiro, a falta de definição intrínseca ao subgênero já relegou ao culto grandes bandas como Badfinger (contratada por Paul McCartney para o selo Apple no final dos anos 60) e Big Star (do começo dos 70, mas cujos discos dormiam na cabeceira de Kurt Cobain).Todos os nomes citados no parágrafo acima dizem algo a respeito do artista americano que está tendo seu terceiro álbum, The Alternative To Love, lançado no Brasil pela Sum Records. Algo, não tudo. Benson, hoje com 35 anos, não se equipara a nenhum deles. Entretanto, saudado como menino prodígio à época de One Mississippi (1996) e ressurgido como artesão pop em Lapalco (2002, também lançado aqui pela Sum), ele é hoje um compositor maduro, consciente da sua dose de talento e dos recursos do estúdio.The Alternative To Love abre com o riff de guitarra mais pegajoso ouvido nos últimos 15 minutos, o de Spit it out. Secundado por um theremin (velharia eletrônica bem recauchutada também, por exemplo, pelo quarteto carioca Leela), ele torna a audição da faixa inesquecível, quer você queira, quer não. Isto é pop: quando a gente se dá conta da mera existência da música, oh-oh, tarde demais... Não adianta raspar o ouvido no meio-fio.De quebra, o homem dos sete instrumentos Benson arrumou letra esperta, metalingüística, para esta música batizada como Cuspa: ?Atenção, então, porque não há maneira de parar/ Toda bolha que você soprar, eu vou estourar/ Assim, olhe para baixo agora, eu vou deixar cair/ Escute agora.? Isso é uma grande notícia. Boas notícias, como se sabe, carregam más notícias: Spit it out é a melhor música de The Alternative To Love, disparado.Não que as outras 11 faixas sejam ruins. Nenhuma delas passa do chão quando Benson as deixa cair. Só que Spit it out é tão perfeita, tão marcante na memória que deixa a impressão de ser a matriz espiritual de todas as muitas músicas redondinhas que constam do álbum: Cold Hands (Warm Heart), Feel Like Myself, The Pledge, What I?m Looking for, Between Us. O CD anterior, Lapalco, era mais variado e, portanto, superior.O formato aqui é: riff de guitarra ou de piano, letra agridoce (aliás, a editora de Benson se chama Glad Sad Music) e melodia, hummm, beatlemaníaca. Os Beatles, afinal, são os pais do power pop, como de tantas outras vertentes. Benson, nascido em Michigan, radicado na Califórnia, tem sensibilidade para captar os eflúvios de meio mundo para trás, no tempo e no espaço. Sem simular nenhum sotaque que não seja instrumental, ele até mesmo passa por britânico em Flesh and Bone, a ponto de soar como John Lennon cantando uma música de Paul McCartney arranjada por George Martin.Este, por sinal, é o outro ponto alto de The Alternative To Love. Além da habilidade de compor e executar as músicas, Benson tem o dom de arranjá-las de modo conveniente. O theremin é apenas a ponta do iceberg. Se escutado de fones, o álbum cresce, tal a quantidade de detalhes acústicos e valvulados e digitais vislumbrados pelo artista e pelo produtor Tchad Blake, que só foi meter a mão no estúdio de Peter Gabriel, na Inglaterra.Tais referências e informações, todavia, não devem obscurecer o fato de que Benson (ao menos ainda) não é mainstream. A aparição da palavra ?alternative? no título do CD não parece ter sido casual. Apesar do esmero técnico, o clima geral do trabalho não está muito distante de seus compatriotas David Bazan (do Pedro The Lion) e Elliott Smith (que se matou há quase dois anos). O espírito de Benson, porém, não vai tão fundo.Suas canções são aquilo que os anglófonos chamam de light-hearted. Elas têm o coração leve, mesmo quando como (quase sempre) cutucam as relações amorosas. Benson nunca estraga o prazer meio tolo de ouvir suas músicas, aplainadas até a eliminação de qualquer aresta. Por isso, a anunciada gravação de um álbum seu em dupla com Jack White (dos White Stripes), geniozinho cuja música é farpada, merece a expectativa criada.

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